Um Limite Entre Nós

 

“Denzel Washington e Viola Davis carregam uma das obras mais poderosas do Oscar deste ano.”

Por Luís Gustavo Fonseca

Antes de mais nada, eu acho uma pena que nem todos os filmes que concorreram ao Oscar (ao menos, na categoria Melhor Filme, que é a principal) conseguissem ser lançados antes da premiação aqui no Brasil. Por um lado, entendo que é uma missão complicada, já que a concorrência com outras grandes produções é dura (e os meses de janeiro e fevereiro estão sendo cada vez mais visados pelos estúdios), e a maioria desses longas tem a distribuição feita por estúdios menores, que não tem como competir com os grandes estúdios. Entretanto, caso a pessoa quisesse ver os nove indicados antes da premiação, teria que recorrer a fontes “alternativas” para escolher o seu favorito.

Com isso, é capaz que, passado o frenesi da disputa, muitos optem por não ver Um Limite Entre Nós nos cinemas, o que seria um desserviço a um dos concorrentes mais interessantes desta edição. O longa, que adapta a peça de August Wilson – e que o próprio transcreve para as telonas – acompanha a história de uma família negra americana durante a década de 50, que se esforça para viver em uma casa simples. Troy Maxson (Denzel Washington) sonhava em ser um jogador de baseball, mas devido a idade avançada, não pode persistir no sonho. Ao lado da mulher Rose (Viola Davis), ele se esforça para sustentar a família com seu trabalho na companhia de lixo da cidade. Com o passar do tempo, as angústias de Troy o levam a desenvolver uma tensão dentro de sua residência. Um limite entre ele e o resto da família.

fences-movie-trailer

A produção foi indicada a quatro Oscars (Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Roteiro Adaptado), todas indicações merecidas. O dueto principal é o coração da obra, no que são duas das melhores atuações do último ano. O veterano Denzel Washington já havia feito trabalhos competentes nos últimos anos (como é o caso de O Protetor), mas aqui, ele vai além e tem sua melhor atuação em muito tempo, o que justifica a indicação ao prêmio máximo de Hollywood.

Denzel poderia muito bem ter ganhado (talvez, as duas estatuetas que tem em casa pesaram na decisão dos votantes, que escolheram Cassey Affleck por Manchester à Beira), já que ele consegue trazer camadas e profundidade a um personagem difícil e controverso. Principalmente, ele consegue ter uma atuação até um pouco exagerada, eufórica, mas sem ser caricato ou parecer falso. De certa forma, ele ofusca Viola Davis, que brilha com maior intensidade no ato final. E, em apenas uma cena, justifica porque embolsou a estatueta no domingo, em uma das cenas mais impactantes entre os nove indicados a Melhor Filme deste ano.

landscape-1474986200-fences

A direção do próprio Washington (em seu primeiro trabalho na posição) é algo que colabora para lapidar o trabalho dos atores, fazendo com que essas atuações sejam mais sentidas. Por se tratar de uma adaptação de uma peça teatral, ele toma cuidado para aproveitar o ambiente em que a história acontece (basicamente, a casa dos Maxson), posicionando a câmera próxima aos atores, de forma que você crie uma intimidade com os personagens. O aproveitamento do espaço é outro bom aspecto de sua direção, já que o diretor consegue emular a sensação de que estamos acompanhando uma peça de teatro. A própria forma como os personagens conversam entre si (às vezes, falando um pouco mais alto do que o normal) aumenta esse ar teatral, já que a transição de um take de um ator para o outro acontece com fluidez e dinamismo.

Essa sensação, sem dúvidas, tem a mão de August Wilson, em um raro caso em que o responsável pelo material original também tem envolvimento direto na adaptação do enredo. Os méritos não se restringem a transposição do palco para as telas, mas também para a história em si. O desenvolvimento do clima de tensão que toma a casa dos Maxson, a medida que Troy entra em conflito com a mulher e os dois filhos, Jim (Russell Hornsby) e Cory (Jovan Adepo), é bem feito, permitindo aprofundar os personagens e suas respectivas relações, o que explora mais o talento dos atores. Troy está longe de ser um mocinho, já que suas ideias (talvez uma ou outra nobres) se perdem em métodos até mesmo cruéis e que o afastam da família. Apesar do drama prender, a duração da produção (2h19) é sentida e prejudica o ritmo, criando momentos de arrasto. Um corte de 15 minutos resolveria o problema.

hero_fences-2016

Por fim, dá para perceber como o trabalho é bem feito quando ele consegue criar a vontade de ver a peça após o filme. Afinal, existe elogio maior para um roteiro adaptado? Se isso não é possível, ao menos conferir o filme, é. E ele é bem mais que o Oscar da Viola Davis.

Nota: 8,5/ 10.

Anúncios

O que você acha sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s