Trainspotting 2

“Vinte anos depois, Danny Boyle proporciona amadurecimento ao seu quarteto de viciados.”

Por Luís Gustavo Fonseca

Numa época de remakes e continuações desnecessárias (só ano passado, tivemos Zoolander 2 e Casamento Grego 2), é de se erguer as sobrancelhas, com receio, para a continuação de Trainspotting, o longa de 1996 que conquistou milhares de fãs no mundo todo. Passados vinte anos, Mark Renton (Ewan McGregor) retorna para a Escócia para enfrentar os fantasmas do passado, e encontrar-se com os (ex) amigos Spud (Ewen Bremmer), Begbie (Robert Carlyle) e Simon/Sick Boy (Jonny Lee Miller). Como encará-los após (spoiler caso não tenha visto o original) roubar a grana que deveria ser dividida entre o quarteto?

O primeiro longa é uma obra sobre inconsequências, sobre viver o momento. A  melhor prova disso reside em sua condução letárgica e transloucada, marcada pelas inúmeras viagens causadas pelo consumo de heroína (e por sua abstinência). Consequências graves, como a morte do bebê, geram impacto e dão peso a história, ao mesmo tempo em que isso se mistura com as viagens de Renton entrando numa privada ou toda sua piração em seu quarto na casa dos pais. Esse momento mais louco, irresponsável e desenfreado do primeiro longa é a parte que mais gosto e que, penso, onde a obra mais acerta. Tanto que acho o terceiro ato, momento em que Renton escolhe a vida “comum”, mais fraco e mais deslocado do restante da produção.

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Desta vez, a história é sobre lidar com as consequências – no caso, o abandono dos amigos com o dinheiro de todos. Perceber esta proposta é importante para entender porque a continuação tem um ritmo tão diferente do original, mais arrastado, mais soturno e com menos viagens. Fazer a contraposição ajuda a apreciar melhor o desenvolvimento dos personagens, os seus conflitos e a química entre os quatro protagonistas. O modo diferente de conduzir a história também é uma forma de criar uma espécie de metalinguagem: se o primeiro tem um ritmo acelerado, como se você consumisse a droga junto com os personagens, o ritmo cadenciado do segundo é como se o espectador tivesse em abstinência, desejando que eles voltem aquele mundo de fantasia e ilusão.

Apesar da proposta ousada e que parte do bom princípio de colocar em contraposição esses dois momentos, a execução da ideia não é livre de tropeços. A direção de Danny Boyle (Steve Jobs) é satisfatória (destaque para a boa fotografia), mas ele pouco ousa e apenas em algumas ocasiões consegue criar cenas tão emblemáticas quanto as do primeiro. Mesmo com o ritmo mais lento, o primeiro ato da trama é ainda mais arrastado e com cenas desnecessárias, quando eles ainda estão separados. A história flui de forma mais agradável a partir do momento que a gangue vai se reunido e resolvendo suas diferenças. De forma semelhante, a trilha começa tímida, mas vai evoluindo e ganhando força no desenrolar do filme, ajudando bastante a criar este ambiente “trainspottingiano” – pena que não temos uma reutilização triunfal DAQUELA música.

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Sem o ineditismo e o tom do original, as atuações não impressionam e cativam como antes, mas o quarteto está bem. Ewan McGregor é menos exigido e, talvez por isso, esteja menos carismático, mas isso é compensado por uma exploração maior e melhor de Ewen Bremmer (que funciona como alívio cômico) e de Robert Carlyle, que abraça de forma mais clara o papel de antagonista, cumprindo-o muito bem. Uma pena que a participação de Kelly Macdonald, também presente no anterior, seja tão pequena, deixando uma ponta ainda aberta entre a relação dela com Renton.

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Penso que nunca foi a intenção de Trainspotting 2 ser tão bom quanto o primeiro – e seria injusto da nossa parte supor que ele tem esta obrigação. A continuação justifica sua existência e cumpre seu objetivo de amadurecer e desenvolver seus protagonistas, mesmo que isso ocorra por um caminho completamente diferente do anterior e, principalmente, estando bem longe de estragá-los. Como Renton já dizia há 20 anos, “Escolha a vida”. Escolha assistir a Trainspotting 2.

Nota: 7/ 10.

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