Precisamos falar sobre Pokémon GO

Por Matheus Araujo

O massivo sucesso de Pokémon GO incomoda muita gente. Críticas desde ao despropósito do jogo até uma reflexão quanto à alienação de gerações. Gerações, já que muitos julgam bizarra a “adoção” do brinquedo por adultos. Pois é, aspas. Sequer é uma adoção. Pokémon GO é, sim, brinquedo de gente grande.

Pense bem. A centena e meia inicial de pokémons “pertence” a qual geração? Lançado em meados dos anos 90 e auge nos arredores do milênio, a propriedade intelectual dos monstros de bolso é o que é por conta daqueles que hoje se tornam jovens adultos. Precisamente, o grupo focado para essa explosão da marca nos smartphones. Para as crianças é um joguinho, para o (meu) pessoal dos 90 é reviver e consumar um sonho de infância.

Para sanar qualquer dúvida, conte, por favor, quantas crianças estão no trailer do jogo:

Okay. Estabelecido que Pokémon também é brinquedo de gente grande, é chegada a hora de melhorarmos o discurso e repensarmos o porquê tentam associar negativamente o objeto de fascínio de adultos com o objeto de fascínio de crianças. Qual a necessidade de depreciar os interesses infantis? De onde surge a certeza de que o adulto é o ser dotado dos melhores encantamentos? Não seria o entretenimento infantil tão elaborado quanto os demais? Minha mais forte relação com um produto Pokémon contradiz essa conduta opressora.

Não tive um gameboy, nunca joguei Pokémon. Meu contato se fez pelos episódios do anime e foi incessantemente reforçado pela minha fita de vídeo cassete com o longa-metragem Mewtwo Contra-ataca, que tem seu enredo partindo do deslumbramento do final dos anos 90 com a clonagem: Mewtwo é o clone de um dos pokémons mais raros de todos – Mew -, todavia, ainda assim, está condicionado a uma existência engendrada para servir ao homem. Com intelecto e poderes superiores ao planejado, Mewtwo jamais cogita a possibilidade da subserviência.

maxresdefault

Até aí, uma premissa bem tranquila. O básico da revolta da criação – inclusive, habemus uma referência explícita: Pokenstein! O mais curioso parte da frustração de Mewtwo e a sua   negação em se reduzir à uma experiência de laboratório, que o levam a buscar o seu propósito. Ser ou não ser? Ser uma cópia. Seu próprio discurso mostra certa profundidade, desafiando a prática do pokémon – do monstro de BOLSO – como construção social:

“Os humanos me criaram, mas jamais me escravizarão. O meu destino não pode ser esse. […] Eu não nasci um pokémon. Eu fui criado! E os meus criadores me usaram e me traíram! Então, eu ficarei só!”

Foda é que pra ter filme, o pokémon mais forte do mundo se posiciona como um terrorista num radicalismo com direito a plano por purificação da Terra, através de dilúvio, da raça humana e dos pokémons que os servem. E repovoamento da Terra pelos clones, claro! Felizmente, o andar da carruagem pelo entretenimento por entretenimento não supera a problematização e o discurso inicial conduz a obra até o fim. A ideia não se perde nem mesmo na ação, prova disso é o quão exasperante é ver o Pikachu preso na pokébola ou a calamidade instalada por Mewtow ao bloquear todos os poderes especiais dos pokémons e os fazer cair na porrada mais brutal.

Pelicula 1

Falando em Pikachu, Ash e sua turma possuem uma participação razoavelmente limitada. Além de Mewtwo, eu atribuiria o brilho ao outro pokémon falante, Meowth. O pokémon que rouba outros pokémons – praticamente um capataz – traz a perspectiva do pokémon mundano, demonstrando-se bastante doído com a situação dos clones, especialmente durante o embate com Meowthtwo:

“Quer dizer que nós não temos que lutar mais? Como posso confiar em você? Você nasceu diferente. […] Eu quase cometi um engano terrível. Mas como vou saber se você não vai me atacar? […] Tem razão, nós temos muito em comum: a mesma terra, o mesmo ar, o mesmo céu. Talvez se olhássemos o que temos em comum em vez de sempre procurar o que temos de diferente…Eh, quem sabe?”

Ademais Mewtwo Contrataca é corajoso o suficiente para não só levantar questões, mas concluir com força seus pensamentos: “Agora eu vejo que as circunstâncias do nascimento de alguém são irrelevantes. É o que você faz com o dom da vida que determina quem você é.”

pokemon-go-mewtwo-1

Talvez tenha me perdido um pouco, mas espero que você entenda agora. Pokémon não é só um brinquedo. É parte da infância de alguém. É parte da formação de alguém e, como é possível perceber pelos trechos selecionados, uma formação bastante valorosa. Não deprecie algo que você não conhece. Não menospreze a infância de alguém. É somente no seu preconceito e ignorância que toda essa riqueza se perde.

Anúncios

O que você acha sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s