Capitão América: Guerra Civil

“Equilíbrio, maturidade e ação grandiosa. Os ingredientes que tornam a nova produção da Marvel em um épico dos super-heróis.”

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Entre 2006/07, o universo Marvel das HQs foi chacoalhado pelo lançamento do mega crossover Guerra Civil, história escrita por Mark Millar e com desenhos de Steven McNiven. A saga, dividida em sete edições, foi responsável por dividir boa parte dos heróis da editora, assim como os fãs. De um lado, estava o Homem de Ferro e aqueles que eram a favor do registro dos heróis junto as autoridades, abrindo mão de suas identidades secretas. Do outro, o Capitão América liderava os que acreditavam em suas liberdades individuais, e que o trabalho dos heróis não poderia estar a mercê de possíveis interesses suspeitos daqueles que governam.

A ideia do registro de super heróis não era inovadora. Vale lembrar que obras como Watchmen e, no cinema, em Os Incríveis, já haviam trabalho, de alguma forma, com a temática. Mas a leitura ainda vale a pena. Millar pode ter seus problemas de narrativa, mas este é um de seus trabalhos mais coesos e interessantes.

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Qual o seu lado?

Uma década depois, o arco serve de inspiração (atenção para essa palavra) para Capitão América: Guerra Civil. Após os acontecimentos de Vingadores: Era de Ultron, a ONU se mobiliza para formular os Acordos de Sokovia, que determina que os Vingadores só deveriam atuar quando a entidade achar necessária, em situações que ela julga conveniente. É a partir daí que surge a grande divergência entre o Tony Stark e Steve Rogers.

O filme é sensacional e cumpre seus objetivos, mas tem algumas imperfeições, que é por onde eu começo. Uma delas é a qualidade do CGI em algumas cenas, que fica aquém do que o estúdio já mostrou e dão um ar muito artificial a certas sequências (e olhe que o uniforme do Homem-Aranha, que muita gente estava se sentindo incomodada, nem é o problema). Outras cenas de ação, principalmente na primeira hora, são marcadas por uma câmera demasiadamente tremida, que tira um pouco do brilho das lutas fantásticas presentes na produção. Aliás, a primeira hora da obra flerta perigosamente com o mesmo erro de Batman v Superman: A Origem da Justiça: uma edição confusa, que fica saltando de uma localidade para outra. Guerra Civil é mais inteligente ao amarrar essas subtramas e dar continuidade a história, mas chega no limite para não se perder. E claro, o 3D, que como a maioria dos outros filmes, pouco acrescenta (o IMAX, contudo, para quem tiver a oportunidade, é uma recomendação). Há, ainda, um último ponto, que voltarei adiante. São imperfeições que não comprometem a qualidade do longa, mas que não podem passar batidas.

Uma breve ressalva: necessário destacar a iniciativa dos roteiristas de internacionalizar os personagens e a trama, com ela ocorrendo em vários lugares: Nigéria, Inglaterra, Áustria, Alemanha, Rússia. É um recado que tais personagens não pertencem apenas aos americanos, mas ao mundo todo.

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De resto, Guerra Civil é praticamente impecável. Com o retorno na direção dos irmãos Joe e Anthony Russo (Capitão América: O Soldado Invernal), temos a volta das grandes cenas de ação urbana, com pancadaria corpo-a-corpo em nível frenético e cortes rápidos. E como esses dois SABEM fazer esse tipo de coisa! A coreografia dos embates é extremamente bem executada, sendo uma versão PG-13 do que vemos na série do Demolidor. E isso, acho, é o melhor elogio que eles podem conseguir.

Mas quando a batalha ganha ares épicos, com seres com super poderes, a direção também não decepciona. Caro(a) leitor(a), a sequência do aeroporto… A sequência do aeroporto! QUE COISA ESPETACULAR! Não apenas é o ápice da ação do Universo Marvel dos Cinemas, mas deve ser a melhor sequência de ação do gênero de super heróis da história. TODOS os personagens têm seus momentos, os diversos duelos fluem muito bem na tela, com cada um deles tendo sua importância, relevância. A batalha no clímax é menos grandiosa (mas tem um frame que homenageia a HQ e que é lindíssimo), mas compensa por ter uma extrema carga emocional, elemento chave no enredo: se importar com os personagens, a ponto de querer que eles parem de brigar no fim.

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A palavra que define o filme, como um todo, é equilíbrio. Em uma obra com tantos personagens, muitos deles com o qual já temos empatia, é fácil de você perder a mão e alguns deles acabarem sub aproveitados. Não é o caso. O roteiro escrito por Christopher Markus e Stephen McFeely (os mesmos de Soldado Invernal) consegue equilibrar as aparições e, principalmente, as motivações desses personagens. Ninguém está ali a toa. Nem mesmo as mais novas introduções deste universo: o Homem-Aranha e o Pantera Negra.

O primeiro, mesmo que não apareça por muito tempo, deixa sua marca e é um deleite para qualquer fã da Marvel, que finalmente vê o herói icônico da editora neste universo. Tom Holland já o melhor Cabeça de Teia dos cinemas, sendo excepcional tanto como Escalador de Paredes como Peter Parker. Que venha o seu o filme solo!

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Outro que estou curiosíssimo para ver em sua própria obra é o Pantera Negra. O personagem é o responsável por dar um tom mais dramático a trama, e Chadwick Boseman não deixa por menos, em um ótima interpretação. As cenas de luta do herói são fenomenais, e você cria empatia com ele imediatamente. O que vai ter de gente virando fã dele após o longa não será brincadeira. E o personagem merece.

LEIA TAMBÉM: #TeamCap, #TeamIronMan e o poder da discussão

O equilíbrio também se faz presente no tom da obra. O humor da Marvel (esse mesmo, que tem tantos adoradores como odiadores) está lá, e o trio Homem-Aranha, Falcão e Homem Formiga são responsáveis por 80% das risadas do filme. Contudo, é um humor bem distribuído, que aparece na hora certa. A produção é marcada por um caráter maduro ao tratar de um assunto tão pertinente, dando a devida profundidade aos dois lados. Os argumentos de ambos os times são claros e bem construídos. Aliás, o aspecto é tão bem trabalhado que eu entrei na sala como um #TeamCap, quase me tornei um #TeamIronMan na metade e, no fim, apenas queria que eles entrassem em acordo e parassem o conflito.

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As relações e as amizades dentro do grupo são outro ponto forte da trama, e nenhuma delas fica solta, desenvolvida pela metade. A de Steve com Bucky, claro, acaba ganhando maior destaque, já que ela é quem faz a história ir para frente. Mas a principal talvez seja a do Capitão América e do Homem de Ferro, e de como tudo desenvolve naturalmente até que chegue ao ponto do conflito físico entre os dois. Novamente, o filme acerta ao criar a carga emocional que a obra exigia. Visão e Feiticeira Escarlate, Homem de Ferro e Homem-Aranha, Bucky e Falcão, o Pantera Negra e o resto do grupo… Todas essas relações importam.

O grande calcanhar de Aquiles do texto é Zemo, vivido por Daniel Bruhl. O ator não compromete, mas a impressão passada é que o vilão (que não tem quase nenhuma ligação com a sua contraparte dos quadrinhos) é sub aproveitado, sendo mais um desperdício do MCU. Sim, é ele que faz a trama ir para frente, e sim, há um interessante paralelo entre sua motivação e a dos heróis. Mas poderia ter sido melhor explorado, e o seu plano não tem muitas diferenças do de Lex Luthor, apesar de ser um pouco melhor construído (e contar com um deus ex machina impressionante). Aliás, a resolução do longa poderia ter sido mais ousada, com consequências maiores. Faltou culhões para a Marvel.

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O texto já está gigante e se você chegou até aqui, agradeço a paciência. Vamos agilizar isso. Henry Jackman compõe uma ótima trilha, que se destaca principalmente no duelo final, mas sua composição em O Soldado Invernal é mais marcante. Em relação as atuações, não há o que reclamar. Deve ser o melhor trabalho de Robert Downey Jr. pela Marvel desde Homem de Ferro, com o ator sabendo maneirar seu lado cômico com o peso dramático da trama. Um coadjuvante de luxo que brilha, mas não ofusca o personagem título, interpretado muito bem, mais uma vez, por Chris Evans. Sebastian Stan, Scarlett Johansson, Paul Bettany, Elizabeth Olsen… Todos estão bem.

O MCU não será o mesmo após Guerra Civil. As repercussões do conflito devem ser melhor exploradas nas séries de TV, já que, daqui até a primeira Guerra Infinita, apenas o filme do Homem-Aranha deve estar mais conectado com esse plano político e urbano. Um efeito, contudo, já pode ser percebido: a Marvel conseguiu subir o nível de suas adaptações, alcançando um novo patamar para o estúdio. Se é o melhor já feitos por eles, isso é tema para a discussão com amigos. Mas Guerra Civil é, inegavelmente, um dos mais marcantes filmes de super heróis de todos os tempos.

Agora, quem está ansioso por um pouco de MAGIA neste universo? Doutor Estranho é logo ali.

Nota: 9/ 10.

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