Batman v Superman: A Origem da Justiça

“União dos três maiores heróis da DC é marcada por boas introduções e megalomania prejudicial”.

Por Luís Gustavo Fonseca

Anunciado logo após o lançamento de O Homem de Aço, na San Diego Comic Con de 2013, o filme que colocaria o Batman contra o Superman se tornou, quase que instantaneamente, um dos eventos mais esperados de todos. Seria a chance de ver, pela primeira vez, dois dos maiores ícones dos quadrinhos dividindo a mesma tela, sobretudo confrontando um ao outro. Como se não bastasse, o filme ainda teria a Mulher Maravilha, fechando a Trindade de Heróis da DC. Como não contar os dias por isso? Quase três anos depois, é chegada a hora de ver o resultado em tela.

O longa se inicia contando rapidamente a origem do Batman (uma ótima ideia, pois não precisa ser mais abordado em seu filme solo) e mostrando o final de O Homem de Aço pelo ponto de vista de Bruce Wayne (Ben Affleck), revelando que o milionário tem motivos pessoais para desgostar do kryptoniano. Após a luta que causou a destruição de Metrópolis, a opinião pública está dividida entre os que veem o alienígena como o herói e os que o consideram uma ameaça para a humanidade. No segundo grupo, está Lex Luthor (Jesse Eisenberg), que tenta convencer o Senado Americano a criar uma arma contra o Superman (Henry Cavill). O Batman divide esse pensamento do Lex, tornando inevitável o embate entre os dois personagens.

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Esse lado estrategista e argiloso de Luthor é um dos pontos positivos da obra. O personagem (que ainda não é aquele que conhecemos, por exemplo, do antigo desenho da Liga da Justiça) é interessante, cheio de tiques nervosos, com um humor estranho e frases de efeito. Tudo bem, isso pode ser irritante, mas há de se valorizar a abordagem diferente e, por que não, inovadora. Esse tipo de papel, perturbado e excêntrico, é algo que o Jesse Eisenberg sabe fazer bem, em uma atuação aceitável, mesmo que, às vezes, caricata.

Outro que manda muito bem é Ben Affleck. Contestadíssimo quando escolhido, o ator conseguiu dar a volta por cima e provar seu valor, tanto como Bruce Wayne como quanto Homem Morcego. Que Batman, caro(a) leitor(a)! O visual do personagem, com o morcegão no peito, é muito bem acertado, e vemos uma versão do herói que se difere das anteriores. Ele é visivelmente trastornado pelo seu passado, o que deixa a sua “loucura” como combatente do crime algo mais profundo. De quebra, desmistifica aquela áurea “herói-preparado-para-tudo-que-sem-poderes-vence-qualquer-um” que se criou em volta dele, trabalhando-o de novas maneiras e possibilitando a exploração de caminhos diferentes. Ansioso para ver como será o direcionamento do seu filme solo (que contará com Jeremy Irons que, com poucos minutos, já mostrou uma personalidade única para o Alfred).

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Agora fica mais claro como isso influencia a vida do Batman

Fechando a trinca do duo roteiro e atuação, temos Gal Gadot. Já havia passado da hora da Mulher Maravilha ter uma versão nos cinemas a altura da heróina, e os seus primeiros momentos em Batman v Superman dão boas esperanças para o futuro. A personagem é interessante tanto quando está disfarçada de civil até o momento que, finalmente, está trajada para o combate. Aliás, que momento épico! O tema da personagem (a melhor faixa da trilha sonora), sua aparição na batalha derradeira, as cenas de ação com ela… Se a obra tem um vencedor, essa pessoa é a guerreira amazona.

De bom, é possível citar, ainda, as cenas de ação, que correspondem as expectativas (convenhamos, é o mínimo que o filme tinha que fazer), alguns bons fans service (com aparições para lá de interessantes) e o cuidado em certos detalhes. Entre eles, o mais interessante é o modo que a produção encontrou para “anunciar” a chegada do Superman: sempre que ele vem voando em alta velocidade, dá para ouvir o barulho do rompimento da barreira do som, algo totalmente crível e que eu nunca tinha parado para pensar.

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O problema é que essas qualidades estão diluídas em um filme extremamente megalomaníaco, que cai, em parte, perante o próprio peso. OK, é a união da Trindade da DC, mas os produtores e o diretor Zack Snyder (Watchmen, 300)  querem fazer tudo grande demais, espetacular demais… E erram a mão em coisas mais simples, atrapalhando a construção e o foco do filme. Eu gosto de O Homem de Aço, mas revendo para este filme, pude perceber como a primeira metade da obra é mal editada, pulando de um núcleo para o outro de maneira brusca, não dando consistência na amarração do enredo. E o MESMO acontece em Batman v Superman: é o drama do Superman, a investigação do Batman, os planos de Luthor, o trabalho jornalístico de Lois Lane (Amy Adams)… Um carrossel de subtramas que se embaralham e atrapalham totalmente o ritmo da produção. A duração do longa (2h31) em nada ajuda, já que a obra poderia ser bem mais curta ou ter sido melhor preenchida.

O roteiro de David Goyer (o mesmo da trilogia Batman de Christopher Nolan) e Chris Terrio (Argo) ainda falha em dar contornos mais interessantes para Clark e Lois, o que não só prejudica o trabalho dos atores (com duas atuações medianas), como desbalanceia o filme, já que fica (ainda mais) fácil de se afeiçoar pelo Batman. O Superman já é um personagem difícil de gostar, justamente pelo seu modo perfeito e “bom escoteiro” (tanto que minhas versões preferidas do personagem são as suas um pouco mais distópicas, como Entre a Foice e o Martelo e Reino do Amanhã), mas a visão do diretor para o alienígena, apesar de diferente, incomoda, sobretudo porque o Superman muitas vezes está mais preocupado com a segurança da Lois do que as dos demais. Essa tirinha acho que resume o problema:

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A luta entre os personagens título é, de fato, sensacional, de deixar os fãs com sorriso no rosto. Felizmente, há momentos que não aparecem nos trailers, mas há exemplo do embate do Hulk contra o Homem de Ferro em Vingadores: Era de Ultron, a maior parte nós já conhecemos. A coreografia dos embates é bacana, mas Snyder tem uma filmagem irritantemente tremida e as lutas acontecem, em sua quase totalidade, de noite, o que deixa tudo escuro e difícil de compreender (e desnecessário dizer que o 3D em nada contribui, né?). Se temos de um lado o retorno do slow motion, marca registrada do diretor, por outro temos o já revelado Doomsday que, de fato, não tem um visual a altura do vilão, e participa de um clímax… OK. Assim como O Homem de Aço, no fim da obra você já está anestesiado, e o combate não transmite a emoção que deveria. Aliás, por que queimar um personagem tão importante na segunda produção do Universo Cinematográfico?

Finalmente, o aspecto que talvez mais me incomode do filme é a trilha, composta por Hans Zimmer (Interstellar, Homem de Aço) e Junkie XL (Mad Max: Estrada da Fúria, Deadpool). Eu esperava tanto pela união de dois dos meus compositores favoritos, mas o resultado final não é AQUELA coisa. Claro, ela tem sim uma boa qualidade, mas em vários momentos, a música não combina com o que parece em tela. Ela toca de maneira épica e triunfal em situações que não demandam algo tão grandioso assim, proporcionando um incômodo desarranjo.

No final (e não, não há cenas pós créditos), a certeza é que a obra vai mesmo dividir opiniões. Acerta em vários aspectos, te deixa ansioso para os demais filmes (AGORA esse Universo da DC vai!), mas a impressão derradeira é que o filme poderia ser muito mais, que a Trindade merecia algo muito melhor. O pior é pensar que esse é o trabalho de Zack Snyder que menos me agrada, justo ele, que é o meu diretor favorito. E, caso você ainda não tenha visto o filme, não deixe que as opiniões da crítica (esta inclusa) ou de outras pessoas te desanimem. Faça o favor de ver e presenciar esse grande momento para as adaptações de quadrinhos.

Nota: 6,5/ 10.

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