Esquadrão Suicida

“Edição e roteiro ainda são os maiores vilões da DC no cinema”

Por Luís Gustavo Fonseca

O ano de 2016 não tem sido fácil para os fãs da Detective Comics (DC). Nos quadrinhos, a editora finalizou a iniciativa dos Novos 52, promovendo o Rebirth dentro da editora. Dentre as atitudes tomadas, os personagens de Watchmen foram integrados ao universo principal dos heróis (decisão que, a princípio e sem saber como serão os desdobramentos, acho estranha e desnecessária).

Nas animações, a adaptação do aclamado A Piada Mortal pode até agradar os fãs, mas fica aquém ao material original – e ainda conta com uma polêmica facilmente evitável. Nos cinemas, o aguardado Batman v Superman: A Origem da Justiça não conquistou o carinho da crítica e dividiu a opinião dos fãs. Apesar da boa bilheteria, não dá para cravar que o longa foi um sucesso. E, mesmo para os que gostaram do filme, há ainda um gosto amargo na boca de “poderia ser melhor”, algo que a versão Ultimate, em parte, proporciona, mesmo não corrigindo os principais problemas da produção (convenhamos: os fãs mereciam a versão de 3h, e não aquele trabalho feito pelo Jack, O Estripador, que foi para os cinemas).

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Ao resgate!

Coube então aos “piores vilões da história” a indigesta missão de salvar o ano da Detective Comics. Comandados por Amanda Waller (Viola Davis), o time de supervilões, liderados por Pistoleiro (Will Smith), Arlequina (Margot Robbie) e Rick Flag (Joel Kinnaman), devem enfrentar um “ataque terrorista” que ocorre em Midway City. Ou completam sua tarefa, ou os vilões morrem.

David Ayer (Corações de Ferro) é responsável pela direção e pelo roteiro da obra. No primeiro quesito, ele se destaca. As cenas de combate são bem feitas, sendo raros os momentos que deixam o espectador perdido. O diretor demonstra evolução no quesito em relação a Corações, aproveitando-se melhor dos efeitos especiais – outro bom aspecto da produção, que conta com um 3D que tem seus bons instantes e que, felizmente, não atrapalha a fotografia. Há um exagero, vez ou outra, de um slow motion que pouco acrescenta, mas Ayer compensa isso com um posicionamento de câmera competente.

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A sua parte roteirista, todavia… Uma pena. Analisando a filmografia de Ayer, dá para perceber como ele trabalha bem a ideia de “camaradagem” entre seus principais personagens, seja em Corações de Ferro ou em Marcados para Morrer. Há um vínculo forte entre os protagonistas, e esperava que essa assinatura viesse para o Esquadrão – até para diferenciar da dinâmica de outras equipes, como Vingadores, X-men e Guardiões da Galáxia. Mas isso acontece de maneira tardia, apenas no início do terceiro ato. Sem este entrosamento, a empatia do espectador fica dependente de lampejos individuais dos personagens.

A apresentação deles é feita de maneira rápida nos primeiros vinte minutos (com uma penca de informações brotando na tela que mal podem ser lidas), havendo uma maior dedicação apenas para o Pistoleiro e a Arlequina. O background entrega o básico, mas deixa algumas perguntas no ar que, depois, precisam ser retomadas, o que atrapalha a dinâmica do filme. Aliás, assim como Batman v Superman, e assim como a primeira hora de O Homem de Aço, a edição é o maior vilão da produção. Um roteiro com uma ideia simples e que toma direções óbvias (não que isso seja, necessariamente, um problema. Veja só o caso de Deadpool) é atrapalhado pela variedade de subtramas: é o jogo político de Waller; um mafioso e gangster Coringa que planeja salvar Arlequina; a empreitada do grupo em sua missão suicida (e seus respectivos conflitos internos); e o núcleo da vilã – extremamente mal desenvolvido, no qual mal se sabe suas motivações e que é esquecido no segundo ato do longa.

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O humor da obra é surpreendentemente escasso (se você é um daqueles que não suporta mais de duas piadas de um filme da Marvel, fique tranquilo: esse é para você), e, quando aparece, é forçado e raramente acontece de forma orgânica, genuína. Há a subutilização das habilidades de vários dos integrantes (Amarra, Killer Croc, Capitão Bumerangue, Katana…), algo que eu tinha uma grande expectativa para ver como iria funcionar.

A relação entre o Coringa e Arlequina, uma das retratações que mais me preocupava, tem acertos e erros. Fica evidente o quão abusiva a relação é, e como o Coringa praticamente escraviza a personagem, refém de um amor que só existe da parte dela. Por outro lado, é justamente esse sentimento que motiva a personagem, algo que, ao meu ver, dá um caráter “romântico” ao relacionamento, o que dá brecha para que o público interprete a relação abusiva de maneira equivocada . Aproveitando a deixa: não é da minha competência analisar isso da forma como deve ser propriamente feita, mas a Arlequina é menos sexualizada do que eu pensava que seria. Não que isso sirva de algum consolo, mas a maioria das cenas que a objetificam já foram mostradas nos trailers e tv spots.

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Will Smith, Margot Robbie e Jay Hernandez (o El Diablo) têm as melhores atuações da equipe. Os dois primeiros pela presença de espírito e a grande carisma, e o último por proporcionar, surpreendentemente, um personagem mais cheio de camadas e profundo que os demais. O restante – talvez com exceção de Joel Kinnaman – é desperdiçado. Quem rouba a cena é Viola Davis, em uma atuação de peso, imponente e digna de aplausos. Um dos melhores acréscimos do universo DC até agora.

“UÉ! Mas e o Coringa do Jared Leto?!” Pois é… Gosto da ideia de darem uma personalidade própria para ele, o diferenciando das demais interpretações que o personagem já teve. Mas o sucessor de Heath Ledger ainda tem que se esforçar muito para alcançar o mesmo nível. Não é um trabalho ruim – e a forma como o roteiro explora o vilão também não ajuda muito -, mas é uma apresentação aquém do que o ganhador de Oscar pode fazer. A sensação é que o personagem estava lá muito mais para ajudar na venda da produção.  Acredito, contudo, que ele será melhor aproveitado e desenvolvido no futuro. Em contrapartida, um vencedor de estatueta que não decepcionou foi o compositor Steven Price (Gravidade), que compõe uma ótima trilha tanto em sua parte instrumental (mesmo que, se você prestar atenção, conseguirá ouvir a repetição de certos acordes usados no drama espacial) quanto na utilização de músicas já consagradas. Uma ou outra que, talvez, tenham sido utilizadas de maneira equivocada, mas que no geral, acrescentam.

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Muito barulho por (quase) nada

Por fim, Esquadrão Suicida ainda não é a DC que queremos e merecemos ver no cinema. Penso que o destino, ou melhor, os deuses gregos, estão exercendo suas forças para que a DC decole, em definitivo, com Mulher Maravilha, seja usando o jato invisível ou não. Tivemos um excelente trailer lançado na Comic Con, e seria bem simbólico se essa guinada viesse justamente no primeiro longa protagonizado por uma mulher, em um “gênero” absolutamente dominado pelos homens até agora. Quanto ao Esquadrão? Não sei se há a necessidade de um segundo filme. Os personagens podem ser melhor aproveitados se fizerem parte dos longas dos heróis. Enquanto isso, o universo DC vai se desenvolvendo. Tropeçando, caindo… Mas que com o tempo, irá realizar maravilhas.

Nota: 6/ 10.

P.S.: A DC se rendeu: há uma cena pós créditos, não saia antes da hora!

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