Assassin’s Creed

“Adaptação de popular série de games tem boas ideias diluídas em produção pouco inspirada.”

Por Luís Gustavo Fonseca

Curiosamente, meu contato de forma direta com Assassin’s Creed nem seu deu por meio dos jogos, que já somam nove até o momento na série principal. Foi lendo o livro adaptado de Assassin’s Creed: Revelações. Uma experiência interessante, já que foi a primeira vez que li um livro baseado em um game (na contramão do caminho mais tradicional, que é os livros sendo adaptados para outras plataformas). Pena que não foi tão marcante, já que a sensação que tive da leitura era de alguém que estivesse jogando e transcrevesse, quase de forma literal, suas ações e passos ao longo do game. Acredito que isso tenha ocorrido, principalmente, porque no jogo, você é um participante ativo da história, já que o personagem ganha vida por meio das ordens determinadas pelo jogador(a). No livro, você passa a ser um observador da trama, alterando de forma drástica a experiência.

O cinema também é uma atividade em que a pessoa exerce o papel de observação, porém, ao compartilhar o elemento visual com o videogame, essa transição é mais fácil. Assassin’s Creed, o filme, consegue dar um passo até mais interessante: ao invés de adaptar a trama de algum dos jogos, ele se insere como uma aventura inédita no universo, aproveitando-se de elementos já estabelecidos.

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Cal Lynch (Michael Fassbender) é condenado à morte por um assassinato. Ao invés da execução, contudo, ele se torna peça chave em um experimento da da Dra. Sofia Rikkin (Marion Cotillard), uma das líderes de pesquisa da Abstergo, companhia responsável pela criação de uma tecnologia capaz de acessar as memórias dos ancestrais de seus usuários. Cal é descendente de Aguilar, um Assassino que atuou durante a Inquisição Espanhola, e teria sido o último a saber da localização da Maçã do Éden, um artefato místico que, acredita-se, poderia acabar com o livre-arbítrio dos humanos. O objetivo de Aguilar era proteger o objeto dos Templários, organização antagônica à dos Assassinos que planejavam, em posse da Maçã, dominar o mundo.

A produção conta com boas ideias e execuções interessantes: além da citada “não adaptação”, o roteiro acerta ao saber apresentar, mesmo que de forma rápida, os elementos principais da franquia, como a rivalidade entre as duas facções, suas motivações e o código dos Assassinos. Mesmo que alguém nunca tenha tido contato com os jogos, é possível compreender a trama e seus principais elementos, sem ficar perdido.

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Em contrapartida, o texto peca em elaborar um texto pouco inspirado, que subaproveita os protagonistas, não explorando e desenvolvendo, de forma mais aprofundada, tanto Cal quanto os vilões do enredo. Isso dificulta a criação de empatia com ambos os lados. Outro deslize grave é que a história se passa mais no presente do que no passado – sendo que essa é justamente uma das características principais dos jogos! Momentos históricos importantes da cultura ocidental já serviram como plano de fundo para o conflito de Assassinos e Templários: Cruzadas, Renascença, Revolução Americana e Francesa… A Inquisição Espanhola também é uma passagem histórica importante a ser explorada, mas o filme deixa esse aprofundamento de lado. Isso, aliado as subtramas fracas do presente, criam um resultado final desbalanceado e mesmo desinteressante.

A direção é de Justin Kurzel, do agradável Macbeth: Ambição e Guerra, de 2015 (longa que também contou com Fassbender e Cotillard nos papéis principais). Em sua primeira grande produção, ele acerta no tom da obra e na pancadaria. Mesmo com os cortes rápidos, as lutas são bem coreografadas e fluem bem na tela. Em contrapartida, a fotografia – um dos seus pontos altos em Macbeth – é, em muitos casos, escura, e ainda mais prejudicada pela quantidade de fumaça nas cenas que ocorrem no passado e também pelo 3D, que em nada acrescenta, mesmo na projeção IMAX.

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Se Kurzel demonstrou boa direção de atores em seu filme anterior, aqui, ocorreu a mesma falta de inspiração que houve no roteiro. Além de Fassbender e Cotillard, nomes como Jeremy Irons, Brendan Gleeson e Charlotte Rampling são pouco aproveitados, com o elenco estando todo no modo automático. O ponto alto do longa acaba sendo a trilha de Jed Kurzel, também de Macbeth, que proporciona batidas épicas e medievais quando a história está no passado, aumentando a escala da ação.

Por fim, Assassin’s Creed ainda não é a produção que quebrará a “maldição” dos games no cinema. O desempenho fraco na bilheteria até agora () prova que, mesmo com aplicação de boas ideias, com o intuito de expandir o público alvo para além dos jogadores, o bom resultado final ainda é primordial para conquistar os espectadores.

Nota: 5/ 10.

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