Alien: Covenant

“Riddley Scott decepciona no retorno a franquia que o consagrou”

Por Luís Gustavo Fonseca

Há cerca de dois anos, tive a oportunidade de assistir, pela primeira vez, ao Alien de 1979, em uma mostra gratuita de filmes antigos aqui de Belo Horizonte. Sei que é chover no molhado falar como ele é um filmaço, mas poder contemplar este clássico do terror sci-fi na telona foi uma das experiências cinematográficas mais gratificantes que já tive. A produção é uma daquelas que dá gosto de assistir no cinema, uma vez que toda sua ambientação claustrofóbica e desesperadora é reforçada pela escuridão da sala, a ponto de você imaginar que a criatura está à espreita no teto ou debaixo de sua cadeira. Mesmo não gostando do gênero de terror (porque sou um medrosão), é o filme do Riddley Scott que mais gosto e acho que é onde ele mostra suas melhores características.

Talvez justamente por ser uma obra-prima, criou-se muita expectativa para o retorno de Scott a franquia, quase 40 anos depois. Tudo bem, na verdade ele retornou a esse universo com o controverso Prometheus, mas era uma retomada bem tímida – poxa, o alien mesmo só aparece na cena final e, convenhamos, é bem gratuito. Desta vez, é algo mais escancarado: a trama se passa dez anos depois dos acontecimentos de Prometheus, e acompanhamos a tripulação da espaçonave Covenant, que está em uma missão colonizadora. Durante a viagem, contudo, eles recebem um misterioso sinal de um planeta desconhecido e aparentemente habitável, que encurtaria bastante a viagem. A tripulação decide investigar a origem do sinal, levando-os a um ambiente misterioso, inóspito e, secretamente, hostil.

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Prepare-se para ver um pouco de gore no longa

O sentimento deste esperado retorno é da mais clara frustração. Até penso que Scott trabalha bem algumas de suas conhecidas características, como um design de produção das naves e cenários muito bem elaborados, além de algumas tomadas mais abertas que dão a ideia de quão pequenos os humanos são comparados a grandiosidade do desconhecido. A fotografia, desprovida de cores mais fortes, também reforça essa sensação, ao mesmo tempo que ajuda na criação de um clima mais assustador que, raras as vezes, trabalha a ambientação claustrofóbica que fez o original ser o que é. Nesse sentido, a trilha de Jed Kurzel (Macbeth: Ambição e Guerra, Asassin’s Creed) ajuda muito, conseguindo recuperar a atmosfera das trilhas originais, reforçando um tom intimidador e, por vezes, fascinante, em relação aos acontecimentos que ocorrem em tela.

Mas termina por aí. O diretor não utiliza o monstro com a mesma maestria do longa de 79, não sabendo como e quando mostrar – e não mostrar – o xenomorfo (aspecto que até mesmo o menos audacioso Vida faz melhor do que aqui). Além disso, quando a criatura está em tela, há um certo estranhamento, já que seu visual não parece tão orgânico como foi há décadas atrás, mesmo que a tecnologia para efeitos especiais seja melhor atualmente. Para piorar isso, as cenas de ação são bem confusas e dificultam o entendimento do que está acontecendo em tela, algo que, por exemplo, o Aliens, dirigido por James Cameron, faz muito bem.

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O roteiro é outra característica fraquíssima da produção. O desenvolvimento dos principais personagens, assim como a relação entre eles, é nulo, com o texto pecando para criar o mínimo de carisma necessário para que haja alguma empatia com a tripulação. Você simplesmente não se importa com o destino deles, já que eles são pobremente apresentados e são os mais genéricos possíveis, não tendo nenhuma característica que salte os olhos, resultando na não reação do espectador à medida que as mortes vão ocorrendo. Adicione a isso o fato de os personagens tomarem decisões pouco cautelosas (para não dizer estúpidas), como o clássico “se separar do grupo em um ambiente hostil”, e é capaz que você até fique feliz com a morte deles.

E o que mais me irrita no roteiro nem é isso, já que eu esperava que a maioria dos personagens seriam descartáveis e esquecíveis. É que toda aquela questão tratada no Prometheus (que eu acho um filme razoável), dos Engenheiros e do motivo que os levaram a construir os humanos, é totalmente chutada para escanteio. A trama opta por apresentar e desenvolver um novo caminho – que apesar de intrigante, não é tão chamativo quanto o outro – e a escolha leva a um final previsível. A decisão acaba não só desmerecendo o longa anterior, como desperdiça muito o potencial deste.

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Com personagens tão mal desenvolvidos, é claro que as atuações também não teriam nenhum destaque. Entre os novatos, os trabalhos que mais se salvam são de Danny McBride (que talvez seja o único que tenha um elo emocional que você compra) e Katherine Waterston, que assim como a Ripley e a personagem da Noomi Rapace em Prometheus, parece ser a única pessoa sensata da tripulação, mas ela ainda está bem aquém das duas. Michael Fassbender também merece ser citado, já que além de viver um novo androide, ele retorna a pele sintética de David, e a contraposição das duas personalidades acrescenta ao resultado final.

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A deixa para uma sequência (que Scott já pretende filmar no próximo ano) não poderia ser mais clara, mas após a decepção de Convenant, é difícil se empolgar com a continuação da trama. Acho que até mesmo uma troca de diretores poderia ser benéfica, apesar de que outro dia, confirmaram que o projeto de longa planejado pelo Neil Blomkamp morreu de vez. Em sua busca em explicar e expandir o universo de Alien, Riddley Scott mostra que está cada vez mais à deriva em sua jornada espacial.

Nota: 4,5/ 10.

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3 comentários sobre “Alien: Covenant

  1. Ainda não assisti Alien covenant, mas é uma pena que não tenha agradado. Já Prometheus pra mim foi uma grata surpresa, teve uns lances bem interessantes.

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