Festa da Salsicha

“Humor ácido de Seth Rogen peca pelo excesso, mas também acerta em ‘Toy Story’ para adultos”

Por Luís Gustavo Fonseca

A proposta de Festa da Salsicha é perceptível logo em seu trailer (se você ainda não viu, pode conferir logo após este parágrafo), deixando claro que isso não se trata de uma animação para levar o seus filhos. Em uma espécie de Toy Story de comida e para maiores, a animação idealizada por Seth Rogen (responsável por A Entrevista, Vizinhos e Superbad) conta a história de alimentos que vivem de maneira feliz em um supermercado, acreditando que quando são escolhidos pelos “deuses” (no caso, os seres humanos) e levados para fora de lá, eles estão indo para o “Paraíso”.. Até que descobrem da pior forma possível que, ao invés de uma relação harmoniosa e perfeita com os humanos, na verdade eles estão sendo levados para uma morte certa e apetitosa (desculpe, eu não resisti).

Festa da Salsicha causa muitos pensamentos conflitantes. Acho ótimo a proposta, a ideia, de uma animação adulta sendo feita por um grande estúdio (no caso, a Sony), ao contrário de animações infantis produzidas pela Disney, Pixar ou  Dreamworks, e que dominam o mercado cinematográfico. É mais ou menos o que o Deadpool é para os demais filmes de super heróis. É a chance de utilizar a técnica para explorar o ramo de maneira diferente, aproveitando-se das possibilidades do formato para fazer algo visceral e marcante. Como por exemplo, uma lata de sopa tentando colocar suas entranhas para dentro após ter sido cortada ao meio (o tipo de cena que acho difícil você ver mesmo em live actions que sejam para maiores de 18 anos).

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Por um lado, para você aproveitar e se divertir ao máximo com o longa, acredito que o telespectador tem que ser alguém que gosta, de fato, do humor ácido e escatológico de Rogen, e o roteiro mira justamente aqueles que já são fãs do trabalho e do tom humorístico do ator. Entretanto, penso que o texto erra na dosagem e exagera na quantidade de piadas consideradas de mau gosto, como por exemplo machistas ou contra religião, ou no reforço de certos estereótipos. Essa decisão acaba, inclusive, meio que auto sabotando as próprias piadas, que acabam sendo banalizadas devido a repetição e perdem o seu impacto. O roteiro ainda peca em relação ao antagonista da obra (super forçado e de onde vem as piores piadas) e em um clímax exagerado e que não combina com o restante do tom do longa.

Por outro, o mesmo texto tem seus méritos, para além da proposta diferente. Há várias piadas e trocadilhos que funcionam, além de analogias bem elaboradas. Destaque para com a da religião, com o acreditar nos deuses e no paraíso, feita de maneira interessante e divertida, o que permite conflitos interessantes entre os personagens. A dinâmica da produção também merece elogios, já que a trama é dividida em vários núcleos, mas eles fluem e se alternam com naturalidade, proporcionando um ritmo agradável para o enredo.

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A animação em si pode ser estranha, devido ao traço propositalmente cartunesco dos personagens (algo que o orçamento “barato” de US$19 milhões reforça), mas há alguns momentos em que ela se destaca pela boa arte finalização do material. Elogios se estendem para a equipe do Porta dos Fundos, responsável pela adaptação do roteiro (que consegue adaptar com tranquilidade a maioria das piadas e duplos sentidos) e também pela dublagem de vários dos personagens. A trilha sonora composta por Christopher Lennertz e Alan Menken (que conta com nada mais nada menos do que 8 Oscars, vencendo por trabalhos como A Pequena Sereia, Pocahontas e A Bela e a Fera) é uma última qualidade destacável, proporcionando um ritmo, curiosamente, épico, para uma trama tão absurda (a música de abertura do longa é fantástica).

Apesar de suas falhas e sua proposta direcionada, Festa da Salsicha ainda é um dos filmes mais memoráveis do ano, justamente por sua proposta diferente e pelas oportunidades que surgem a partir de agora. Tendo arrecadado US$125 milhões no mundo todo até agora (o que, dado o orçamento, é um excelente negócio), ele pode servir como gatilho para que outras animações sejam feitas no mesmo estilo. Ou mesmo uma continuação, já que o final apresenta uma (despirocada) possibilidade a ser contada. Algo que, certamente, a mente maluca (e provavelmente chapada) de Seth Rogen conseguiria fazer.

Nota: 6,5/ 10.

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