Rei Arthur: A Lenda da Espada

“Épico de Guy Ritchie é marcado por falta de identidade e de propósito”

Por Luís Gustavo Fonseca

O Rei Arthur é uma das figuras mais icônicas do folclore inglês e, por que não, europeu. Ele, assim como toda uma mitologia que o cerca – que inclui a espada Excalibur, a Távola Redonda e o Cálice Sagrado, por exemplo –  são uma parte intrínseca  da história de Grã-Bretanha. A lenda ganhou popularidade e força com o passar do tempo, sendo recontada a cada nova mídia que surgia, como em livros, filmes, animações e quadrinhos.

Esse talvez seja um dos maiores desafios que Rei Arthur: A Lenda da Espada tem que enfrentar: retornar ao conto com uma abordagem diferente. Nesta versão, o rei de Camelot, Uther (Eric Bana), é traído por seu irmão, Vortigern (Jude Law). Antes de morrer, ele consegue impedir que seu filho Arthur (Charlie Hunnam) seja morto, enviando-o num barco rio abaixo para longe da ameaça do tio. Uther ainda  profetiza que Arthur um dia irá recuperar Excalibur e, assim, retomar seu trono por direito.

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O que mais me chamava a atenção na produção era a direção de Guy Ritchie (Agente da U.N.C.L.E), conhecido pelo seus filmes de máfia inglesa como Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Snatch: Porcos e Diamantes. A ideia de Ritchie era abraçar um abordagem mais fantasiosa e épica da história de Arthur, indo na direção contrária, por exemplo, do Robin Hood de 2010 feito por Ridley Scott, que tinha um tom mais pé no chão e realista em relação a origem do famoso ladrão arqueiro.

Infelizmente, uma combinação com tamanho potencial falha em atingir seus objetivos. Ao longo de suas duas horas, Rei Arthur não consegue ter uma identidade própria – pior, não consegue trazer a assinatura de Ritchie para a obra. Salvo, talvez, em duas (curtas) sequências, o longa é desprovido das características do diretor. Alguns exemplos: a edição, que muitas vezes quebra a linearidade da narrativa para narrar um acontecimento por diversos pontos de vista; a falta do típico (e estranho, mas engraçado) humor inglês, que ajuda a tornar a jornada mais leve e, aliada a edição, consegue sustentar o ritmo do filme. Também pode-se citas as cenas com lutas corpo-a-corpo, com suas aceleradas e desaceleradas constantes, que causam um efeito estético curioso e que funciona.

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Outra característica deixada de lado é a utilização de um MacGuffin (recurso narrativo em que as personagens ficam boa parte da trama atrás de objeto desejado), que neste caso poderia ser a Excalibur. A busca pelo MacGuffin é o que faz os filmes de Ritchie funcionarem, andarem para frente, serem engraçados e contarem, muitas vezes, com viradas geniais em seus desfechos. Ao se retirar tudo isso, a obra acaba não tendo a cara do inglês, mas sim de algo genérico, feito por produtores que não sabem exatamente onde querem chegar. Isso me surpreende pelo fato de Ritchie não estar desfamiarilizado com produções blockbusters deste tamanho, uma vez que os Sherlock Holmes estrelado por Robert Downey Jr. e o próprio Jude Law têm o comando dele, com um resultado significamente superior.

Mesmo com algumas boas ideias, a execução do roteiro apresenta o mesmo nível fraco da direção, não se arriscando em criar algo marcante. A fantasia do longa – com seus magos, animais gigantes e uma espada poderosa – é bem vinda, mas é pouca explorada. O fato de Arthur ser criado nas ruas do que, futuramente, viria a se tornar Londres, é uma ótima sacada, dando um caráter mais urbano e malandro ao personagem, tornando-o mais carismático. Entretanto, isso não consegue salvar o longa. A relutância de Arthur em aceitar a espada e superar seu trauma de criança chega a ser irritante, impedindo o desenvolvimento do personagem. O clichê da  rixa familiar pelo poder nem é um problema em si, mas o descuido em criar um protagonista e um antagonista mais sólidos, com melhores personalidades e motivações, ajuda a tornar tudo ainda mais desinteressante. Algo que não se resume a eles, mas também aos aliados de Arthur.

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Não tendo uma sustentação no roteiro, as atuações também são prejudicadas. Até acho que Charlie Hunnam consegue deixar a figura heróica mais humana e acessível, num trabalho razoável, mas é só. Jude Law acaba desperdiçado e interpreta um vilão de pouquíssima presença. Outros nomes como Djimon Hounsou, Astrid Bergès-Frisbey e Aidan Gillen também não apresentam personagens memoráveis. Os efeitos especiais valem a pena e ajudam a criar o mínimo de ambientação para a história, mas o 3D não justifica seu uso e só ajuda a escurecer o longa. Daniel Pemberton tinha mandado muito bem na trilha de Agente da U.N.C.L.E, mas, aqui, ele acompanha a consistência da produção e faz um trabalho que raramente se destaca.

Guy Ritchie é um excelente diretor que não merecia um fracasso desse nas costas. A produção já estreou em vários mercados, incluindo o norte-americano, mas o desempenho na bilheteria foi pífio e tende a piorar. Estima-se que a Warner Bros. possa perder até US$150 milhões com o longa, e isso pode prejudicar o futuro do inglês, que, por enquanto, é o responsável pela adaptação live-action de Aladdin. O melhor caminho para se recuperar, talvez, seja Ritchie retornar ao seus filmes menores, na qual ele tenha maior liberdade. Todos agradeceríamos.

Nota: 4/ 10.

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