Rua Cloverfield, 10

“Clima de suspense e claustrofobia é o grande trunfo de ‘parente’ do filme de 2008”

Por Luís Gustavo Fonseca

Cloverfield, Monstro, de 2008, talvez seja um dos poucos filmes de “terror” (apesar de seu tom aventuresco) que eu tenho simpatia. Provavelmente, devido à mistura do estilo de filmagem (como não gostar de câmera na mão?) com o fato da obra te deixar tão perdido quanto os seus personagens, sem saber o que está acontecendo e mostrando o monstro apenas raramente. Por isso, qual foi a surpresa quando anunciaram Rua Cloverfield, 10, também produzido por J. J. Abrams (Star Wars: O Despertar da Força), no início deste ano? E maior surpresa ainda ao conferir que, na verdade, há pouco ligação entre os filmes?

Neste filme, Michelle (Mary Elizabeth Winstead) sofre um acidente de carro e é “resgatada” por um misterioso (e, aparentemente, perturbado) homem, Howard (John Goodman). Ao acordar em um bunker, Howard conta para ela que houve um grande ataque químico, não sendo mais possível viver na superfície. Os dois dividem o abrigo com Emmett (John Gallagher Jr.), dando início a uma tensa convivência pós apocalíptica.

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O clima constante de tensão é a grande sacada do filme. Toda a ambientação do longa é sufocante, fazendo com que o telespectador fique tão tenso e perdido como Michelle, suspeitando de tudo o que acontece ao seu redor. Mérito do diretor estreante Dan Trachtemberg, que já havia feito o ótimo curta Portal: No Escape (sim, o do jogo da Valve e que até hoje não tivemos um filme). Com close-ups no rosto dos atores, ele não apensar consegue tirar o máximo das expressões de seu pequeno elenco, como aumenta o sentimento de claustrofobia do pequeno ambiente utilizado. Sensação reforçada pela boa trilha de Bear McCreary (Agents of SHIELD), que colabora para dar contornos ainda mais sombrios a produção.

E o trio principal corresponde a qualidade presente na direção e no roteiro. Tudo bem, John Gallagher Jr. é apenas uma “escada” para a trama, mas o trabalho dele não prejudica o filme. Por outro lado, John Goodman e Mary Elizabeth Winstead apresentam duas das atuações mais bacanas deste ano. O primeiro deixa de lado sua imagem de personagens mais carismáticos e cômicos e nos mostra uma faceta mais aterrorizante, de forte presença e com ares de psicopatia. Alguém mentalmente doente e que precisa ter companhia, custe o que custar. Winstead não deixa isso por menos e faz uma personagem igualmente presente, com personalidade e com facilidade para afeiçoar. Os dois se complementam, deixando a obra ainda mais impressionante.

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Com cerca de 1h40, o roteiro da obra é ágil, dinâmico e eficiente. A história não se preocupa muito em situar o espectador, em contar o que aconteceu lá fora. E isso é uma escolha acertada. O que importa é o que acontece dentro do bunker, e como pessoas tão diferentes convivem em tal situação. Os diálogos são bem construídos, e as pistas apresentadas ao longo do enredo, que vão construindo o background do paranóico Howard, são reveladas sem afobação, no momento certo. Novamente, bato na tecla do clima de tensão: até nos momentos (aparentemente) mais felizes do filme, ainda há aquela sensação de inquietação, que algo não está certo.

Uma pena, porém, que o terceiro ato esteja um pouco deslocado do resto. Não é um desfecho ruim ou mal feito. É a hora em que algumas respostas são dadas ao telespectador, e, talvez, uma conexão é feita com o Cloverfield. Porém, a trama não demandava ir por esse caminho, o que me desapontou um pouco. Acho que teria sido uma saída mais interessante se o espectador continuasse no escuro, e a trama, pé no chão. Embora nada disso desmereça os méritos realizados pelo filme.

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No fim, não importa muito se há ou não alguma ligação com o longa de 2008. Rua Cloverfield, 10 se sustenta por si só, tornando-se um dos filmes mais interessantes e bem executados lançados no país até agora este ano.

Nota: 8,5/ 10.

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4 comentários sobre “Rua Cloverfield, 10

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