Animais Fantásticos e Onde Habitam

“Em sua estreia em Hollywood, J.K Rowling reafirma seu talento, supera as expectativas e proporciona retorno grandioso ao seu universo.”

Por Luís Gustavo Fonseca

Assim como ocorreu na vida de outros milhões e milhões de nascidos na década de 90 (ou mesmo antes), Harry Potter foi a saga que acompanhei na infância e ajudou a moldar quem eu sou hoje. Não só apenas o meu gosto de leitura se despertou devido aos livros do bruxo com cicatriz na testa, como também considero mágica e gratificante toda a experiência de ter acompanhado a saga se desenvolver e amadurecer nos cinemas. Tudo bem, dos oito filmes, só assisti cinco deles na tela grande. Em minha defesa, me apaixonei por este universo apenas depois que os dois primeiros já tinham sido lançados em DVD e VHS (alguém lembra?!), mas de fato, não há defesa para ter deixado de ver O Cálice de Fogo. Shame on me.

No dia 18 de julho de 2011, pensei que estaria dando adeus a esse universo, ao conferir As Relíquias da Morte – Parte 2. Uma despedida tão dolorosa quanto a que ocorreu em 2007, quando encerrei o sétimo livro e fiquei 10 minutos olhando para a página em branco ao final da edição. Querendo ou não, havia chegado o momento de não mais viver, diariamente, este símbolo da infância. Jornada que não se resumiu a ver e rever os filmes, a ler e reler os livros, mas também de discutir as teorias dos fãs na Internet (em uma época que ela ainda não havia o alcance e a facilidade no acesso que tem hoje) e de ler várias e várias fanfics (muitas delas, bem escritas. Um salve para esse comunidade de escritores!) Era hora de seguir em frente, sempre com as palavras de Dumbledore na cabeça: “Claro que está acontecendo em sua mente, Harry, mas por que isso significa que não é real?”

Quis o destino que, felizmente, eu estivesse errado.

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Acho esse poster meio que no estilo “O Grande Gatsby” tão bacana.

O ano de 2016 tem sido ótimo para os potterheads. Em julho, tivemos o lançamento da peça Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, o oitavo capítulo da história que, apesar de ter sido feita para os palcos, teve seu roteiro lançado em forma de livro – e da qual já comentamos um pouco aqui. Agora, temos o lançamento de Animais Fantásticos e Onde Habitam, um spin-off (dentre outros que pensamos) que serve como expansão do universo mágico criado por J.K. Rowling.

No primeiro do que serão cinco capítulos (putz, já pararam para pensar que teremos contato com esse universo até 2024?!), acompanhamos a chegada de Newt Scamander (Eddie Redmayne) à Nova York, em meados da década de 20. O bruxo viaja o mundo inteiro catalogando e escrevendo sobre os mais diversos seres mágicos que encontra, com intuito de, um dia, publicar o livro que dá nome ao filme. Em sua parada em terras estadunidenses, contudo, várias das criaturas que leva em sua maleta são libertadas. O incidente causará repercussões não só na comunidade mágica, sobretudo na Macusa (o Ministério da Magia americano), como também entre os no-majs, o termo utilizado para designar os “trouxas” nos EUA.

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O papel do Newt no filme é basicamente ESTE.

Um dos grandes chamarizes da obra é a própria J.K. Rowling que, além de produtora do longa, estreia como roteirista em Hollywood. Com liberdade de criar o que quiser – já que o livro Animais Fantásticos e Onde Habitam não aborda nada sobre Newt -, ela tem a oportunidade de expandir o universo que criou, ao mesmo tempo que tem um controle mais efetivo do que teve nos outros oito filmes. E o roteiro da autora é justamente o grande trunfo da obra. Seu texto se afasta da estrutura definida e repetitiva que prevaleceu em seis do sete livros (não que eu ache isso um problema), e se aproxima mais da alternância de pontos de vista que se nota em Morte Súbita, por exemplo.

Com esse intuito, ela proporciona um excelente ritmo, uma dinâmica eficaz e na qual a edição é precisa na hora de mostrar os dois principais núcleos da produção: o de Newt e seus amigos, o no-maj Jacob Kowalski (Dan Fogler) e as irmãs Tina (Katherine Waterston) e Queenie Goldstein (Alison Sudol), em contraposição ao subnúcleo de Credence (Ezra Miller) e Percival Graves (Colin Farrell), permitindo um desenvolvimento bem feito dos personagens e de suas motivações.

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As 2h13 do filme são bem preenchidas, com várias coisas acontecendo, mas nunca deixando o espectador perdido ou o ritmo maçante. Dentre os novos elementos deste universo, pode-se citar a organização no-maj anti-bruxos, que desencadeia uma tensão entre a comunidade bruxa e não-bruxa, aspecto não tão explorado nos filmes anteriores – artifício que também serve para diferenciar a sociedade bruxa americana daquela época com a britânica.

Rowling não comete o erro que, por exemplo, algumas produções da Marvel cometem: ao apresentar esses elementos, que podem ser reutilizados futuramente (principalmente dentro de uma proposta de cinco filmes), ela não transforma o enredo em um tease, um prelúdio para o próximo. A história desta única produção é devidamente contada, havendo cuidado para fechar os principais pontos da trama e deixar tudo redondinho.

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O Pelúcio lembra um ornitorrinco.

A direção da produção é, mais uma vez, de David Yates, que dirigiu todos as produções a partir de A Ordem da Fênix. Em julho, quando saiu A Lenda de Tarzan, expressei meu receio por seu trabalho, já que ele não trabalhava desde As Relíquias da Morte – Parte 2 – mas devo ser justo: ele nunca me desagradou dentro da franquia, sendo que o último é o meu favorito. Aqui, Yates deve ter feito seu melhor trabalho na saga até agora: a ação funciona; os takes sabem explorar os cenários e as habilidades das criaturas mágicas; a fotografia é inteligente ao ser bem distinta nos dois principais núcleos da trama (e nem mesmo as cenas de noite estragam isso). Senti firmeza para o futuro da franquia, já que ele irá dirigir todos os longas.

Falar do mundo mágico de Harry Potter é falar, também, da direção de arte. A franquia tem 12 indicações ao Oscar em categorias técnicas (nenhuma vitória), sendo que o visual é o responsável pela grande maioria delas. O aspecto salta aos olhos mais uma vez. Os efeitos especiais criam de forma verossímil e criativa as mais diversas criaturas mágicas, assim como no design de criaturas feitas com captura de movimentos, como é o caso do personagem vivido por Ron Pearlman.

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Ron Pearlman tem uma cara de malandro muito boa

Ao mesmo tempo, as batalhas e as grandes cenas de ação dão uma modernizada nos efeitos da franquia, fazendo um agradável uso do 3D. O figurino também merece elogios, já que aproveita, de forma inteligente, a ambientação e a época que a obra se passa, mesclando de forma certeira os trajes bruxos com o daquela sociedade. A trilha de James Newton Howard (franquia Jogos Vorazes, Malévola) me preocupava, já que não sou fã do compositor. Ele, contudo, calou a minha boca e conseguiu compor uma trilha que, ao mesmo tempo, bebe um pouco da original e de sua áurea, mas consegue ter uma assinatura própria e adequada para o longa.

O elenco talvez não tenha nomes tão conhecidos pelo público, mas isso não impede um trabalho satisfatório da equipe. Eddie Redmayne faz uma atuação competente e digna do papel principal (convenhamos: ele é muito mais ator que o Daniel Radcliffe). A química dele funciona com o restante do quarteto principal, mesmo porque as atuações de Dan Fogler, Katherine Waterston e Alison Sudol também são boas. Ezra Miller volta a viver um papel perturbado, algo que ele certamente domina, e mantém o bom nível. Até mesmo Colin Farrell faz um bom trabalho e segura as pontas como principal antagonista, não deixando a peteca cair.

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Finalmente, Animais Fantásticos e Onde Habitam é um retorno grandioso e bem feito ao mundo mágico de J.K. Rowling. Ao mesmo tempo em que sacia os fãs de longa data, a produção acerta ao contar uma trama que permita a formação de novos fãs e admiradores. Sobretudo, justifica sua existência. Claro que há um interesse mercadológico nessa iniciativa (os cinco filmes devem custar quase 1 bilhão de dólares, fora os gastos com marketing, mas para a Warner Bros., parece um investimento mais seguro do que os heróis da DC, ao menos por enquanto), mas Rowling e Yates tem a oportunidade de explorar novas nuances deste universo, como Star Wars está fazendo em sua nova trilogia e nos spin-offs que virão, começando por Rogue One. E pela qualidade deste, a dupla dá garantias que a magia continuará brilhando por um bom tempo.

Nota: 9/ 10.

P.S.: Não há cenas pós-créditos!

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3 comentários sobre “Animais Fantásticos e Onde Habitam

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