Moana

Por Matheus Araujo

Sempre me fascinou o respeito das obras Disney ao traço concebido por seu fundador. Em especial, quando os artistas desdobravam as características do desenho de Walt e as combinavam com o estilo típico que pretendiam retratar. Para admirar esses feitos, basta assistir a qualquer animação do estúdio com forte influência de povos não-americanos, como Mulan ou Hércules. No entanto, com Moana percebi que, de repente, ao respeitarem tanto Disney, desrespeitaram culturas e culturas.

Entenda, por mais fina que fosse a arte, poucos outros elementos desses povos eram levados em consideração na direção dos projetos. Por mais que Aladdin tenha sua estética árabe, seus personagens, por exemplo, possuem comportamento, motivações e até mesmo humor extremamente ocidental. Pesaroso, constatei que meus amados clássicos da Disney nada mais eram que a cultura estadunidense fantasiada de Grécia Antiga ou China… Felizmente, a impressão com Moana é outra.

No meu perceber leigo – sem dúvidas, a cultura americana ainda está lá – noto que há maior cuidado com a cultura polinésia (ou uma amálgama das culturas da região). Aliás, desnecessário dizer que a minha limitadíssima visão só tropeçou com evidências do destrato às culturas justamente porque Moana está estruturado em torno do tema.

O conflito de Moana, mesmo que a própria protagonista desconheça, está voltado para os fundamentos de seu povo. E, para sanar suas inquietações, a garota precisa embarcar em uma jornada na qual contracena com sua mitologia e reacende o significado de sua cultura.

moana-water

Curiosamente, esta abordagem parte de diretores extremamente tradicionais da Disney, responsáveis pelos já citados Aladdin e Hércules, além d’A Pequena Sereia. Diretores tão tradicionais que sequer haviam debutado na computação gráfica! E começaram impecáveis, um dos mais lindos filmes do estúdio. A composição de todos os quadros é impressionante, todavia elementos particulares desta história, como água e as suas interações são assustadores. Uma mescla entre o real e o cartunesco, embora mais satisfatório que O Bom Dinossauro e quase tão poderoso em técnica quanto Piper, o curtametragem de Procurando Dory – aliás, o curta de Moana, dirigido por um brasileiro, é um deleite de entrada.

A música, praticamente indispensável para Disney, também gira em torno da palavrinha mais repetida deste texto. Seja com o uso de dialetos, semelhante ao realizado com a abertura de O Rei Leão, ou permeando as faixas com o uso de instrumentos típicos, toda a sonoridade te convida a um novo gênero musical. Especificamente quanto às canções de Moana, compostas pela sensação da Broadway Lin Manuel Miranda, julgo que por mais que não tenhamos nenhum Let it Go no repertório, o nível geral da trilha é superior, destacando-se a divertida You’re Welcome; a nova paixão dos meus ouvidos, a voz de Auli’i Cravalho (voice actress na versão original) em How Far I’ll Goe a mais alegre música de vilão de todos os tempos, Shine. Por fim, pontuo que, salvo engano, temos pela primeira vez na história da Disney a canção sendo utilizada como um elemento narrativo não mais segregado do andar trama, de forma que possuímos a resolução do clímax no canto, dando a impressão de que roteiristas e compositores trabalharam um pouco mais juntos do que de costume.

Ainda que Moana seja bastante diferente da filmografia Disney discutida por aqui, ele também pode ser decepcionantemente similar. Os diretores reciclaram diversos elementos de sua própria carreira: o “oceano animado” é o tapete do Aladdin; o Mini-Maui, embora brilhantemente executado numa mescla da computação gráfica com animação convencional, em conceito fora utilizado pelos diretores em Hércules, um elemento de storytelling que não influencia tão diretamente na história e válvula de escape para o humor; o próprio Maui, brincalhão, porém com um sério drama pessoal, além dos poderes transmorfos, é impossível de não associar ao Gênio de Aladdin; e, para não estender ainda mais esta lista, existe até um repeteco poético em Moana ser atraída pelo mar ao passo que Ariel é encantada pela terra firme.

Okay… O filme perde alguns pontos em criatividade, mas a reciclagem desses elementos só prova que algo no passado da Disney deu muito certo e, portanto, está de volta. Distorcendo algumas palavras famosas do estúdio, é como se cada uma dessas obras, ao contribuírem com suas “melhores” ideias, ainda vivessem em Moana. Por acaso, até sei qual será a resposta do Maui para quando agradecerem o legado de um enorme esmero cultural.

Nota: 8,0/ 10.

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