Meu retorno a Tarzan

Por Matheus Araujo

Uma das belezas da vida adulta é o resgate de pedacinhos da infância. Se este pedacinho é feito de arte, para além da nostalgia, é permitido a essa obra que ressuscite ainda mais especial. Ainda mais rica, uma vez que acrescentamos novas percepções aos significados atribuídos enquanto crianças.

Tarzan pertence à safra de animações de altíssima qualidade da Disney nos anos 90, parte fundamental da minha infância já discutida aqui através de Hércules e O Gigante de Ferro. Assim sendo, é repleta de personagens magicamente carismáticos, uma trilha sonora absurda e uma animação estupenda – alguns deslizes no 3D, mas implicar com isto seria exigir de 1999 um domínio de uma tecnologia de 2016.

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Este tipo de análise, entretanto, pode ser encontrada em centenas reviews espalhadas por aí. Escrevo sobre minha redescoberta, sobre o que nunca percebi enquanto criança. O grande presente que ganho ao reencontrar, após longos anos, Tarzan consiste na maior sensibilidade em notar o quão vasta é a sua linguagem não-verbal. Uma linguagem que engloba, por exemplo, a qualidade da suposta movimentação de câmera, mostrando uma direção que prima por dinamicidade e busca aquela perspectiva, aquela angulação. Embora tudo isto seja de grande valor, embasbaco-me mesmo é por sua linguagem “corporal”. Quanta verdade é passada nos movimentos meticulosamente traçados pelos desenhistas.

É curioso ver esta qualidade se desdobrar dado ao desafio da linguagem na história, afinal nosso protagonista foi criado por gorilas e, portanto, comunica, interage e comporta-se como tal. Divertidíssimo é que, em seu contato com a civilização, o bom selvagem se encontre justamente com os britânicos, a formalidade e a polidez em forma de nação. Aliás, aproveito para observar que a maior parte do humor reside nessas fisicalidades e curioso como a comédia menos corporal seja condensada justo no Professor Porter.

Mas a beleza das interações não encanta somente com o bom humor. Perceber o pequeno Tarzan praticamente inconsolável, negando sua natureza na tentativa de ser aceito e sendo encontrado por sua mãe, que segura seu pequeno e coloca um sorriso em seu rosto… Tendo em mente que os animadores não possuíam uma referência sequer para realizar, as cenas se tornam de uma emoção inexplicável. A confiança nas habilidades de seus artistas é tamanha que, por vezes, o filme abre mão do discurso. Em perfeita resposta, sem palavras nós também ficamos ao ver o total fascínio de Tarzan em perceber em Jane uma igual.

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Nunca havia antes reparado em como os desenhos podem ignorar as convenções do nosso mundo civilizado e, naturalmente, respirar.

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