A Chegada

“Denis Villeneuve prova sua versatilidade em ficção científica bem construída.”

Por Luís Gustavo Fonseca

O mundo é abalado quando doze misteriosas naves aparecem ao redor do globo, provando que, sim, não estamos sozinhos no Universo. Diferentes cientistas e especialistas são convocados, entre eles a linguista Louise Banks (Amy Adams), para tentar estabelecer o primeiro contato com os visitantes. Com a ajuda do matemático Ian Donnelly (Jeremy Renner), Louise procura compreender a pergunta fundamental desta chegada repentina: afinal, o que querem os alienígenas?

Se A Chegada é tido como um dos melhores filmes do ano, isso se deve a vários fatores. O primeiro deles está na direção. Denis Villeneuve é um dos meus diretores favoritos da atualidade, e a produção é mais uma prova da competência do diretor, que tem no currículo longas como Incêndios (indicado ao Oscar de 2011 na categoria Melhor Filme Estrangeiro), Os Suspeitos e Sicario: Terra Ninguém. Aqui, ele repete sua melhor qualidade: a criação de uma atmosfera imersiva, que traz o espectador para dentro da obra e o deixa tão perdido e intrigado quanto os personagens da história.

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Denis Villeneuve com a atriz Amy Adams

Para tal, ele utiliza-se de várias estratégias, a começar pela fotografia. Apesar de cometer erros, com algumas cenas escuras demais, o tom cinzento e a paleta de cores mais escura consegue proporcionar uma atmosfera claustrofóbica. Ao mesmo tempo, cria uma relação entre as cores e as lembranças e sentimentos da protagonista. A tensão é peça fundamental desta imersão, e Villeneuve consegue criá-la e sustentá-la por saber conduzir um suspense psicológico, seja pelo ritmo cadenciado (mas que raramente fica cansativo) ou pela edição, que dá boa dinâmica ao filme – apesar da repentina aceleração que acontece no terceiro ato, que destoa do restante.

O posicionamento de câmeras, os planos longos e algumas tomadas grandiosas, panorâmicas, são outros ingredientes que colaboram tanto para a imersão quanto para a beleza estética do longa. Um último fator que ajuda nesta imersão é a trilha de Jóhann Jóhannsson (A Teoria de Tudo), antigo parceiro do diretor canadense e que, novamente, proporciona uma trilha poderosa e impactante, que casa perfeitamente com o tom da obra – e, estranhamente, me lembra em certos momentos a trilha de Akira.

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Villeneuve não é perfeito. Apesar de não estar dentro proposta da produção, na única oportunidade de desenvolver uma cena de ação, ele a esconde, o que me deixa curioso para ver como ele irá pensar a ação em Blade Runner 2, seu primeiro blockbuster. A direção de atores também não é redonda: por um lado, Amy Adams (Batman v Superman: A Origem da Justiça) dá vida a uma personagem com camadas mais profundas, de maior complexidade, e sabe transmitir com competência as emoções e conflitos internos da personagem. Por outro, Jeremy Renner (Vingadores: Era de Ultron) acaba subaproveitado e deixado desequilibrado a balança do duo, com Forest Whitaker (Nocaute) fazendo apenas satisfatórias participações pontuais.

O roteiro, que adapta o conto Story of Your Life, de Ted Chiang, é outro ponto forte do longa. Desde de sua abordagem, que foge do tradicional “Invasão alienígena e uma guerra catastrófica de proporções gigantescas” (estou olhando para você, Independence Day: Ressurgimento) e propõe algo mais original, com uma pegada mais realista, humana e filosófica. Os esforços da Dra. Banks em estabelecer contato com os alienígenas serve de plano de fundo para que se torne possível explorar o poder da linguagem e da comunicação (e como isso se contrasta com a matemática e a física, ciências exatas mais associadas a temática sci-fi em geral), assim como as relações humanas em si. O fato de não termos um único líder mundial (como o filme aponta) evidencia o modo como tratamos com desconfiança o outro, de nação diferente, e que mesmo com objetivo em comum (no caso, “defender” a Terra), não estamos dispostos a colocar essas diferenças de lado.

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O texto ainda acerta em aprofundar a protagonista, explorando seus conflitos internos, permitindo que uma afeição por ela se torne mais fácil. O grande diferencial ocorre, contudo, no diálogo entre o roteiro e a edição, que consegue proporcionar um plot twist interessante, satisfatório e bem trabalhado, que valoriza toda a narrativa e obriga o espectador a pensar. É uma edição tão interessante e arriscada quanto a de outro filme de Villeneuve, O Homem Duplicado (o que menos me agrada de sua filmografia, mas talvez seja pelo simples fato que eu não o entendi), mas que apresenta um desfecho menos dúbio e mais impactante.

Denis Villeneuve prova mais uma vez seu talento e demonstra que sabe utilizar suas melhores qualidades em gêneros diferentes.  Menos megalomaníaco que Interestelar e (bem) mais sóbrio que Perdido em Marte, A Chegada consegue seu lugar ao Sol como uma das ficções científicas mais interessantes dos últimos anos. Quanto mais reflito sobre o filme, mais ele me agrada, e sinto que isso será um sentimento compartilhado com outros. Se a intenção era fazer o telespectador pensar sobre a obra e, principalmente, criar o desejo de revê-la, A Chegada acertou em cheio.

Nota: 8/ 10.

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