Em Busca da Perfeição

Por Matheus Araujo

Além da trilha sonora intocável, atuações harmoniosas e edição histórica, Whiplash nos presenteia com a discussão: talento x esforço. O discurso em sua totalidade – até mesmo no subtítulo nacional – apesar de não descartar o potencial inato para o sucesso, evidencia e problematiza a importância da dedicação.

Permita-me refrescar tua memória. Andrew Neiman é um baterista prodígio recrutado pelo regente Terence Fletcher a fim de desenvolver todo o seu potencial, independente do esforço. Segundo o instrutor, “não há duas palavras mais nocivas no dicionário do que bom trabalho”. Fletcher descreve como sua missão de vida: “empurrar as pessoas para além do que se espera delas (…), caso contrário, privaremos o mundo do próximo Louis Armstrong, do próximo Charlie Parker”. Na contramão de sua filosofia, acompanhamos o sofrimento de Andrew e o quanto essa doutrina é prejudicial à paixão do artista por sua obra. Todavia, uma vez que um bom músico nada interessa a Fletcher, ele rebate que um “Charlie Parker” jamais seria desanimado por tanto.

Preto no branco seria a discussão se a película terminasse antes de sua sequência final, na qual Andrew prova que era, sim, um gênio e que fora potencializado pela tirania de Fletcher. Partindo da premissa que o talento deve ser exercitado, Whiplash relega ao espectador qual a medida certa de suor e sangue. Para encontrar a resposta, é fundamental considerar um elemento “implícito” do roteiro.

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Em linhas gerais e presunçosas: os grandes trabalhos de gênios são fruto da combinação de talento e esforço perante às adversidades. Sim, a dificuldade é ponto a favor da criatividade. Afinal, a arte não é exata. Para uma obra-prima acontecer, não bastam sequer as melhores condições! A melhor técnica ou recurso não faz o melhor escritor, cineasta, músico.

Um dos casos mais ilustrativos é o de George Lucas. O sr. Lucas sofrendo com as pressões do estúdio, os desafios de criar praticamente uma indústria de efeitos visuais, um elenco difícil e um orçamento limitadíssimo determinou o grande marco do cinema popular. O sr. Lucas com o estúdio na mão, dono da maior empresa de efeitos visuais, um elenco dócil e incontáveis dólares rendeu uma das experiências mais vexatórias da história da arte. A criatividade não abomina a limitação. Ela a desafia com um abraço e a transforma em aliada.

Retomando Whiplash e elucidando seu duelo, o fodendo Fletcher é a condição adversa e o conflito de Andrew não reside em provar sua capacidade, mas também em superar o vilanesco mestre. Uma vez que não existe talento que propicie a grandiosidade sem esforço, a busca pela perfeição se limita tampouco a conciliação dos dois, pois o artista não produz sobre ou sob o nada. São as interações de seu talento e esforço com seu universo e seus limites, inclusive os de talento ou esforço, que definem a tal da perfeição que se está perseguindo.

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Por fim, um pequeno adendo quanto ao uso de “melhor” neste texto (e demais contextos válidos). Esta palavra é um superlativo, isto é, adiciona valor a certo substantivo em detrimento de outro. Assim sendo, ao usar este termo excluímos tudo, exceto aquela única coisa que julgamos a “melhor”. Reflita: existem incontáveis melhores maneiras de apreciar do que o restritivo “melhor” – que se acompanhado por “de todos os tempos” galga à máxima exclusão. Lembre-se: a arte não cabe a pódio algum e, na maioria das vezes, não se importa com perfeição.

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