Doutor Estranho

Por Matheus Araujo

Os super-heróis são uma feliz realidade nos cinemas. Um gênero consolidado que, com o prestígio que conhecemos hoje, começou a ser construído no final dos anos 90 pelos corajosos projetos de Blade e X-Men. Todavia, para alcançar tal status, as adaptações abandonaram suas peculiaridades quadrinistas e se disfarçaram de um ação/ sci-fi genérico, numa abordagem severamente conservadora e monocromática, a fim de se aproximar mais e mais do grande público.

Com o sucesso dessas apostas iniciais, os executivos se sentiram seguros, gradualmente os uniformes coloridos saíram do armário e, apesar da trilogia de Nolan ter emplacado o sombrio-realista, a Marvel se lançou estúdio, sacramentando o dogma: entretenimento em primeiro lugar. Certo, ela também começou cautelosa, preocupada, para além da cueca por cima da calça, com a aceitação do público em relação às temáticas dos quadrinhos, buscando, principalmente, atar as órbitas dos demais Vingadores ao “sóbrio” Homem-de-Ferro. Por conseguinte, todo e qualquer link com o místico foi transposto para o cinema com um viés pseudocientífico. Thor, por exemplo, teve sua origem mitológica muitíssimo velada.

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O adentrar ao verdadeiramente estranho dos quadrinhos ganhou força à medida que o fio condutor do Universo Cinematográfico Marvel, Tony Stark, passou a utilizar em suas armaduras tecnologias cada vez menos verossímeis, permitindo, enfim, que o conceito de poder do Homem-Formiga fosse aplaudido e um grupo de desajustados integrado por um guaxinim sádico e uma árvore fofinha se consagrasse a maior bilheteria do verão norte-americano de 2014. No mais, a cultura dos quadrinhos no cinema já está tão entranhada em sua audiência que é possível contar nos dedos as pessoas que se retiram das sessões antes das cenas pós-créditos.

O melhor disso tudo é perceber que a Marvel não está satisfeita. Doutor Estranho é mais um passo em direção à verdadeira e rica natureza da arte sequencial. Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) é um arrogante neurocirurgião que tem seu instrumento de trabalho, suas mãos, destruído em um acidente automobilístico. Arruinado, sem qualquer perspectiva de recuperação através da medicina convencional, o médico é forçado a procurar alternativas e embarca numa jornada pelas artes místicas.

Formalidades feitas, vou me autorizar a atravessar o visual na frente de todo o resto. O embasbacamento de Strange ao se iniciar na magia é replicado no espectador com méritos exclusivos de uma soberba direção de arte. É muito raro que um filme dessa importância financeira se permita ousar numa identidade que possa ser confundida com o sublime lisérgico, com direito a caleidoscópios, dimensões paralelas, formas astrais e desdobramentos oníricos. A última grande obra a flertar com isso, perante à massa, foi Interestelar e não creio que a recepção tenha sido tão positiva. Passados os momentos de contemplação do multiverso, o visual se mantém disposto a derrubar os queixos e apresenta sequências para aposentar A Origem. Outro paralelo com o longa de Nolan pode ser traçado em relação a trilha sonora de Michael Giacchino, que à la Hans Zimmer, produz um tema memorável e variações competentes o suficiente para acompanhar até mesmo as nuances temporais exigidas pela narrativa.

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Além do departamento de arte, é preciso louvar a direção de Scott Derrickson, que sabe, além de apresentar essa proposta, brincar com o grande tema do filme, o tempo, do início ao fim, criando uma coesão, uma unidade, louvável. Ironicamente, falta-lhe timing cômico – as gags por vezes são deslocadas e muito extensas. Outro aspecto frágil do trabalho de Derrickson é a ação enquanto o combate coreografado ou a sua filmagem. Por outro lado, a mesma ação se demonstra dedicadíssima em relação aos planos abertos. É inacreditável entendermos a psicodelia com precisão ao passo que encontramos confusão em atributos basilares.

O roteiro manifesta e agrava este mesmo problema. A apresentação dos novos conceitos é bastante competente e até um tanto prolixa. A repetição torna os diálogos chatos, mata os esforços da edição e do visual – que entendem que o tempo do espectador é precioso e economiza em apresentações, o que para uma história de origem é ótimo – e termina por reiterar o óbvio. Evidente também é a estrutura, a chamada fórmula Marvel. Fugindo à regra, o final, que estonteia graficamente e se  resolve com intelecto, suturando com perfeição a reforma de caráter do Doutor Estranho.

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O arco dramático do Strange e de todos os coadjuvantes, suas motivações e discursos, são convincentes. Em suma, apresentam diferentes visões, arquétipos de magos, que, por mais poderosos que sejam, ainda têm o medo da efemeridade da vida. A postura do Cumberbatch, numa das melhores caracterizações ever, é envolvente. Mais no drama que na comédia, é verdade. O trabalho corporal é bacana demais (vai ter muito moleque tentando conjurar magia). Mads Mikkelsen é mais um vilão padrão Marvel e, quando lhe é permitido, transmite com eficácia sua motivação, mas nem tanto sua ameaça. Rachel McAdams, Chiwetel Ejiofor, Tilda Swinton e Benedict Wong seriam um belo quarteto de coadjuvantes para qualquer filme e não decepcionam.

Doutor Estranho não explora ao máximo seu potencial, embora seja capaz de lidar com impressionante desenvoltura com a complexidade dos multiversos, capas com personalidade e um inimigo maior do que as galáxias. Seu grande desafio está cumprido: expandir os horizontes do Universo Cinematográfico Marvel, almejando um palco cada vez mais próximo ao dos quadrinhos. A magia está, enfim, posta na Marvel.

Nota: 8,0/ 10.

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2 comentários sobre “Doutor Estranho

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