Retrospectiva Bourne

Por Matheus Araujo

Quão irônica é a proposta de recordar a franquia do agente secreto com problemas de memória?

Em 2002, os livros de Roberto Ludlum não apenas ganharam as telas, como estabeleceram o padrão do cinema de ação pelos anos que se seguiram. Dirigido Doug Liman, responsável também pelo ótimo No Limite do Amanhã, Identidade Bourne é de um estilo de ação tão poderoso que, logo em sua estreia, mudou as regras até mesmo para os maiores nomes do subgênero de espionagem, como 007 e Missão Impossível. Ou você acredita que o Bond menos glamouroso de Daniel Craig é apenas coincidência?

Para além da ação, me rendo totalmente a proposta da trama desta primeira história. Uma vez que Jason Bourne (Matt Damon) é encontrado totalmente desmemoriado, vamos aprendendo com o próprio protagonista quem ele é, como o universo de serviços secretos funciona e por qual motivo a agência para qual trabalhava está tentando tão intensamente lhe apagar dos registros. É a este aspecto, de estarmos na mesma página que o completamente perdido Jason, que atribuo a afeição natural que crescemos pelo personagem.

Dado ao seu final bem resolvido, é seguro afirmar que Identidade não pretendia estabelecer uma franquia. E justamente por contradizê-lo neste sentido que a sequência, Supremacia Bourne, não é de uma evolução completa. Para que nos encontremos com Jason em condições de um novo filme, bastou ao roteiro resgatá-lo dos dias de calmaria com o clássico “agora é pessoal”.

supremacy

Antes de rasgar os devidos elogios, pontuo outra diferença notável e não necessariamente ruim: a redução do tempo de tela de Jason. Supremacia como um todo é menor, mas os minutos do agente diminuem além da proporção. Acredito que a decisão seja uma consequência do clichê comentado acima, já que através dele, transformamos Jason em um protagonista de reação, portador de uma motivação vingativa que é notoriamente medíocre se comparada a da película anterior. Assim, os engravatados da agência, seus eternos antagonistas, são mais importantes para dar substância e desenvoltura à trama.

Quanto aos trunfos de Supremacia, a grande maioria pode ser atribuída a troca de comando. Paul Greengrass e sua câmera inquieta, com tons de apreensão, preocupação e ansiedade, são tecnicamente superiores e mais inventivos. O mais positivo é que suas adições e aprimoramentos chegam sem remover a ~identidade~ do primeiro Bourne. Toda a visceralidade das porradas e das perseguições são até mesmo elevadas a um novo patamar. Ademais, penso que Greengrass proporciona um drama melhor executado, pois apesar do arco dramático ser batido, ele faz pesar absurdamente em Jason, proporcionando, por conseguinte, um excepcional trabalho de Damon.

A crítica da sequência forçada, por outro lado, não é verdadeira para Ultimato Bourne, evidenciando que Greengrass e todo seu time pretendiam fechar uma trilogia. Como estou me esquivando de detalhar as tramas, é justo abreviar que o terceiro capítulo é um desdobramento do anterior, de forma que, por exemplo, as motivações de Jason são apenas estendidas de Supremacia. A proposta é justamente cavar mais profundamente em questões já tratadas e, em suma, o filme é uma versão Ultimate do antecessor.

Bourne-Stands-in-Jason-Bourne

Assim sendo, o mais impressionante de Ultimato se torna a técnica. O estilo de direção frenética recorre a uma variedade de takes tão grande que fico exausto só de imaginar o processo – não por acaso faturou o Oscar de Melhor Edição. É louvável também como a ação é praticamente proibida de se fazer genérica. Além de tudo virar arma na mão desses caras, o uso criativo dos cenários sacramenta o potencial de destruição de uma arma como Jason Bourne.

Se a conclusão de Identidade já era satisfatória, com Ultimato, ao rolar dos créditos se determina um fim de maneira quase definitiva. Quase porque Greengrass, que há anos negou o retorno da franquia zombando que o próximo capítulo deveria se intitular Redundância Bourne, está desaposentando o “seu” agente.

O quarto filme de Jason Bourne estreia em 28 de julho de 2016.

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