Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar

“Novo capítulo da franquia apresenta avanços em relação ao anterior, mas ainda está aquém do que poderia ser”

Por Luís Gustavo Fonseca

Piratas do Caribe é uma das mais emblemáticas franquias cinematográficas deste século. Os quatro filmes da série já arrecadaram US$ 3,7 bilhões ao redor do globo, cultivando milhares de fãs e reinventando a figura do pirata na cultura pop. Quatorze anos após o lançamento de A Maldição do Pérola Negra, chega aos cinemas o quinto capítulo das aventuras do Capitão Jack Sparrow.

Na nova trama, Jack (Johnny Depp) encontra-se em um estado totalmente decadente: sem navio, sem tripulação e bem longe da glória de outrora. E a sorte sorri ainda menos para o protagonista, uma vez que um antigo rival, o Capitão Salazar (Javier Bardem) consegue se libertar de sua prisão no Triângulo das Bermudas e, com ajuda de sua tripulação fantasma, tem um objetivo específico: matar todos os piratas que encontram-se no mar – especialmente Sparrow. A única saída para que Jack se salve da ameaça é encontrar o mítico Tridente de Poseidon, um artefato que permite àquele que o comanda o controle dos mares. Além de velhos conhecidos, como o Capitão Barbossa (Geoffrey Rush), juntam-se a ele na aventura o filho de Will Turner, Henry (Brenton Thwaites), que deseja usar o Tridente para libertar o pai da maldição do Holandês Voador, e a jovem astróloga Carina Smith (Kaya Scodelario), que quer achar o artefato com a ajuda do diário deixado pelo pai.

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Vida não está fácil para Jack *toca música triste*

A Vingança de Salazar está mais perto do nível de Navegando por Águas Misteriosas do que para os longas da trilogia original, e tenho hipóteses para o porquê disso ocorrer. O primeiro é a ausência da dupla Will e Elizabeth (Keira Knightley) no decorrer da trama. Eles até têm participações relâmpagos nessa história, mas a química que existia entre os dois e Jack e que ajudava – e muito! – a ditar o ritmo e a desenrolar a trama nos primeiros filmes está, mais uma vez, ausente. Cada um dos três tinha um arco e um desenvolvimento próprio, e as interações entre eles permitia que camadas fossem adicionadas e faziam com que o espectador se importa mais com eles.

Hoje, é capaz que o público ache menos graça e/ou se canse mais rápido das piadinhas ditas por Jack não apenas por ser sua quinta aparição, ou por o Johnny Depp ter passado a última década vivendo personagens muito semelhantes ao pirata, ou ainda pelo fato do ator ter caído em descrédito após as acusações de ter agredido a ex-esposa Amber Heard, mas sim porque não há Will e Elizabeth para reagir as suas piadas e tiradas. Com isso, o humor da história, que antes era um de seus principais pilares, dá a impressão de ser menos brilhante e mais forçado. Sobra apenas o Barbossa para servir de “escadinha” para Sparrow, mas os dois últimos filmes levaram o outro capitão do Pérola Negra para um caminho que diminui bastante as interações dele com Jack.

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A ausência de Will e Elizabeth leva ao segundo problema: a tentativa de repô-los, mas mantendo os mesmos arquétipos, ao invés de apresentar novos personagens com pegadas e estilos totalmente diferentes. O resultado? Algo genérico, pouco inspirador. O envolvimento amoroso entre Henry e Carina, por exemplo, não foge nem um pouco de ser clichê, não dando a série a revigorada que ela precisa – mas, ao menos, o romance irrita menos que o do padre e da sereia no quarto longa.

A Vingança de Salazar tenta repetir temáticas que deram certo no passado, como a de relação entre e pai e filho, mas não há o mesmo brio dos três primeiros. Outras velhas características também não são feitas com o mesmo esmero, como o grande tom aventuresco, que não tem o mesmo impacto de antes, ou o fato de haver três lados disputando um mesmo objetivo (que possibilita um incessante ciclo de alianças e traições). Ao menos, acho que o roteiro acerta (nem que seja um pouco) no trabalho com Carina, que tem maior personalidade que a personagem de Penelope Cruz, e também com a personalidade de Salazar, bem melhor que o Barba Negra do anterior. Há ainda uma exploração bacana sobre o background de Jack e de Barbossa, que ajuda a tornar os personagens mais humanos.

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Em relação ao visual, a franquia nunca deixou a desejar. Caracterização do Capitão Salazar está ótima.

Um terceiro fator é a ausência, novamente, de Gore Verbinski na direção. Verbinski pode não ser o melhor do diretor do mundo, mas o tom que ele deu a franquia é certeiro. As cenas de ação – principalmente os combates navais –  funcionavam de forma espetacular e saltavam aos olhos, os duelos corpo-a-corpo envolvendo espadas eram empolgantes e bem coreografados e a combinação do tom despretensioso e de aventura era na medida certa. Aqui, quem comanda a obra é a dupla Joachim Rønning e Espen Sandberg (Expedição Kon Tiki), que entregam um resultado melhor que Rob Marshall no último, mas ainda aquém do que a franquia pode ser. Não há no clímax, por exemplo, o mesmo nível de tensão e grandiosidade dos primeiros, uma vez que a ação poderia ser melhor executada – mas valorizo a sequência do roubo do banco a lá Velozes & Furiosos 5, que facilmente entraria para a lista de melhores momentos da série. Outro acerto dos diretores é que, quando o 3D não atrapalha, a fotografia do filme se mostra acertada, com a existência de takes bem bonitos.

Seguindo o nível geral da produção, não há muito o que dizer quanto às atuações. Os novos rostos não me passaram nada marcante, enquanto eu (ainda) não me cansei do personagem Jack Sparrow, mas é verdade que cada revisitada de Depp ao papel parece um tanto menos inspiradora que a outra. Acho um desperdício o caminho que optaram levar o Barbossa de Geoffrey Rush, mas a atuação dele ainda me parece honesta e bem feita. Esperava um pouco mais de Javier Bardem (principalmente porque esperava vê-lo no nível de vilão que ele estava em 007 – Skyfall), mas dentro do que a história permitiu, o seu trabalho é satisfatório.

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Uma coisa que valorizo é como, a cada novo filme, aparece um novo navio dotado de uma habilidade especial diferente.

Finalmente, pelo menos a obra acerta em cheio em quesitos como efeitos visuais (apesar do formato 3D ser totalmente dispensável), maquiagem e figurino e trilha sonora, aspectos que se mantiveram em boa qualidade ao longo de todos os filmes. A Vingança de Salazar consegue recuperar um pouco do fôlego que havia sido perdido por Águas Misteriosas, expandindo mais a mitologia e a história de seus principais personagens. Uma sequência (lembre-se que vivemos num mundo em que teremos mais dois Velozes & Furiosos, incontáveis Transformers e mais dois prequels de Alien) é provável, já que a franquia ainda conta com uma grande legião de fãs. E quer saber? Eu topo velejar com essa trupe mais uma vez. Mas, por favor, tragam Will, Elizabeth e Verbinski de volta!

Nota: 5,5/10.

P.S.: Não se esqueça que, assim como os demais filmes, há uma cena pós créditos!

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2 comentários sobre “Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar

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