Adaptações

Por Matheus Araujo

As minhas discussões sobre adaptações começaram nos idos de 2005, quando assisti a Harry Potter e o Cálice de Fogo. Sai daquela sessão desolado, decretando-o como o pior da franquia. Aos dez anos, não conseguia conceber qualquer porquê capaz de justificar a mutilação do livro do qual resultara aquilo denominado roteiro adaptado. Creio que leitores tão apaixonados quanto eu fora, provavelmente, identificam-se com o sentimento. Felizmente, eu mudei.

Para melhor discutir e compreender a ciência da adaptação é fundamental saber distinguir as mídias nas quais a história é contada. Filmes, por mais flexíveis que possam ser, possuem limitação de tempo, algo que as séries conseguem controlar ao se estenderem em quantos episódios forem necessários. Séries, entretanto, em sua maioria possuem uma limitação de formato, especialmente as transmitidas em TV aberta. Livros, por outro lado, não possuem quaisquer das complicações citadas, além de serem capazes de nos aproximar com facilidade de seus personagens, literalmente adentrando seus pensamentos, embora dependam mais do leitor do que as narrativas audiovisuais do seu espectador. Em suma, todas as artes possuem dificuldades e virtudes particulares.

Pensadas as diferenças de cada mídia, passamos às questões: Do que é feita uma boa adaptação? Uma boa adaptação implica num bom filme? Quanto mais fiel, melhor?

Sou de opinião contrária a dos fanáticos que pregam a fidelidade acima de tudo, uma vez que, já sabemos, as mídias são diferentes. Não é possível transpor um livro completo para o cinema. É fato que as particularidades da literatura vão se perder. Em contrapartida, há muito o que se ganhar.

Voltemos ao cenário de J.K. Rowling para uma ilustração, quem sabe, um pouco controversa. Cinematograficamente, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban é o melhor filme da franquia. O mais importante, sem dúvidas. Reimagina o universo de Rowling e define a identidade da saga dali em diante. Quanto à fidelidade, todavia, é um dos menos próximos ao livro. É o preço pago por trabalhar com um cineasta de peso, que não foge da essência do enredo e dos personagens, mas sabe aproveitar os recursos da sétima arte. Afinal, acredito que nenhuma de suas interferências soe desnecessária ou destoe do sentimento do leitor ao adentrar ao Mundo Mágico na literatura. Pelo contrário, penso que a visão de Alfonso Cuarón muito acrescentou àquela história que é, indiscutivelmente, a com mais personalidade entre todas as adaptações de Harry Potter.

Outro gênero que fornece ótimas evidências dos impactos da fidelidade e dos desafios da boa adaptação são as histórias em quadrinhos de super-heróis. A trilogia do Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan é brilhante ao pensar as diferenças de cada formato, conservar o espírito dos quadrinhos e desdobrá-lo na nova mídia. Claro, nem todas suas incursões estão à prova de erros, mas justamente por não ter ligações afetivas com o material original – e, por tanto, descartar purismos -, o diretor pode retratar o personagem como cria do universo cinematográfico, inaugurando até um olhar mais maduro (“sombrio-realista”) sobre o Cruzado Encapuzado nas telas. Aliás, o objetivo de tornar o Batman crível e fascinante para o público do cinema é tão bem cumprido que o entendimento do personagem permite também o agrado da maioria esmagadora dos fãs do original, mesmo utilizando de relativamente poucas passagens diretas dos quadrinhos.

Por outro lado, um dos discípulos de Nolan nesta abordagem “adulta”, é conhecido justamente pelo contrário: utilizar do próprio quadrinho como roteiro. Ao prezar a fidelidade página-a-página, Zack Snyder destruiu a genialidade Watchmen. Filmar uma revista em quadrinho não é cinema. Especialmente a revista reconhecida por sua inovação, por seu olhar diferente, por sua preocupação em discutir o formato clássico dos heróis, trazendo estes para um contexto mais complexo, no qual as ações destes seres impactaram profundamente na organização e no destino da sociedade humana. O resultado disso é um longa-metragem mal estruturado, sem ritmo, sem impacto, desperdiçando uma verdadeira obra-prima. Lamentavelmente, a cabeça de Snyder nunca esteve voltada aos desafios de como levar um marco da arte sequencial às telas, tendo em vista as diferenças das mídias, do público, das épocas… No fim das contas, Snyder permitiu uma só pitada de cinema em Watchmen, optando pela infidelidade ao modificar o final da história. Neste lapso de inventividade, o diretor produziu, acidental e tragicamente, um desfecho mais interessante que o do próprio Alan Moore.

Tratadas as questões iniciais, gostaria de propor uma nova: Por que adaptar? Sem floreios, a primeira resposta que se forma em minha mente é dinheiro. As motivações podem ser variadas, como aumentar o alcance de uma história, contudo, a grande maioria das adaptações sempre é gerada da vontade de alguém levar algo que funcionou em uma mídia para outra, maximizando o potencial monetário daquela propriedade intelectual. Esta iniciativa implica numa triste obrigação a toda e qualquer obra: sucesso. As consequências do dever do lucro são nítidas no processo de adaptação, sendo a arte subordinada ao apelo comercial, algumas vezes corrompendo violentamente sua essência. Evidente que existem enredos naturalmente mais preparados para o mercado que outros. Circulam por anos, por exemplo, especulações de uma versão para o cinema do meu quadrinho favorito, Sandman. Por mais que esteja ambientada no universo DC, o quadrinho de Neil Gaiman raramente flerta com o estilo mais popular, divertido e repleto de ação dos trabalhos mais conhecidos da editora. Isto aliado à necessidade de uma produção magnânima para fazer justiça aos poderes oníricos do protagonista é a receita certa do mais improvável sucesso nas telas ou de uma adaptação despreocupada com o cerne da narrativa e disposta a metamorfoseá-la num produto de massa que não agradará a nenhum fã de Gaiman. Ironicamente, Sandman se torna uma adaptação dos pesadelos.

Gostaria de terminar, finalmente, com um conselho pessoal para a apreciação das próximas adaptações que vocês virem, especialmente aquelas muito queridas. Lembrem-se da importância de reconhecer as diferenças entre as mídias para melhor usufruir das particularidades de cada versão. É óbvio que nenhuma outra visão jamais poderá se comparar ao nível de proximidade que você adquiriu ao experimentar o original. Afinal, neste caso, você fez como mais lhe agradava, escalou os atores, produziu os cenários, dirigiu as cenas… A proposta é encarar o cinema de adaptação como uma discussão sobre a obra original, na qual você, que já está íntimo daquela história, pode agora percebê-la com olhos de um outro leitor.

A recomendação final para quem deseja se aprofundar no tema é o filme de Spike Jonze, Adaptação. O longa é assinado por Charlie Kaufman, um roteirista reconhecido por sua criatividade sendo obrigado a trabalhar com a narrativa de outra pessoa. A tarefa se tornou tão inconcebível que, ao invés de proceder como um roteirista normalmente faria, Kaufman escreveu sobre a sua crise criativa ao tentar fazê-lo. No entanto, o filme não é um exercício de egocentrismo, mas uma conversa interessantíssima com seu material de origem. Uma abordagem brilhante, que além de celebrar os temas do livro, as ideias de sua autora e o processo criativo da mesma, tem este valor metalinguístico. No mais, louvo a metáfora traçada com a sobrevivência do mais adaptado da teoria evolutiva de Darwin; a presença de uma planta da qual se extrai uma substância que fascina o usuário por tudo – o sonho de qualquer contador de histórias; e os dizeres de Kaufman quanto ao objetivo do escritor e o seu dever em fazer algo novo, ainda que uma adaptação. “Escrever é sobre explorar o desconhecido”.

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