LEGO Batman: O Filme

“Longa em LEGO do Homem Morcego diverte e explora o personagem por ângulo diferente. E dá uma lição aos live actions da DC”.

Por Luís Gustavo Fonseca

Em 2014, Uma Aventura LEGO foi uma das melhores e mais gratas surpresas do ano. A animação, que trouxe à vida o clássico brinquedo, recebeu o reconhecimento da crítica (chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Animação) e o amor do público, que rendeu uma bilheteria de US$ 470 milhões de dólares no mundo todo. O sucesso foi o suficiente para que a Warner Bros. não só preparasse uma continuação, mas expandisse as produções envolvendo os bonequinhos amarelos. Uma dessas derivações é justamente com foco em um dos personagens mais conhecidos de todos os tempos, e que já tinha tido um papel importante em Aventura LEGO.

Nessa obra destinada ao herói, a história não tem uma premissa inovadora: é mais uma vez o Batman tentando impedir o Coringa de conseguir destruir a cidade ou algo do tipo. Mas é a maneira como isso acontece que torna a animação algo diferente e único, se distanciando do que o público já viu nos live actions. As relações de Batman são a chave da história: a dele com Alfred, Robin, Barbara Gordon e também com o Coringa. Cada uma delas tem peculiaridades, e a forma como o herói lida com elas é o que movimenta o enredo. Essa abordagem permite uma exploração interessante do personagem, algo que, ao menos no meio audiovisual, pouco tinha visto. Batman/Bruce Wayne esconde um grande medo, e ele tenta disfarçar esse receio com um super ego excentricamente vaidoso e narcisista – características que casam com a proposta da história, pois o público se diverte muito com esse estilo marrentão dele.

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Esse perfil convencido também colabora para adicionar camadas ao personagem, dando um peso dramático à narrativa, e conseguindo aprofundar, surpreendentemente, o seu protagonista. Aí está o maior mérito do longa: o medo de aceitar os outros em sua vida e a visão de que ele pode fazer tudo sozinho, sem a ajuda de ninguém, mas isso torna sua vida infeliz e vazia. Isso é confrontado por Alfred, Barbara e até o Coringa, e é a partir desses confrontos que o personagem consegue evoluir na trama – e os outros coadjuvantes principais também. Aliás, é uma ótima sacada do roteiro brincar com todo o mito que herói tem na Internet, de vencer qualquer luta de forma mirabolante simplesmente por “ser o Batman”.

Ainda sobre o roteiro, vale destacar que mesmo com essa pegada dramática, o filme ainda é bastante divertido, tendo um ritmo adequado. As interações são ótimas, rendem excelentes piadas e trocadilhos, há centenas de referências e easter-eggs (que respeitam e valorizam bastante obras anteriores do Cavaleiro das Trevas) e, principalmente, as piadas não ficam deslocadas (alô, alô, Marvel!). O equilíbrio entre os dois núcleos é acertado.

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A animação em si é outro ponto bem feito, quesito que parece mais refinado do que em Uma Aventura LEGO. Uma animação que em alguns momentos parece um stop motion, mas consegue produzir uma fluidez arrojada e que traz uma assinatura única para a obra, diferente de todas as outras animações (mas que, assim como tantas outras, não aproveita em nada o formato 3D). Outro ótimo acerto é a trilha de Lorne Balfe (de… Exterminador do Futuro: Gênesis?!?!), que empolga (teria homenagem a alguns acordes de Mad Max: Estrada da Fúria?) e não fica deslocada em momento algum, criando a imersão desejada. Há referências às trilhas antigas do Homem Morcego e a presença de músicas criativas e não tão grudentas como Everything is Awesome – ela está na sua cabeça agora, né?

A dublagem é, por fim, o último grande acerto. Will Arnett entrega uma voz marcante e única ao herói e, dada a abordagem da produção, lembra muito outro personagem dublado por Arnett com problemas semelhantes, BoJack Horseman. Ralph Fiennes transmite toda a serenidade que a figura do Alfred passa, enquanto Michael Cera consegue fazer um Robin infantil, mas não sem ter um tom irritante, servindo de contraponto para Batman. A Barbara Gordon/Batgirl de Rosario Dawson é infinitamente superior a mesma personagem que vimos em A Piada Mortal e, por último, o trabalho de Zach Galifianakis como o Coringa deve ser o mais curioso e um dos mais bem sucedidos. A pegada e o tom de voz ao clássico vilão é bem diferente da abordagem que Mark Hamill dava no desenho da década de 90, mas encaixa como uma luva na proposta do filme.

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Nem sempre, o “sombrio e realista” será a resposta. LEGO Batman é um sopro de esperança e alívio para os fãs da DC, quebrando uma sequência de longas, no mínimo, questionáveis dos personagens da editora tanto em live actions quanto em animações. E acaba deixando uma lição para as duas vertentes: sim, é possível combinar um desenvolvimento de personagem bem feito com um clima mais leve e que arranque diversas risadas do público. Às vezes, tudo que você precisa é fazer com que o Batman se vanglorie de seu tanquinho de nove gominhos – um deles fica escondido.

Nota: 8,5/ 10.

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