Luke Cage (Netflix)

“Ambientação e trilha sonora são os maiores méritos da nova produção da Marvel/Netflix.”

Por Luís Gustavo Fonseca

Assim como muitos, minha expectativa por Luke Cage estava nas alturas. A mais nova produção da parceria certeira entre a Marvel e a Netflix (que nos rendeu, até agora, duas excelentes temporadas de Demolidor, além de apresentar ao grande público Jessica Jones), é também a primeira produção desta bolha gigantesca de super heróis protagonizada por um negro… Ao menos, a primeira desde Blade.

O “Herói de Aluguel”, como ficou conhecido nas HQs, chega a Netflix não querendo ser um. Após os acontecimentos de Jessica Jones, Luke (Mike Colter) deixa Hell’s Kitchen e se estabelece no Harlem, tentando deixar para trás o seu passado e passar despercebido no novo bairro. Em paralelo a isso, o mafioso Cornell “Cottonmouth” Stokes (Mahershala Ali) tenta estabelecer seu poder como o grande chefão do bairro, com a ajuda de sua prima vereadora, Mariah Dillard (Alfre Woodard), e do astuto e argiloso Shades (The Rossi). Ambição que colocará não apenas Luke Cage em seu caminho, como também a detetive Misty Knight (Simone Missick) e seu parceiro, Rafael Scarfe (Frank Whaley).

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Passado mais de uma semana de seu lançamento, consigo entender o porquê do seriado estar dividindo opiniões. A série tem sim um ritmo mais arrastado (apesar de eu ter visto em três dias), contendo duas metades bem distintas. A primeira, mais intensa, talvez seja a que mais agradou os fãs, em uma trama policial e política bem amarrada e com um bom desenvolvimento dos personagens. A segunda se torna mais pessoal para o personagem principal, com a introdução de Diamondback (Erik Laray Harvey), e há uma mudança de dinâmica que pode desagradar os fãs da primeira metade. Particularmente, esta segunda parte me agrada, já que ajuda a desenvolver melhor o passado de Luke (assim como sua relutância em se tornar um herói), além de permitir um desenvolvimento mais profundo e interessante de Mariah Dillard, uma personagem que a princípio achava que seria uma antagonista figurativa (como os demais mafiosos de Demolidor), mas que cresce surpreendentemente bem nesta segunda metade. Sobretudo, porque a atuação de Alfre Woodard é um dos pontos mais altos da obra.

Alguns tropeços são notáveis. Se o tom diferente das duas metades não me incomoda, a edição em alguns episódios é algo irritante, já que as subtramas dos diferentes núcleos acaba ficando de forma desbalanceada. O roteiro toma algumas decisões arriscadas, desperdiçando personagens que tinham potencial para ajudar mais na construção da história. Confesso que esperava mais da ação, assim como uma melhor exploração dos poderes de Cage, mas este é outro aspecto que o seriado fica devendo.  

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O papel de Mariah Dillard é uma das grandes surpresas do seriado

Se Jessica Jones acertou na temática do abuso contra a mulher, e Demolidor ganhou fama por suas cenas de luta, o melhor trunfo de Luke Cage está em sua ambientação. O Harlem não é apenas um plano de fundo da história, é um personagem. O modo como o roteiro lida com o bairro, os problemas enfrentados pelos seus moradores (como a violência, pobreza, o preconceito), as referências a cultura negra, tudo isso é feito e apresentado com esmero. Mais do que isso: o espírito de comunidade, de irmandade, presente é impressionante, já que ao contrário do Diabo de Hell’s Kitchen e Jessica Jones, as pessoas do Harlem abraçam e se solidarizam com o herói.

A ambientação é reforçada, ainda, pelo modo como a série está colada em nossa realidade (talvez a mais próxima e real de todo o Universo Cinematográfico da Marvel). A trama acerta em cheio ao tratar de temas atuais e relevantes como o racismo, a tensão entre policiais e a comunidade negra (que aumentou muito, nos EUA, nos últimos dois anos) e como a política atua neste contexto.

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Há um simbolismo bem forte em um homem negro que é a prova de balas. Um acerto da série

Nas atuações, além de Alfre Woodard, o outro grande trabalho que destaco é o de Mahershala Ali, que vive um ótimo antagonista e contrapõe bem Mike Colter. Este, penso, poderia ser mais carismático, mas sua atuação é satisfatória. Simone Missick e The Rossi são duas boas surpresas, apresentando dois personagens interessantes, e espero que eles possam ser reaproveitados pela Marvel futuramente. E o papel de Erik Laray Harvey também me agrada, apesar de seu personagem ser um dos pilares que causa a discordância entre os que gostam e não gostam da segunda metade do seriado.

Por fim, devo ressaltar o outro grande mérito da série: a sua trilha sonora. Com bastante jazz, blues e hip-hop, ela também se transforma em um dos personagens da história, ajudando ainda mais a construir o caráter de ambientação da série. Há momentos até em que a edição acerta e combina a música sendo cantada na boate de Cottonmouth com cenas de porradaria em outro lugar. Um trabalho fenomenal.

(A sequência que toca Bulletproof Love combina os dois grandes méritos de Luke Cage: o espírito de comunidade e a trilha sonora)

O tabuleiro para Os Defensores está quase pronto, faltando apenas a série do Punho de Ferro para ficar tudo nos trinques. Enquanto a segunda temporada do Herói de Aluguel não vem (e algumas boas pontas estão aí para serem aproveitadas), eu realmente torço para que, na reunião dos heróis urbanos da Marvel, essa ambientação de Luke Cage se faça presente. Seria a melhor herança que o seriado poderia receber.

Nota: 8/ 10.

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