Kong: A Ilha da Caveira

“Retorno do Rei dos Primatas acerta na ação e na criação de um universo de monstros gigantes, mas peca em roteiro mediano.”

Por Luís Gustavo Fonseca

O King Kong é uma das mais emblemáticas criaturas já feitas para o cinema. E, ao contrário de outros inúmeros exemplos, o seu nascimento se deu diretamente no formato. O monstro é uma co-criação do romancista inglês Edgar Wallace (falecido em 1932) e do diretor americano Merian C. Cooper, que dirigiu o filme lançado no ano seguinte. A película, que ficou marcada pela icônica cena do ser no topo do Empire State Building, ganhou uma legião de fãs no mundo todo, elevando o macaco a um  dos maiores expoentes das histórias de aventura e terror do século XX. Ao longo dos anos, ele chegou a enfrentar outro grande monstro da modernidade, o Godzilla, e sua última aparição na tela grande foi no remake de 2005, comandado por Peter Jackson.

A nova aventura com o Rei dos Primatas procura abordar a origem do ser por um novo ângulo. Na trama, que se passa em 1973, um time de exploradores e cientistas, liderados pelo ex-capitão James Conrad (Tom Hiddleston) e o tenente coronel Packard (Samuel L.Jackson), viaja para a misteriosa Ilha da Caveira. Acompanhados de soldados que estavam prestes a voltar da Guerra do Vietnã, o objetivo da equipe é desvendar o mito e o mistério que cercam o local, em busca das criaturas fantásticas que supostamente ali habitam. A passagem pela ilha  colocará a equipe diante de maravilhas e descobertas, assim como a vida de todos em risco.

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A direção da produção cabe ao americano Jordan Vogt-Roberts, responsável pelo bom Os Reis do Verão (se tiver a oportunidade, veja), estreando seu primeiro projeto de peso. De uma forma geral, o trabalho de Roberts é um acerto. A obra tem uma ambientação de filme guerra, procurando misturar fantasia com Apocalypse Now.

As referências ao longa de Coppola acontecem não apenas na temática, mas também na (ótima) fotografia alaranjada (que alterna com uma paleta de cores acinzentada menos vibrante, mas a alternância, curiosamente, não é um problema), no clima de guerra vietnamita (como ver a cena do helicóptero tocando música na maior altura e não lembrar da cena semelhante em Apocalypse?) e até mesmo no curioso paralelo que pode ser feito entre o personagem de Marlon Brando e de John C. Reilly. O primeiro é marcado por ser uma virada na trama e por criar uma densidade no texto do longa de 1979, enquanto o segundo também aprofunda a história e traz um lado mais humano para o enredo, ao mesmo tempo que é o responsável por ser o alívio cômico da produção.

KONG: SKULL ISLAND

Uma sacada inteligente de Roberts é saber aproveitar o monstro. Ele não cai no erro do Godzilla de 2014 e explora a presença de Kong e das demais criaturas que habitam a ilha. Sim, o enfoque ainda é muito dedicado aos humanos, mas os monstros tem seu tempo de tela e o diretor aproveita para fazer boas cenas de ação.

Os maiores tropeços da produção acontecem no roteiro. A história é decente, contém diálogos interessantes no decorrer da trama, a conclusão é satisfatória e o ritmo, no geral, é agradável. Contudo, ela dá umas patinadas no segundo ato, onde chega a se subdividir em três núcleos que se alternam de forma desorganizada e que acaba não explorando de forma mais ampla nenhum deles. Isso acarreta um desenvolvimento mediano dos personagens, perdendo a oportunidade não só aprofundar os seus interesses e motivações, mas também de criar um laço mais profundo entre os membros grupo, o que dificulta que o público crie uma empatia com os mesmos.

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Eu achei bem legal a ideia de colocarem outras criaturas além do Kong. É uma expansão de universo bem pensada.

Por um lado, o 3D pouco acrescenta, e até atrapalha nas cenas de noite, sendo que é um grande equívoco ter uma sequência dessas no clímax do longa. Mas por outro, os efeitos e o visual das criaturas são ótimos, conseguindo transmitir a dimensão gigantesca dos monstros que habitam a ilha, tornando-as mais magníficas e aterrorizantes – a projeção IMAX só aumenta essa sensação. Uma pena que a trilha de Henry Jackman (Capitão América: Guerra Civil) se faz pouco presente (fora os momentos que tocam músicas de outras bandas e artistas) e fica ofuscada pelos sons dos bichos.

O elenco conta com nomes de peso, mas as atuações são irregulares e poderiam ter sido melhores exploradas. Tom Hiddleston e Brie Larson, embalados pelo sucesso de The Night Manager e por ter vencido o Oscar por O Quarto de Jack, respectivamente, têm dificuldades em carregar a obra, sendo que raramente a química entre eles funciona. Outros nomes, como John Goodman (Rua Cloverfield, 10) e Samuel L. Jackson (Os Oito Odiados) têm trabalhos satisfatórios, mas sem ter grande tempo de tela. O ponto alto fica com John C. Reilly  (Guardiões da Galáxia), que mescla o lado cômico com o humano, tornando-se um dos melhores personagens da produção.

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Por fim, Kong: A Ilha da Caveira cumpre sua proposta, mesmo com deslizes consideráveis. Se o objetivo era divertir e dar início a esse multiverso de monstros gigantes (que, além de Godzilla, pode ter no futuro os robôs de Pacific Rim!), ele foi alcançado, dando uma base sólida para o empreendimento. Que venha logo a porradaria entre o Rei dos Primatas e o Gojira! Como diria o Ken Watanabe no filme do Lagartão, “Let them fight!” (“Deixe-os lutar!”)

Nota: 7/ 10.

P.S.: Existe uma cena pós créditos. Não saia da sala antes da hora!

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