Silêncio

“História sobre crença e fé é mais um acerto na filmografia de Martin Scorsese.”

Por Luís Gustavo Fonseca

Silêncio tinha tudo para ser um daqueles filmes que conseguem o carinho da Academia do Oscar e arrancar um punhado de indicações: é dirigido pelo veterano Martin Scorsese, em seu primeiro trabalho desde O Lobo de Wall Street; tem boas atuações; uma história poderosa e uma produção de arte irretocável. Contudo, a obra foi lembrada em apenas uma categoria (Melhor Fotografia), e mesmo o público ignorou a produção, que teve um desempenho fraquíssimo na bilheteria.

O longa é uma adaptação do livro homônimo, escrito pelo japonês Shusaku Endo, e narra a história de dois jesuítas portugueses, Rodrigues (Andrew Garfield) e Garupe (Adam Driver), que viajam ao Japão na metade do século XVII em busca do padre Ferreira (Liam Neeson). A jornada não é simples, já que as notícias sobre Ferreira são escassas. A maior dificuldade encontrada pelos jesuítas, no entanto, é o ambiente hostil que encontram em solo nipônico, já que as autoridades locais não veem com bons olhos a propagação do cristianismo em suas terras, tornando a vida dos cristãos que lá habitam praticamente miserável.

1482356656kadr-so-s-emocsnoi-plosxadki-filma-molcsanie

A obra não é o melhor trabalho de Scorsese, mas não faltam qualidades. Velhas características do diretor estão lá, como a narração em off no decorrer da história, a violência apresentada de forma crua e direta (os métodos de tortura japoneses são de arrepiar) e o esmero que ele tem nas tomadas e em seu posicionamento de câmera. A fotografia do longa, indicada à estatueta, justifica o reconhecimento, alternando inteligentemente entre paletas de cores mais claras e vivas e mais escuras e claustrofóbicas – o uso de fumaça ajuda muito nesta sensação. A parte técnica, em especial o figurino, é outro acerto. No entanto, faltou utilizar mais vezes a trilha sonora, já que em um filme tão grande, são poucas as vezes em que ela aparece.

O que talvez tenha assustado o público é a duração da produção: 2h40. E acredite, o tempo pesa e há, sim, momentos de arrasto. Por outro lado, a situação consegue prender a atenção do espectador. A cada novo obstáculo enfrentado pelos jesuítas, o texto consegue explorar as diferentes maneiras de questionar a fé de alguém, assim como os sacrifícios e os limites que a mesma exerce em cada um. A crueldade como as autoridades japoneses tratam os cristãos (e, consequentemente, a maneira como eles obrigam os camponeses a viverem) proporciona uma reflexão certeira de como a cultura ocidental trata as religiões não cristãs, já que por aqui, a situação é invertida. Particularmente, não creio que o roteiro procura demonizar o budismo (a religião preferida pelas autoridades), mas sim, exaltar o poder da fé e da crença que há nas pessoas, enfatizando como isso afeta suas vidas e as decisões que elas tomam.

silence-movie-image-andrew-garfield

Entre as atuações, Liam Neeson tem uma participação pontual e que serve ao filme, enquanto, confesso, esperava uma maior exploração de Adam Driver, embalado pelo sucesso de Star Wars: O Despertar da Força. Há boas surpresas, como dos japoneses Tadanobu Asano e Issei Ogata, que proporcionam algumas das melhores cenas.

O grande destaque fica com Andrew Garfield, que faz um ótimo trabalho tanto nas cenas em que atua sozinho, quando questiona sua fé, quanto nos momentos que ele confronta os demais personagens, tendo uma presença muito forte. Assim, Garfield consegue carregar a obra sem problemas. Acho que até mesmo prefiro seu trabalho aqui do que em Até o Último Homem, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar deste ano – curiosamente, outro longa em que ele interpreta um homem de muita fé, que também é testada.

silence-00450

Silêncio é, por fim, uma obra poderosa, reflexiva e bem feita. Um projeto que há anos Martin Scorsese gostaria de realizar, e que deveria ter sido mais valorizado pela Academia e, sobretudo, pelo público. Uma pena.

Nota: 8/ 10.

Anúncios

O que você acha sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s