Logan

“Em sua última participação no papel, Hugh Jackman tem um adeus merecido como Wolverine.”

Por Luís Gustavo Fonseca

A essa altura do campeonato, falar como os X-men (e, consequentemente, o Wolverine) mudaram a história das produções baseadas em HQs  é o mesmo do que chover no molhado. Desde o sucesso do primeiro filme, lançado há 17 anos, Hollywood passou olhar para os super heróis de outra forma, criando um gênero que hoje é o mais lucrativo da indústria. E ao longo desses anos, em que a cronologia dos mutantes virou uma bagunça e motivo de piada (mas ainda vamos ver cada novo lançamento, independentemente), Hugh Jackman sempre esteve na pele que recobre os ossos de adamantium de um dos personagens mais queridos do grupo e da cultura pop atual.

Curiosamente, se ele sempre foi uma das estrelas do grupo, ele também tropeçou quando tomou o protagonismo para si. O longa de 2009 é uma vergonha a altura do nosso 7×1, e só mesmo o Deadpool para se recuperar de um estrago tão grande, com seu próprio filme lançado no último ano. Wolverine – Imortal (que não morreu no final, claro) conseguiu se redimir e é até razoável, mas o pífio e desastroso terceiro ato ofuscou os méritos presentes no restante da obra. Em ambas as oportunidades, o que mais doeu nos fãs é o fato de nunca termos visto um lado bem conhecido do personagem: sua faceta mais violenta, sanguinolenta e visceral, que já havia sido explorado em várias HQs nas últimas décadas, mas que a classificação indicativa sempre impediu que fosse reproduzida nas telonas.

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Graças ao sucesso de bilheteria do Mercenário Tagarela (o destino é algo engraçado, não? De vilão em Origens para “salvador” agora), a FOX tomou coragem e produziu um longa para maiores do Carcaju, no que deve marcar a última participação de Hugh Jackman como o mutante. Em Logan (adoro o título, que desvincula-se das outras duas produções), Wolverine está em um futuro próximo, em que quase não há mais mutantes. Envelhecido e enfraquecido, já que seu fator de cura não funciona mais como antes, ele ganha a vida como motorista de limusines. O sustento ajuda em sua sobrevivência e que ele cuide do professor Xavier (Patrick Stewart), que se encontra com uma mente debilitada e que alterna entre momentos de lucidez e devaneios. A rotina dos dois é alterada quando um dos trabalhos de Logan envolve levar a jovem mutante Laura (Dafne Keen) para a fronteira com o Canadá. Tarefa que não será simples, já que a garota é perseguida pelo grupo de mercenários “Carniceiros”, interessados em seu gene mutante.

Talvez por ser o último trabalho de Jackman, talvez por ser uma obra com classificação indicativa maior, o fato é que Logan se diferencia não só das demais produções mutantes da FOX, mas de boa parte das adaptações de quadrinhos atual. Mais soturno e pé no chão, o roteiro preza pelo desenvolvimento dos personagens e de suas relações, e esse foco não poderia ser mais bem vindo. Sobretudo, porque é bem feito, já que a construção da história  faz com que o espectador se importe com aqueles personagens. Em um drama com ares de road trip (mas que sabe colocar o humor na hora certa), o que importa são as relações do trio Logan-Xavier-Laura, suas desavenças, a forma como seus conflitos são acentuados e posteriormente resolvidos. Todo esse desenvolvimento aprofunda e deixa os personagens mais humanos, e atribui um grande valor emocional a produção.

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Justamente devido a esse enfoque, a ação em Logan é salpicada, aparecendo em momentos pontuais e que ajudam a levar a história para frente. Isso acaba valorizando tais cenas, já que eles trazem dinamicidade a história, sem se tornarem gratuitos. E que ação! O diretor James Mangold (o mesmo de Wolverine – Imortal) consegue fazer sequências rápidas e que, salvo um ou outro segmento, não se perdem em milhares de cortes que impedem a pessoa de entender o que está acontecendo. Ele acerta tanto ao filmar as lutas corpo-a-corpo como sequências envolvendo perseguições automobilísticas e tiroteios. E o sangue, a violência, toda a parte visceral que os fãs queriam? Está lá, do jeito que queríamos, com Mangold não perdendo a oportunidade de explorar essa nova ferramenta, tornando cada soco, cada fatiada do Carcaju, algo mais realista e empolgante.

Não acho, contudo, que a história seja um quesito à prova de balas. Por priorizar o drama, há momentos em que a obra perde o fôlego, contendo cenas arrastadas e que pouco acrescentam, fazendo com que às 2h17 de fita pesem. Outro fator que decepciona um pouco são os vilões. Por um lado, eles servem bem a proposta da produção, que é focar no trio dos heróis. Contudo, falta maior presença dos antagonistas, que acabam sendo tão esquecíveis quanto outros vilões da Marvel e  de longas anteriores do Wolverine, com o antagonismo ficando mais com a situação do que com os personagens.. Para um capítulo final, o mutante merecia mais.

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Além da trilha de Marco Beltrami (do remake do Quarteto Fantástico?!), que colabora para deixar a história mais emocionante e empolgante, com uma trilha incisiva (mas que, ao contrário do que eu pensei, não utiliza músicas famosas, como os trailers da produção fizeram), o que coroa Logan são as atuações, que poderiam facilmente ser indicadas a premiações. A química do trio principal funciona perfeitamente, o que eleva o trabalho individual de cada um. É a atuação mais memorável de Jackman como o mutante canadense, sendo que destaco como ele consegue trazer novas nuances do personagem após interpretá-lo em tantos filmes. Ele transmite a emoção que essa despedida carrega, tornando mais especial cada cena com o personagem.

Também é o melhor trabalho de Patrick Stewart como professor Xavier, com o ator mostrando toda a fragilidade e o drama interno do personagem. Ao mesmo tempo, ele vai além e consegue balancear os momentos de seriedade com os cômicos, o que traz camadas ao velho professor. A participação mais impressionante, porém, é da estreante Dafne Keen. É louvável como a jovem atriz consegue transmitir uma enorme presença usando apenas as expressões faciais e o movimento dos olhos, já que é possível saber o estado emocional de Laura (se ela está feliz, preocupada, desconfiada, curiosa, agressiva…) apenas pelo olhar. É, sem dúvidas, a melhor herança que a produção deixa, e eu não ficaria surpreso se ela voltasse em outros filmes dos mutantes no futuro. Aliás, acharia DUCARALHO.

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Mais dela? Sim, por favor!

É uma pena que essa é, provavelmente, a última vez que veremos o Wolverine de Hugh Jackman. É impensável imaginar um substituto para ele agora, e talvez seguir esse caminho não seja o melhor, já que a FOX pode, então, explorar outros personagens do universo mutante agora. Fica o legado do ator e a provável consolidação das produções para maiores, já que é provável que a obra seja um sucesso de bilheteria – e a FOX é a única que, até agora, investe nessa temática de forma mais intensa. A jornada, felizmente, se encerra de forma merecida.

Nota: 9/ 10.

P.S.: Não há cena pós-créditos.

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Um comentário sobre “Logan

  1. O último filme de super-herói de 2016 foi Dr. Estranho, da Marvel. Na minha opinião, foi o melhor filme do gênero no ano. O primeiro de 2017 foi Logan, também da Marvel. E o ano começou em altíssimo estilo: Logan, do diretor James Mangold é simplesmente sensacional! É de deixar qualquer nerd pirado! O enredo é muito inteligente, as atuações ótimas. Logan é disparado o melhor filme da franquia X Men de todos, conseguindo, paradoxalmente, ser uma sequência e, ao mesmo tempo, é quase um spin off. Até o momento, na minha avaliação, o melhor filme da franquia era o Dias de um futuro esquecido, de Bryan Singer (2014). Mas Logan supera, em todos os quesitos, todos os seus antecessores.
    Os X Men formam um dos grupos de super-heróis mais conhecidos de todos os tempos, competindo em popularidade com os Vingadores, da mesma Marvel, e com a Liga da Justiça, da DC. E na equipe, o mutante canadense Logan, apelidado de Wolverine, é um dos mais carismáticos de todos. Não é de se admirar que ele tenha recebido alguns filmes solo, como Wolverine: Origens (de 2009) e Wolverine: Imortal (de 2013). Mas nem nestes, nem nos filmes com todo o time dos X Men se viu um Wolverine fiel ao que a gente estava acostumado a ler nos quadrinhos. Finalmente agora, no último filme em que o ator australiano Hugh Jackman encarna o nosso querido Carcaju (papel que interpreta desde 2000), vimos uma adaptação que faz justiça ao Wolverine das HQ’s. Antes tarde do que nunca! Para ser justo: Wolverine aparece em uma ponta, de poucos segundos, no muito fraco X Men: Apocalypse (de 2016), com um visual idêntico ao de “Arma X”, uma HQ clássica, de 1991, e fazendo o que ele sabe fazer melhor: decepar, mutilar e fatiar seus adversários sem dó nem piedade.
    Mas quem conhece o Wolverine dos quadrinhos sabe que ele é muito mais que uma máquina de matar descontrolada: Logan é leal aos seus amigos, é solidário, corre riscos para ajudar aqueles a quem ama. Tudo isto está presente no muitíssimo bom filme de Mangold. O filme tem alguns poucos alívios cômicos, que não forçaram a barra, antes, ficaram muito bons, porque o Logan das HQ’s é irônico, sem ser cínico.
    Este filme é completamente diferente de todos os demais, tanto da franquia X Men como os filmes solo do Wolverine. O tom é sombrio e melancólico. É o filme mais realista de todos da sequência. Não há glamour nenhum. Há uma sintonia maravilhosa entre as atuações do trio principal – Logan, o Professor Charles Xavier (mais uma vez interpretado pelo ator shakespereano britânico Patrick Stewart) e X 23, ou Laura, interpretada com uma naturalidade impressionante pela atriz criança Dafne Keen. Ela passa a maior parte do tempo sem dizer uma palavra, mas expressa com seu olhar todos os seus sentimentos. Pelo seu olhar e pela expressão do seu rosto dá de saber se ela está feliz, ou com medo, ou com raiva, ou preocupada. Pois bem, este trio desenvolve um relacionamento de cuidado mútuo e de forte amor familiar. De fato, o relacionamento do Professor X com Logan sempre foi de pai e filho. E entre a menina Laura e Logan desenvolve-se uma relação de pai e filha. Ela foi criada em laboratório a partir de material genético do próprio Logan, sendo assim uma espécie de clone dele. Mas não demora para que surja amor paternal e filial entre eles. Emocionante. Os brutos também amam.
    A narrativa se passa em 2029. Os mutantes foram quase todos exterminados. Logan ganha a vida como motorista de limusine na fronteira dos EUA com o México, e cuida do Professor Xavier, que alterna momentos de fuga da realidade com lucidez. Xavier está com 90 anos, o que quer dizer que Logan deve estar com uns 200 (ou mais). Mas o peso da idade já se faz sentir para ambos. O fator cura de Logan não funciona mais com a velocidade de antigamente. A entrada de Laura na vida dos dois muda tudo. E eis que se inicia uma longa e perigosa jornada em busca de um lugar onde os poucos mutantes restantes podem viver em segurança. Nesta jornada, vemos o velho e bom Wolverine decepando, mutilando, fatiando seus adversários, um grupo que quer a todo custo acabar com os poucos mutantes sobreviventes no mundo, e recriar, a partir de pedaços de seus cadáveres, clones dos mesmos, que seriam soldados ideais.
    O filme tem um lance metalingüístico brilhate: a menina Laura tem revistas dos X Men! Em uma frase que cairia bem no filme do Deadpool (que é metalingüística em estado quimicamente puro), Logan diz: “não aconteceu nem um terço do que diz nesta revista, e o que aconteceu não foi assim. E este colant amarelo não ajuda em nada”. Na revista que Laura tem há uma estória chamada “Eden or the End?” (Éden ou o fim?). O trocadilho do inglês é intencional: um lugar chamado Éden seria o paraíso dos mutantes ou uma armadilha para acabar com eles? E o endereço que consta na revista é exatamente o lugar para onde Logan tem que levar Laura e o Professor X.
    O filme é muito intenso e dramático. Hugh Jackman e Patrick Stewart também conseguem fazer muitíssimo bem uma expressão facial que revela a limitação e a dor provocadas pela doença, pelo cansaço, pela velhice. O filme, como já mencionado, é realista, o que é quase uma contradição. Como pode um filme de super-heróis ser realista? Mas James Mangold acertou em cheio, e conseguiu fazer isto. Wolverine não é imortal. O Homo superior (a designação dada aos mutantes nas HQ’s, apontando para o fato que os mutantes seriam o próximo passo na evolução do ser humano) é idêntico a qualquer representante do Homo sapiens que não é mutante: todos envelhecem, perdem força, agilidade, rapidez, capacidade de raciocínio… E morrem. Todos morrem. Os heróis também chegam ao fim: Sansão, Hércules, Spartacus, Beowulf, Ragnar Lothbrok, Cuchulain… Logan Wolverine também. Que o nosso Carcaju descanse em paz.

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