Mulher-Maravilha

“Com história inspiradora e bem executada, super heroína salva o universo DC dos cinemas até o momento”

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Ao longo dos últimos 17 anos, desde que o primeiro X-men se tornou um sucesso de bilheteria, o gênero de super-heróis foi ganhando cada vez mais espaço e consolidou-se como um dos principais dentro de Hollywood, principalmente pelo enorme retorno financeiro que esses filmes proporcionam. Tivemos adaptações de heróis icônicos como Batman, Homem-Aranha e Superman até personagens mais desconhecidos, como Guardiões da Galáxia e Homem-Formiga. Foram tantas obras ao longo desse período – e a tendência é que haja cada vez mais nos anos seguintes -, que já se especula a existência de uma fadiga, por parte do público, com esse tipo de produção.

Entretanto, algo que foi imutável durante esse tempo, é que os filmes sempre foram sobre heróis, mas nunca sobre heroínas. Apesar de personagens como a Viúva Negra, Mística e a Gamora terem alcançado um novo nível de popularidade, elas sempre foram coadjuvantes de enredos protagonizados por homens. A maior super heroína de todos os tempos, a Mulher Maravilha, ao longo de sua sete décadas de existência, só foi adaptada para o meio audiovisual em live action na década de 70, com a série de TV estrelada por Lynda Carter. Quando o assunto era adaptações para o cinema, ela sempre bateu na trave, com vários projetos que não foram para a frente. Em contrapartida, já tivemos três encarnações do Homem-Aranha nos últimos 15 anos.

(Apenas dê o play!)

Felizmente, graças aos deuses e deusas do Olimpo, chegou a hora da Princesa de  Themyscira conquistar o mundo. Depois de ter roubado a cena em Batman v Superman: A Origem da Justiça, sendo a melhor coisa do longa, Diana Prince agora tem um filme para chamar de seu. Treinada desde a infância  para se tornar a melhor das guerreiras amazonas, Diana (Gal Gadot) passou a vida toda sem sair da ilha de Themyscira e conhecer o mundo exterior. Sendo super protegida pela mãe, a rainha Hipólita (Connie Nelsen), ela ainda não sabia qual era o seu real papel na sociedade das amazonas. A vida das moradoras da ilha paradisíaca é alterada quando o piloto britânico Steve Trevor (Chris Pine) cai em um acidente de avião na praia local, sendo perseguido por tropas germânicas. Quando Diana descobre que uma guerra sem precedentes está se espalhando pelo mundo, ela decide acompanhar Trevor ao mundo dos homens, determinada a por fim ao conflito que encerrará todos os outros conflitos. A jornada fará com que a princesa entenda qual é a sua missão na Terra e a dimensão de seus poderes.

A responsabilidade de adaptar a super heroína e quebrar este tabu ficou a cargo da diretora Petty Jenkins, que acumulou trabalhos na TV em séries como Arrested Development e The Killing e que, no cinema, tinha dirigido apenas Monster: Desejo Assassino. E nem parece que a diretora sentiu o peso da árdua tarefa, já que ela toma a sábia decisão de apostar em uma história mais simples, a clássica trama de origem, porém bem contada e executada. De seu trabalho, destaco o esmero dado a fotografia, que apresenta cores bem mais vívidas do que em outras produções do estúdio, e que ainda cria um ótimo contraste entre a ilha das amazonas, apresentada com uma paleta de cores mais quentes, e o mundo dos homens, tomado por um tom mais acinzentado e melancólico, seja em Londres ou no front da guerra. O melhor exemplo dessa diferenciação ocorre quando Diana usa seu uniforme no meio do conflito, com as cores do traje destacando-se bem no meio da paisagem de destruição que a cerca.

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Se, por um lado, acho que a diretora comete alguns deslizes nas cenas de ação em que a câmara fica muito próxima aos combates corpo-a-corpo, com cortes rápidos que atrapalham o entendimento do que está acontecendo, Petty Jenkins acerta em cheio nas lutas filmadas em planos mais abertos, onde fica mais evidente as habilidades da personagem. O melhor exemplo deste aspecto são as cenas em que ela usa o Laço da Verdade para derrubar os seus inimigos, apresentando uma dinâmica de luta que não havia sido explorada por nenhum outro longa do gênero até agora.

O roteiro da obra também merece elogios. A produção não sofre com uma edição bizarra (ao contrário dos filmes da DC do último ano), com o enredo tendo paciência para estabelecer a mitologia por trás da criação das amazonas e da ilha de Themyscira, assim como o grande inimigo que um dia elas devem enfrentar: Ares, o Deus da Guerra. O ritmo e o desenvolvimento do longa são agradáveis e lembram um pouco o primeiro Capitão América, apesar de, aqui, o tom ser mais sério (sem abrir mão de um lado mais leve, bem distribuído no decorrer da história) e, principalmente, mais inspirador. O arco dramático da Diana é bem construído e explorado, com suas motivações e índole sendo bem apresentadas, o que ajuda muito a criar um vínculo emocional com a personagem. Obviamente, a Mulher-Maravilha é uma representante imensurável do público feminino, e acaba se relacionando mais com elas. Entretanto, o enredo acerta ao propor uma caracterização que consegue ser universal, que serve de exemplo para homens e mulheres.

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Outro acerto do texto são os questionamentos que Diana faz acerca dos costumes da sociedade moderna e patriarcal. Esse quesito é bem elaborado, pois expõe os absurdos da época – como o fato das mulheres não poderem votar ou frequentar certos lugares, além de terem que seguir regras estritas sobre como se vestir e portar – por meio de uma certa “ingenuidade” da personagem, já que para ela, não há diferença entre gêneros e o que eles podem (ou não podem) fazer. A medida que ela conhece mais dessa sociedade, a sua decepção com a mesma aumenta, o que a leva a questionar se o mundo, de fato, merece a sua ajuda.

Contudo, o roteiro também peca em alguns pontos.O trabalho com vilões, focados nas figuras do general alemão Ludenhorff (Danny Huston) e da desfigurada Dra. Maru (Elena Anaya) é um tanto genérico, com eles acabando não oferecendo o contrapeso ideal que a Mulher-Maravilha precisa. A ideia do motivo do conflito da Guerra ser em detrimento da própria natureza os homens, por serem egoístas e cruéis, é válida, mas a execução não é tão redonda e isso ainda acaba tirando um pouco a presença de Ares, que acaba tendo sua ameaça diluída na obra.

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Outra questão é que, para cada minuto que passamos acompanhando a heroína, é um minuto a menos que deixamos de conhecer mais sobre os aliados que ela faz em sua jornada. Isso não é necessariamente ruim, já que a proposta é justamente colocar uma mulher no protagonismo da história, mas penso que a equipe de apoio é sub aproveitada. O que mais senti falta é de termos mais cenas de Diana e Etta Candy (Lucy Davis), personagem que é bem próxima da heroína nos quadrinhos, mas que é deixada de lado na segunda metade do filme, o que acaba prejudicando o trabalho da atriz. A equipe que acompanha Diana e Steve para o front de batalha, formada pelo escocês Charlie (Ewen Bremner), o árabe Sameer (Saïd Taghmaoui) e o nativo americano Chefe (Eugene Brave Rock) é um pouco mais aproveitada (assim como suas atuações), revelando outras formas de preconceito existentes nessa sociedade, mas o desenvolvimento da relação deles com a protagonista poderia ser um pouco melhor desenvolvido.

Ainda sobre as atuações, Gal Gadot prova que dá conta de carregar um filme desse tamanho, sendo ao mesmo tempo forte, feminina, confiante e inspiradora. Quando foi escolhida para o papel, a atriz foi criticada por não ter um porte físico mais atlético e musculoso, mas ela mostra que esses atributos não são necessários para mostrar a imponência que a personagem precisa. A química dela com Chris Pine funciona muito bem, uma vez que os dois conseguem estabelecer uma relação amorosa simples e de respeito mútuo, que não cai em clichês e valoriza cada um dos lados. Pine consegue interpretar bem um personagem de apoio que não é desprovido de seu próprio arco dramático, sendo interessante ver como ele lida com os próprios defeitos à medida que Diana mostra as falhas existentes dentro dos homens. Um último destaque fica para o trabalho de David Thewlis, que apresenta um dos personagens mais surpreendentes da trama, em uma atuação segura e convincente.

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Por fim, elogios também para o figurino (o uniforme da Mulher-Maravilha e das amazonas são ótimos), que costuma acertar em cheio nessas produções de época, e também para a trilha de Rupert Gregson-Williams. O compositor não apenas sabe quando reutilizar o ÉPICO tema da heroína, mas consegue proporcionar uma carga dramática adequada a história, sobretudo nas cenas de batalha, em algo semelhante ao que ele fez em Até o Último Homem. Os efeitos especiais estão dentro dos padrões dos longas de heróis, e, mesmo sendo bons,  o 3D, mais uma vez, é dispensável.

Mulher-Maravilha acerta em vários aspectos e é impossível sair da sessão sem ter um sorriso no rosto. A produção traz uma lufada de esperança para o universo DC do cinema, depois de resultados abaixo das expectativas com Batman v Superman e Esquadrão Suicida, além de conseguir dar sobrevida ao gênero de super heróis, apresentando uma visão diferente, inovadora, inspiradora e, até agora, única. Mais importante do que isso: a obra mostra que é possível, sim, fazer ótimas histórias protagonizadas por mulheres, feitas por mulheres, e que elas têm muito a acrescentar neste ramo. Fica a torcida para que o filme sirva de inspiração para a produção de outras obras semelhantes, fazendo com que, em um futuro bem próximo, possamos ter um gênero de super heróis e heroínas cada vez mais diverso e com diferentes pontos de vista.

Nota: 8/10.

P.S.: DC não é a Marvel. Pode sair do cinema ao subir dos créditos, pois não há nenhuma cena escondida lá.

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