A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

“Em uma trama de autodescoberta, adaptação de mangá destaca que futuro ‘cyberpunk’ está cada vez mais próximo da nossa realidade”

Por Luís Gustavo Fonseca

Ghost in the Shell é um mangá escrito pelo autor japonês Masamune Shirow, publicado em 1989. A história se passa em 2029 e apresenta um futuro altamente tecnológico, dominado pelas grandes corporações. Neste universo cyberpunk, onde os humanos e a tecnologia estão bastante intrincados (a ponto dos seres humanos poderem acessar extensas redes de informações com seu cyber-cérebros), a fonte para de poder reside no controle de informações e de dados.

Ao longo dos últimos 28 anos, o mangá já inspirou vários animes (o primeiro filme foi lançado em 1995) e, agora, ganha uma versão hollywoodiana. Na trama, a agente Major Motoko Kusanagi (Scarlett Johansson) é a líder da Seção 9, uma unidade de serviço secreto especial do governo japonês, responsável por combater o ciberterrorismo no país. Major passou por tantas mudanças que quase todo seu corpo é robótico, restando, de humano, apenas o seu cérebro. A nova investigação da Seção 9, contudo, fará com que Major questione o que é – ou não é – ser humana, num enredo de autodescoberta.

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A produção americana tem altos e baixos. A direção de Rupert Sander (Branca de Neve e o Caçador), por exemplo, peca na ação, com cortes muito rápidos e um posicionamento de câmera que prejudica a percepção do espectador do que está acontecendo, sobretudo nos duelos de corpo-a-corpo (felizmente, em planos mais abertos, isso não acontece). Tais cenas tinham o potencial de serem bem mais empolgantes e emblemáticas, já que existe uma preocupação em fazer merecidas referências a cenas do anime de 95.

Em contrapartida, o visual da obra está impecável, sendo o seu ponto mais alto. Os grandiosos hologramas que enfeitam os arranhas céus da cidade japonesa, aliados aos figurinos vestidos por humanos e robôs e o visual dos automóveis, evidenciam o esmero e a competência da direção de arte. Apesar da grande quantidade de cenas à noite ou ambientes escuros, o 3D não chega a comprometê-las e até mesmo acrescenta algo positivo a experiência.

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O cuidado com este quesito é responsável por criar uma ótima ambientação e identidade para aquele universo, que contém ares de Blade Runner, e isso consegue trazer o espectador para dentro deste mundo. Outro fator que colabora muito para isso é a boa trilha composta pela dupla Clint Mansell (Lunar, Noé) e Lorne Balfe (LEGO Batman). É um trabalho que emula a atmosfera cyberpunk, mas que não exagera na imitação do que há no anime.

Ao contrário do mangá/anime, a produção americana dá um maior enfoque na nos traumas do passado de Major e em seus conflitos internos. Considero que essa exploração é válida e honesta, procurando dar uma nova nuance a protagonista e sendo uma estratégia para se diferenciar do material original. O tom mais sério e sóbrio se assemelha ao do anime mas, particularmente, aprecio mais o humor e a leveza que o mangá apresenta, sobretudo pelos seus desenhos mais engraçadinhos. O ritmo não é o ideal, já que o miolo do filme perde fôlego e se arrasta – para uma história que não tem nem 1h50, isso acaba pesando.

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Infelizmente, essa alteração de foco fez com que houvessem sacrifícios de algumas das melhores subtramas e discussões presentes nas obras nipônicas, além de não explorar melhor o restante da equipe da Seção 9 (algo que mesmo o anime não faz). O grande debate sobre “o que é a vida?” e o que significa isso em um mundo onde é cada vez mais difícil a  dissociação entre o orgânico e máquina, presente no clímax do mangá, é algo que se dilui na produção e, consequentemente, a discussão perde sua força.

O longa recebeu duras críticas por colocar Scarlett Johansson no papel principal, fazendo um whitewashing ao colocar uma mulher branca no papel de uma asiática. Não me parece que a decisão e a polêmica relacionada afetou o trabalho da atriz, mas é um trabalho longe de figurar entre os seus mais memoráveis. Muito de sua atuação parece estar no “automático”, sem inspiração, sendo que seu melhor momento reside nas cenas em que está mais inexpressiva (o que, para alguém que é quase completamente um robô, é um ponto importante). Por não serem muito explorados, não há grandes destaques entre as atuações de personagens secundários, como é o caso do fiel companheiro de Major, Batou (Pilou Asbæk) e do chefe da Seção 9, Aramaki (Takeshi Kitano). Valorizo, entretanto, o fato do último só falar em japonês no filme.

GHOST IN THE SHELL

Se, em 1989, parecia ser muito fantasioso e ousada a ideia de Shirow sobre como aconteceria a relação entre homem e máquina, A Vigilante do Amanhã serve de lembrete de que esse futuro (e as discussões que ele implica) são cada vez mais parte de nosso presente. Mesmo sem estar no mesmo patamar do mangá e do anime, o longa presta uma justa homenagem a história de Motoko e, principalmente, serve de porta de entrada para que novas pessoas possam conhecer essa excelente trama.

Nota: 7/ 10.

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