Fragmentado

“Finalmente, podemos dizer que M. Night Shyamalan está de volta, com atuação monstruosa de James McAvoy.”

Por Luís Gustavo Fonseca

A trajetória do diretor M. Night Shyamalan envolve uma dose de felicidade e outra de tragédia. O indiano conquistou o mundo com seu terceiro longa, Sexto Sentido, que recebeu seis indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, além de uma legião de admiradores no mundo todo. Um grande plot twist e viradas inesperadas na trama passaram a ser sua maior assinatura (além das rápidas aparições que ele faz), o que marcou boa parte das obras de sua filmografia.

Contudo, após esse sucesso, a carreira de Shyamalan, para muitos, foi ladeira abaixo. Talvez por, injustamente, criarem uma expectativa a cada novo lançamento e o pressionarem a realizar algo do mesmo nível de Sexto Sentido,  cada novo filme do diretor, por mais que tivesse qualidades, deixava um gosto amargo em muita gente. Com isso, bons longas como Corpo Fechado, Sinais e eu colocaria no bolo até mesmo A Vila, ganharam uma recepção morna da crítica e do público. A sequência de A Dama da Água, Fim dos Tempos, O Último Mestre do Ar e Depois da Terra praticamente tamparam o caixão do diretor, que não dava sinais de que voltaria a produzir um material decente.

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Talvez num twist digno de suas obras, a virada veio. A Visita pode não ser um filme adorado e lembrado por muitos (ele foi um dos grandes esquecidos de 2015), mas já foi melhor recebido e mostrava que o diretor tinha a capacidade de recuperar-se. E Fragmentado é a produção que consolida que, aparentemente, Shyamalan voltou. Na trama, três adolescentes são sequestradas por Kevin (James McAvoy), um homem diagnosticado com Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) e tendo 23 (!) personalidades distintas. Se os planos que ele tem para as garotas são obscuros, elas devem encontrar um modo de fugir do cativeiro onde se encontram antes que a misteriosa 24ª personalidade do vilão se desperte.

Mesmo em seus bons trabalhos, sempre tive a sensação que as obras do diretor (que também é roteirista da maioria dos seus filmes) pecavam no ritmo, tendo uma condução demasiadamente arrastada e que me cansavam. Não é o caso aqui. O desenvolvimento do enredo é agradável e acontece num ritmo mais acelerado, mas sem atropelar-se e deixar a história desconexa. A edição, por exemplo, funciona de forma que consegue trabalhar e desenvolver Kevin (e algumas de suas personalidades), ao mesmo tempo que faz o mesmo com uma das meninas, Casey (Anya Taylor-Joy), oferecendo um contraponto e permitindo um balanceamento entre os dois principais pontos de vista.

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As garotas devem fugir antes que “monstruosa” 24ª personalidade de Kevin apareça

Além disso, a relação e a interação dos personagens funciona e é bem explorada, dando contornos mais dramáticos ao enredo e aumentando a tensão presente na história. Apesar de seu característico plot twist funcionar, creio que o terceiro ato se destoa do restante da trama, acrescendo-se de elementos mais fantásticos que não combinam com o restante do tom apresentado, causando estranheza.

Aqui, o diretor não se arrisca de forma mais contundente como em A Visita, onde ele acerta em cheio com a câmara na mão. Mas mesmo com uma pegada mais convencional, não há aquele excesso de zoom in e zoom out que outros de seus trabalhos apresentam. O trabalho dele com o movimento e posicionamento de tela é mais orgânico, com ele explorando bem o cenário fechado e claustrofóbico na qual boa parte da história acontece. A trilha sonora também ajuda nessa ambientação, aumentando a tensão dos momentos mais cruciais.

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Entre as atuações, a maioria das interpretações são medianas e não saltam aos olhos. Os pontos fora da curva são justamente os atores com os personagens mais bem explorados, Anya Taylor-Joy e James McAvoy. Ela, por saber mostrar, aos poucos, uma grande dor que há por trás de sua personagem, dando maior dimensão a mesma. Ele, por apresentar uma variedade de trejeitos, modos de falar e de se portar que, de fato, dão vida e presença a cada uma das personalidades de Kevin, no que deve ser o melhor trabalho da carreira de McAvoy. A atuação é tão impressionante que é de se lamentar que vejamos apenas algumas das 23 facetas do personagem.

Há expectativas para uma continuação (algo que o diretor não tem na carreira até o momento), o que eu acho que seria deveras interessante. Fragmentado, por fim, consolida o bom momento de M. Night Shyamalan, e seu retorno a tempos melhores parece certo. Que ele saiba aproveitar isso – e que o público e crítica não o pressionem como antes.

Nota: 7,5/ 10.

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