Manchester à Beira-Mar

“Cassey Affleck proporciona uma das atuações mais impactantes do último ano.”

Por Luís Gustavo Fonseca

Dos prováveis candidatos a corrida do Oscar de Melhor Filme deste ano, Manchester à Beira-Mar é aquele que há mais tempo é elogiado pela crítica especializada. Ele divide as atenções pela estatueta com La La Land (vencedor de sete Globos de Ouro este ano) e Moonlight (que só chega ao Brasil no fim de fevereiro), e já era cogitado a disputa deste ano desde a sua estreia no Festival de Sundance do ano passado.

Um dos motivos que levaram o longa a ficar na mente dos votantes da Academia é o trabalho de Cassey Affleck, no papel principal. O enredo acompanha Lee Chandler (Affleck), um zelador esforçado que se vê obrigado a retornar a sua cidade natal, após a morte do irmão. Lee, um cara fechado e de poucas palavras, se vê subitamente responsável pelos preparativos do funeral, das pendências deixadas pelo irmão e do cuidado de seu sobrinho, Patrick (Lucas Hedges), com o qual não tem uma ligação muito forte.

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E a atuação de Cassey Affleck é, de fato, o ponto alto da produção, superando Ryan Gosling em La La Land. Curiosamente, há várias cenas em que o semblante do ator é predominantemente inexpressivo, o que reforça a personalidade fechada do personagem. Contudo, é o contraste desses momentos de tristeza e pesar com flashbacks em que Lee Chandler está em situações alegres que ressalta a versatilidade de Affleck dentro do papel. Há momentos que Chandler chega a ser um personagem antipático, mas é nos seus momentos mais desoladores e introspectivos que o ator consegue entregar as passagens mais poderosos da obra. Uma pena que Lucas Hedges esteja bem abaixo neste quesito, uma vez que a relação entre os dois é peça chave no desenvolvimento da trama e suas implicações.

O que ajuda a valorizar (e muito) a interpretação de Affleck, é a combinação arrojada entre roteiro e edição. O texto consegue explorar o drama do personagem principal, adicionando camadas a ele por meio de flashbacks introduzidos de forma certeira no decorrer da história, mas sem atrapalhar a dinâmica da narrativa. A trama é sobre “não conseguir superar a perda”, com Chandler tendo dificuldade em evoluir dentro do enredo. Por outro lado – e formando um paralelo interessante – a percepção que o espectador tem dele vai mudando e evoluindo à medida que cada novo fato é  apresentado e o personagem é desenvolvido. Conseguir atualizar essa opinião conta como ponto para o roteiro.

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A direção de Kenneth Lonergan também está a serviço de Affleck, sendo que o diretor se esforça para colocar em foco as expressões do ator. Câmera fixa e planos com pouco movimento são outros artifícios utilizados para reforçar o tom pesado que circunda história, assim como a fotografia, predominantemente cinzenta e que ressalta paisagens cobertas de neve. A trilha sonora é pouco presente, com participações pontuais, mas ela está impecável na sequência mais forte e chocante da produção – e que certamente deixará o espectador mais arrasado.

É provável que o tom depressivo e desanimador de Manchester à Beira-Mar não faça com que ele se torne o mais querido em comparação aos demais competidores deste ano, mas a obra está a altura da qualidade dos demais concorrentes. Há uma beleza inquietante no resultado final, que a torna impactante e marcante para seu público. Se este era o objetivo, então ele foi cumprido com sucesso.

Nota: 8,5/ 10.

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