Guardiões da Galáxia Vol.2

“Amadurecimento de personagens é o grande trunfo da nova produção do grupo de ‘a-holes’”

Por Luís Gustavo Fonseca

Em 2014, Guardiões da Galáxia foi a grande surpresa da indústria cinematográfica. Eles dominaram o verão americano (foi o filme mais visto por lá no período) e também conquistaram a empatia de fãs pelo mundo inteiro, totalizando uma bilheteria mundial de US$ 773 milhões. O grupo, até então desconhecido, teve um resultado financeiro superior a heróis bem mais populares, como Homem-Aranha, X-men e Capitão América. As músicas dos anos 70 e 80, a galhofa assumida, a vibe mais leve combinada com um humor certeiro e personagens carismáticos foram alguns dos fatores responsáveis pela instantânea aceitação da equipe pelo grande público.

Mas se no primeiro os espectadores não sabiam muito o que esperar de uma produção que teria um guaxinim e um árvore falante como protagonistas, o segundo, que chega às telonas dois anos e meio depois, vem com a expectativa de entregar um resultado que esteja no mesmo nível. A trama se passa apenas alguns meses após os acontecimentos do primeiro filme, com a equipe cometendo coisas boas, assim como algumas ruins – mantendo a promessa do longa anterior. Enquanto ainda estão se ajustando à nova vida, a chegada de Ego (Kurt Russell), o pai de Peter Quill, sacode a vida de todos e altera a dinâmica entre eles.

guardians-of-the-galaxy-vol-2-trailer-breakdown-69

O maior acerto do filme reside no roteiro escrito por James Gunn, que, agora, pode se dedicar ao desenvolvimento dos personagens, já que não precisa apresentá-los. O foco da história é o desenvolvimento das relações dentro do grupo, o que, consequentemente, proporciona um aprofundamento de seus integrantes, deixando-os mais complexos. A temática de família é o que conduz o enredo, sendo que ela é trabalhada de diferentes maneiras na obra, por meio de diversos sub núcleos. Todos eles, felizmente, recebem o tempo necessário de tela para poderem ser bem desenvolvidos, o que contribui para aumentar carga a emocional da trama.

Até penso que, em sua primeira hora, o ritmo se atrapalha um pouco e os diversos núcleos ficam um tanto desconexos. No entanto, a partir do momento em que a obra dá uma engatada, ela não perde mais fôlego e rende uma segunda metade muito bem executada, com uma excelente curva dramática que engrandece o desfecho da história. Outro fator que colabora para essa melhora na parte final é a grande virada do longa, que é capaz de proporcionar um vilão de personalidade e marcante – bem diferente de vários esquecíveis que já passaram pelo Universo Cinematográfico da Marvel (UCM).

ece0310-trl-v3101101-1486345368484_1280w

Entre as relações, o encontro de Peter com seu pai é a principal da trama. Os dois são completos estranhos um para o outro e, apesar da aproximação desejada, eles devem lidar com a ausência de Ego durante a vida de Quill e o porquê dele ter abandonado a mãe do Senhor das Estrelas (o bom é que a química entre Chris Pratt e Kurt Russell funciona). Aliás, antes que eu me esqueça: Russell caiu como uma luva na produção. A sua atuação vai se soltando no desenrolar da história e sua interpretação vai ficando cada vez agradável de se ver, uma das melhores do filme.

O encontro também serve para trabalhar a relação de Quill e seu “pai” adotivo, Yondu (Michael Rooker), alguém que sempre o ameaçou mas, ao mesmo tempo, o protegeu e serviu como referência para Peter, o que criou um vínculo forte entre ambos. É neste momento que vemos um outro lado de Yondu, mais humano, o que colabora para deixar ainda melhor a interpretação de Rooker, que aqui tem mais tempo para mostrar o seu talento.

guardians-of-the-galaxy-vol-2-trailer-breakdown-70

Inclusive, por meio do trabalho dessas relações, a obra explora melhor o potencial de atuação do elenco, uma vez que a química entre os atores funciona e há de boas atuações para cima. Dois bons exemplos vem das duplas Drax (Dave Bautista) e da novata Mantis (Pom Klementieff) e das irmãs Gamora (Zoe Saldana) e Nebulosa (Karen Gillian, incrivelmente mais bem aproveitada nesta continuação). A primeira se destaca pela combinação do tom divertido que o grandalhão Drax tem com a inocente Mantis, tornando os dois um dos grandes responsáveis pelo humor do longa. O roteiro também explora melhor a complicada rivalidade entre as irmãs, o que dá maiores nuances a cada uma delas, ao mesmo tempo em que essa relação vai se modificando no decorrer da história.

Se Baby Groot (dublado por Vin Diesel) é o responsável pelo humor da produção – funcionando muito bem em todas as suas aparições -, o texto prova sua versatilidade entre o humor e esta nova faceta, de amadurecimento, com o Rocket Racoon (dublado por Bradley Cooper). O guaxinim não apenas continua tirando sarro de todos, mas revela um outro lado de sua personalidade, mais dramático, sendo que sua interação com Yondu é essencial para que esse lado possa ser percebido.

screen20shot202016-10-1920at201-14-0720pm

James Gunn também dirige o longa, e ele mais acerta do que erra. Visualmente, a obra é um espetáculo, uma vez que a produção foi filmada com qualidade de imagem 4K e a melhor resolução pode ser sentida na tela pela paleta de cores quentes da fotografia, recheada de cores vívidas. Além do figurino acertado dos personagens e dos ótimos efeitos especiais, vale destacar que até mesmo o 3D funciona, proporcionando profundidade aos objetos em cena e (graças aos céus) não atrapalhando a fotografia. Acho que Gunn peca somente na ação, que apesar de satisfatória, não ousa ir além de algo mais genérico e pouco arriscado. O maior deslize fica com uma das cenas de batalha espacial, em que os cortes rápidos dificultam entender o que está acontecendo na tela.

Uma última grande expectativa era em relação à trilha, já que isso foi um dos aspectos mais queridos do antecessor pelo público. A nova composição conta com outras músicas icônicas dos anos 70 e 80, como My Sweet Lord, Surrender e Fox on the Run, e o uso delas como parte da narrativa também é feito de forma mais aprimorada agora – apesar de que, penso, as músicas do anterior são mais fáceis de ficarem na cabeça. A parte instrumental feita por Tyler Bates (John Wick – Um Novo Dia para Morrer) é carregada de um tom emocional e aventuresco e tem a mesma qualidade de antes, mostrando que a trilha também funciona quando não estão tocando as músicas.

jsc3020-cmp-v3781007-jsc3050-cmp-v2631009-comp-r-1486345142271_1280w
Interação entre esses dois funciona muito bem.

Guardiões da Galáxia Vol.2 cumpre seu objetivo de amadurecer seus protagonistas e prepará-los para os desafios do futuro, pois a equipe irá se encontrar, no próximo ano, com a turma d’Os Vingadores em Guerra Infinita. Mesmo tendo um caráter mais episódico, a produção consegue expandir o universo cósmico da Marvel por meio de diversas referências, easter-eggs e aparições de personagens que podem ser reaproveitadas no futuro. Tudo isso sem se relacionar com o núcleo de Thanos e das Joias do Infinito, o que prova que ainda tem muito a ser explorado no UCM. Para nossa sorte, os Guardiões da Galáxia estarão lá para desbravar tudo isso. Ao som de muita música antiga, é claro.

Nota: 8,5/ 10.

P.S.: Segura o xixi e não perca a atenção olhando o celular, porque o filme não tem uma nem duas cenas pós-créditos, mas >cinco<.

Anúncios

Um comentário sobre “Guardiões da Galáxia Vol.2

O que você acha sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s