A Bela e a Fera

“Releitura de clássica animação peca no visual, mas apresenta história mais abrangente e com personagens mais bem construídos”

Por Luís Gustavo Fonseca

A Disney descobriu uma máquina de fazer dinheiro. Com o sucesso estrondoso de Alice no País das Maravilhas em 2010, ela abriu os olhos para a oportunidade de refazer cada uma de suas animações. Mulan, Aladdin, Dumbo e Rei Leão são alguns dos vários projetos que estão em desenvolvimento para explorar essa mina de ouro. Eu já até sugeri aqui cinco animações que, ao contrário de outras, penso que realmente deveriam receber um tratamento em live action. E agora, após os sucessos de Malévola, Cinderella e Mogli, é chegada a hora de A Bela e a Fera receber uma releitura do estúdio do Mickey, 26 anos depois do lançamento da animação que conquistou dois Oscars (Melhor Animação e Melhor Canção) e foi a primeira a ser indicada à categoria Melhor Filme da premiação.

Para aqueles que possam não estar familiarizados com a história, ou nunca viram o desenho (eu mesmo só vi pela primeira vez há uns três anos), o enredo acompanha Bela (Emma Watson), uma jovem mulher inventiva e apaixonada por livros que está cansada da vida provinciana da pequena vila onde mora. Quando seu pai, Maurice (Kevin Kline) é capturado pela misteriosa Fera (Dan Stevens) que habita um castelo escondido, ela concorda em trocar de lugar com o pai e viver com o monstro e seus criados – que foram transformados em utensílios falantes.

BEAUTY AND THE BEAST

Bill Condon (Sr. Sherlock Holmes, A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2) é o diretor do longa e é, também, o ponto que mais oscila. A direção não chega a ser irritante ou preenchida com falhas graves, mas é perceptível como falta uma maior presença, uma assinatura do diretor na obra. Não é igual a, por exemplo, o Kenneth Branagh em Cinderela, que acerta em cheio no visual e na direção de arte, explorando essa qualidades com um enquadramento e um movimento de câmera certeiros. A filmagem de Condon não tem maior inspiração, assim como não consegue criar novos takes icônicos, concentrando-se em reproduzir o que já foi visto antes (nem sempre, com a mesma qualidade). A fotografia só piora esse aspecto, já que o filme é, muitas vezes, excessivamente escuro – em 3D, a sensação deve ser pior ainda.

A parte técnica tem mais acertos que erros. Mesmo que não tenha uma assinatura gráfica própria e que o visual da Fera e dos objetos seja um ponto mais fraco, desprovido da personalidade marcante que estes personagens têm na animação, o figurino e os ambientes do palácio são bonitos e bem feitos. A trilha, que conta com o retorno do renomado Alan Menken (o mesmo da animação e detentor de oito estatuetas do Oscar, incluindo suas trilhas de  Aladdin e Pocahontas), aproveita algumas das faixas antigas e mantém a aura mágica da animação, ao mesmo tempo em que adiciona algumas novas canções – sendo que todas são bem inseridas e que acrescentam conteúdo a trama. Pena que, para isso, algumas das músicas antigas tiveram que ser cortadas.

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Aliás, se há momentos que esse live action acerta em cheio, é quando ele não tem vergonha de se assumir como um musical e se aproveitar das características do gênero. É nessas horas, também, que ele melhor se aproxima da animação e faz sua maior homenagem. As sequências envolvendo multidões e várias pessoas cantando, como na música de abertura, o tema de Gaston ou em The Mob Song, são extremamente bem feitas e coreografadas, dinâmicas e não parecem deslocadas do restante do filme. Cada número musical é digno da Broadway – algo que, convenhamos, a Disney tem a tradição de saber fazer.

Tendo 40 minutos a mais que o desenho, o roteiro precisava ser inteligente em como preencher o tempo extra. E ele cumpre bem este objetivo, já que a história é um pouco mais abrangente, acrescentando detalhes e camadas aos personagens, o que torna aquele mundo mais real e tira um pouco da superficialidade dos personagens. Não vou discuti-las aqui para não estragar a surpresa, mas a tão comentada revelação (ou confirmação) de que LeFou (interpretado por Josh Gad) é homossexual é um exemplo disso. Isso torna o personagem mais profundo, providenciando uma nova nuance sobre suas falas, ações e reações. Mesmo que a representação do personagem, por vezes, seja caricata, esse acréscimo na história torna mais profunda e orgânica sua relação com Gaston (Luke Evans), o que torna a dupla mais bem trabalhada.

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As atuações, de uma maneira geral, são boas. Emma Watson consegue dar à Bela uma personalidade mais bem construída e de presença mais impactante, o que a ajuda a carregar o protagonismo da obra ao mesmo tempo em que o espectador desassocia a imagem da atriz ao de Hermione, da saga Harry Potter. Penso que Dan Stevens não apresenta o mesmo nível de qualidade, o que atrapalha um pouco na química do dueto, mas não chega a ser um trabalho ruim.

A dublagem dos utensílios é feita com esmero e competência, contando com nomes como Ian McKellen, Ewan McGregor, Emma Thompson e Stanley Tucci. Luke Evans e Josh Gad têm os melhores trabalhos da produção, conseguindo trazer para a tela todas as características memoráveis dos personagens, com uma química eficiente e com a dose de humor certa.

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Finalmente, A Bela e a Fera é uma obra satisfatória e que consegue se sustentar, mesmo bebendo de um pouco da nostalgia de seu público. Não está no nível de Mogli (a única produção que considero que acertou em cheio entre esses remakes da Disney), mas pavimenta, ainda mais, esse ramo que a Disney pretende explorar com afinco nos próximos anos. Mesmo porque, o longa deve ser o primeiro dessa leva a bater a bilheteria superior a US$ 1 bilhão no mundo todo, provando que esta história tão antiga quanto o tempo ainda tem sua relevância.

Nota: 7/ 10.

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