O Contador

“Com duas metades distintas, potencial de produção não é explorado ao máximo.”

Por Luís Gustavo Fonseca

“Gosto de incongruências.” A frase dita pelo contador Christian Wolff (Ben Affleck) não apenas ajuda a definir o personagem, como pode ser o melhor resumo do filme. Ele é um matemático autista que ganha a vida fazendo a contabilidade dos outros – sendo que esses outros são, muitas vezes, criminosos do mais alto escalão no mundo todo. Enquanto o Departamento do Tesouro, liderado por Ray King (J.K. Simmons), quebra a cabeça para descobrir quem é Wolff e como prendê-lo, o matemático inicia um novo trabalho que, com ajuda de Dana Cummings (Anna Kendrick), se revela mais perigoso do que aparenta. A investigação leva Wolff a demonstrar habilidades que não se espera de um contador, assim como revisita o passado do protagonista.

A incongruência do longa é marcada por duas metades distintas, sendo que a primeira é a que mais prejudica a obra. Com uma narrativa arrastada e uma edição que embaralha de forma confusa os três principais núcleos da história, a dinâmica do enredo acaba falhando, dando a impressão desta metade durar muito mais do que realmente acontece, o que pesa para um filme  que tem mais de 120 minutos. A edição também atrapalha o roteiro, que tem dificuldade de conectar as diferentes subtramas e, às vezes, “esquece” alguma delas por demasiado tempo, exigindo um desenvolvimento apressado depois. O desperdício de alguns personagens e uma reviravolta bem previsível são outros tropeços do texto.

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A segunda metade, entretanto, consegue dar ritmo a produção e permite que as qualidades da obra se destaquem. Entre elas, a fotografia e a boa direção nas cenas de ação do diretor Gavin O’Connor (Guerreiro), sobretudo em ambientes fechados; a utilização de flash backs, que aparecem no momento certeiro (isso, um acerto em todo o filme) e colaboram para aprofundar os personagens; e a amarração da história, já que a medida que ela afunila, os diferentes núcleos interagem entre si de forma mais dinâmica e bem aproveitada. A trilha de Mark Isham é ausente em vários momentos, mas proporciona impacto nas horas mais decisivas.

As atuações têm altos e baixos. Anna Kendrick e J.K. Simmons acabam subaproveitados, mas ao menos o segundo ganhar maior peso no último arco do longa. A expressão, na maior parte do tempo, impassível de Ben Affleck, confesso, é irritante, mas tem o seu propósito dentro da trama e, dentro da proposta, arranca um saldo positivo de Ben Affleck. O destaque no quesito acaba ficando com Jon Bernthal (Demolidor), que assumiu o personagem mais carismático da obra.

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O Contador acaba sendo um interessante filme, apesar de inconsistente e que poderia aproveitar melhor a equipe que tem. O mais surpreendente, talvez, seja a mensagem final do longa, bem encaixada (apesar de  um tanto inesperada) em meio a tanta ação e suspense.

Nota: 6/ 10.

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