Samurai Jack: passado e futuro se encontram na nova temporada

Por Luís Gustavo Fonseca

Enquanto os milhões de foliões se divertiam, fantasiados, nos bloquinhos de carnaval que se espalharam pelo Brasil durante o melhor feriado deste país, aproveitei o recesso para corrigir uma lacuna da minha infância e assistir a todos os 52 episódios de Samurai Jack. A série, veiculada entre 2001 e 2004 no Cartoon Network (CN), foi dividida em quatro temporadas de 13 episódios cada. Treze (!) anos depois, ela retorna (agora com transmissão da Adult Swin, que transmitiu o primeiro episódio no último sábado, lá nos EUA) para sua derradeira conclusão, encerrando a rivalidade atemporal de Jack e de Abu – sempre dou uma risadinha ao perceber do porquê mudaram o nome do vilão (Aku) por aqui.

Os novos capítulos são ambientados no futuro. Ou melhor, ainda mais no futuro: passaram-se 50 anos desde a última vez que vimos Jack, mas ele não envelheceu. Se seu corpo não apresenta mudanças (a não ser visual com cabelão e barba grande), a mente do Samurai foi afetada. Por não ter retornado ao passado para derrotar seu arqui inimigo, ele agora é atormentado pelo seu fardo, tendo visões daqueles que sofreram na mão de Abu devido a seu “fracasso”. Enquanto Jack aparenta fugir de suas responsabilidades, a sua cabeça ainda está a prêmio, com muitos estando interessados em derrotar o samurai e agradar o Mestre das Trevas.

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Saborear o retorno e o início do desfecho da história de Jack e Abu é, também, saber apreciar as qualidades que marcaram a produção e que ajudaram a criar uma legião de fãs. Sinceramente, penso que Samurai Jack é uma das obras mais distintas que já houveram no CN.

Primeiramente, Fora Abu! Segundamente, Samurai é um desenho bastante contemplativo. Isso já é evidenciado no primeiro episódio, que conta com quase 10 minutos seguidos de história sem diálogo algum. A afeição pelo protagonista acontece muito mais pelas suas ações do que pelo o que ele fala. Mesmo porque, Jack não é um personagem engraçadinho, pelo contrário. Talvez, essas características ganham maior notoriedade pelo fato dele ser solitário, não tendo um companheiro(a) fixo em suas aventuras. Não há, de fato, alguém que ele desenvolva uma relação mais próxima e possa conversar durante o episódio.

E ele usa armas de fogo agora.

Esse caráter solitário/silencioso/sério é um grande contraste em relação aos demais desenhos de sucesso do canal: Hora de Aventura, Apenas um Show, Ben 10, Jovens Titãs, As Meninas Super Poderosas, Mansão Foster para Amigos Imaginários, Du, Dudu e Edu, Dexter… Não importa a geração, todos eles contêm no mínimo uma dupla de protagonistas tagarelas e engraçados (e isso, nem de longe, é um problema). Mas serve para destacar o quão diferente Samurai é dos demais. Para preencher esses momentos de diálogos escassos, entra em cena outra grande qualidade da produção: a trilha sonora. Além de ser bonita, ela é inteligente por saber conversar com os diferentes ambientes por qual Jack viaja, por saber transmitir as emoções não ditas pelo protagonista ou simplesmente por engrandecer as longas cenas de ação presentes em diversos episódios, tornando-as mais épicas. A trilha é a grande companheira de Jack e do telespectador, elevando a jornada para novos patamares.

Não é que o humor esteja extinto no seriado. Há momentos que Jack emplaca boas sacadas (sem contar o episódio em que Jack se transforma em um galo), mas o humor está mais presente nos diversos personagens secundários que cruzam a obra, como é o caso do Escocês (que tem um dos mais icônicos xingamentos de todos os tempos). Curiosamente, um dos principais responsáveis pelos momentos cômicos é justamente o vilão, Abu. O que ele fala, aliado ao seu modo de falar (arrastado, com um tom mais idoso), ao timbre de voz irritante e a risada clássica, consegue dar ao personagem uma variação que vai de aterrorizante até mais humorística. E essa diferenciação ajuda a dar uma pouco de profundidade a ele. Um exemplo de como o humor cai bem no vilão: 

Outro fator que coloca Abu nos holofotes do humor é a sua química com o herói da jornada. O episódio Jack versus Abu, da quarta temporada, é uma perfeita demonstração de como a rivalidade dos dois consegue acumular uma carga dramática, mais séria e pesada, ao mesmo tempo que proporciona boas risadas e momentos mais infames. Ao mesmo tempo que você gosta do samurai e torce para que ele cumpra seu objetivo, o espectador também cria simpatia pelo pitoresco e temível Abu. A própria ideia da entrada/tema da obra ser narrada pelo vilão é uma estratégia de criar esse vínculo e, novamente, tornar a produção diferente das demais.

Muito dos demais vilões de Jack também são irônicos e causam risadas. Caso do Scaramouch, que aparece neste primeiro episódio da 5ª temporada

A ambientação séria e a pegada mais adulta também é  refletida  na arte. Ela, em si, não é inovadora, já que tem um traço semelhante a de Dexter e As Meninas Super Poderosas, outras duas obras que o criador de Samurai, Genndy Tartakovsky, foi produtor. Contudo, a forma como ele conduz a arte nas cenas de luta é que dá um diferencial em Samurai. Ele consegue camuflar a violência dos cortes, mutilações, decapitações e outros momentos chocantes tendo a simples e eficaz ideia de colocar Jack, na maioria das vezes, enfrentando robôs, o que ameniza o impacto dessas cenas.

Aliás, aproveito para frisar que as cenas de luta SÃO DUCARALHO! O modo como a tela é dividida, a dinâmica das lutas, os golpes, a aproveitação dos elementos presentes nos ambientes. O desenho é recheado de confrontos memoráveis e bem feitos (o que homenageia os 300 de Esparta, inclusive, conta com cenas em slow motion. Pergunto-me se isso serviu de inspiração para Zack Snyder…). De todos, acho que o meu favorito é o do episódio Jack e os Zumbis, da terceira temporada.

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Em alguns momentos, Tartakovsky chega a colocar sangue humano na tela, o que para a época, acho que contava como uma considerável ousadia. Tudo bem, o CN também passou animes como Dragon Ball que tinham uma violência gráfica bem maior, mas acho que entre as produções ocidentais, Samurai estava a frente de outros nesse sentido. Com transmissão agora do Adult Swin, a promessa, como já foi vista no trailer da nova temporada, é que tenhamos mais sangue e uma escala de violência maior nesta temporada. A animação em si parece mais refinada e bem finalizada (o que é ótimo), mas mantendo o traço original.

Nem tudo em Samurai é diferentão. Além da arte similar a produções anteriores, o desenho também se caracteriza por ser bastante episódico, com histórias praticamente independentes uma das outras, algo como acontece em Hora de Aventura. O que, no fim, é bom, já que acontece uma expansão do universo da obra, que explora as diferentes criaturas, culturas e detalhes daquele futuro reinado por Abu. Esta é a estratégia que possibilita uma maior imersão naquele universo.

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Todas essas características estão, em maior ou menor grau, neste primeiro episódio da quinta temporada. Além da nostalgia, que certamente atingirá os fãs de longa data, o novo cenário, marcado pelo Jack perturbado mentalmente, é motivação suficiente para empolgar qualquer um. Alguns mistérios já foram plantados para serem desenvolvidos, e mesmo uma ausência mais significante de Abu neste primeiro episódio já intrigante (apesar que, se tivesse que apostar, o vilão pouco deve aparecer nesses primeiros episódios, como uma forma de prestar luto a Mako, o dublador em inglês que faleceu em 2006). Se o vilão “sufoca o passado, presente e o futuro”, cabe aos fãs aproveitar o momento atual e se deleitarem com o que deve ser um desfecho épico desta história.

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