A Múmia

“Início de universo cinematográfico de deuses e monstros da Universal é marcado por falta de personalidade e pouca inspiração”

Por Luís Gustavo Fonseca

Drácula, o monstro de Frankenstein, Lobisomem, o Homem Invisível, a Múmia… Esses são alguns dos seres fantásticos que, com o passar dos anos, passaram a viver no imaginário das pessoas. As origens das criaturas remetem tanto a lendas que foram passadas de geração em geração, assim como a livros publicados após a Revolução Industrial. Elas ganharam notoriedade ainda maior quando, a partir da década de 30 do último século, receberam uma variedade de adaptações cinematográficas, produzidas pela Universal, e que elevaram o os monstros a um novo patamar, consagrando-os e mudando o cinema de terror para sempre.

E é claro que em uma época em que remakes, reboots e universos compartilhados são a lei para quem almeja sucessos de bilheteria, alguém dentro do estúdio iria pensar em recuperar esse acervo de monstruosidades e produzir uma série de novos filmes, interligados, dando a origem ao chamado Dark Universe. Eu tenho a teoria que o longa que deveria ter dado o pontapé inicial a essa iniciativa era aquele Drácula de 2014, mas como a obra não obteve resultados expressivos de bilheteria, a missão ficou por conta de uma releitura de A Múmia, estrelado por ninguém menos que Tom Cruise.

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Ninguém resiste a simplesmente deixar o sarcógafo lá.

Na trama, Cruise é Nick Morton, um oficial do exército americano que, nas horas “vagas”, atua como um aventureiro na busca por antiguidades para revender no mercado negro. Em uma de suas jornadas, ele encontra acidentalmente uma antiga tumba egípcia enterrada, com o detalhe que ela se encontra no Iraque, a mais de 1000 km do Egito. A tumba (que, desnecessário dizer, é amaldiçoada) guarda os restos mortais da princesa Ahmanet (Sofia Boutella), que foi mumificada viva após assassinar o pai e seu irmão, ainda bebê, e que planejava trazer o deus egípcio da morte, Set, para o mundo. O ritual foi interrompido, mas com o novo despertar, Ahmanet terá uma nova chance de trazer o caos a terra.

E a primeira impressão desse novo universo conectado não poderia ser mais… Frustrante. Em 1h50, A Múmia tenta ser alguma coisa, mas é desprovido de qualquer personalidade. E nem dá para culpar o Tom Cruise, porque o cara se esforça: ele continua correndo, sendo o próprio dublê nas cenas de ação, trazendo a carisma de sempre (essa pegada “caça ao tesouro” me fez perceber como ele daria um bom Nathan Drake mais velho em uma adaptação do Uncharted). Mas só isso não basta. A produção, dirigida por Alex Kurtzman (que trabalha mais como produtor do que diretor), não tem uma assinatura própria, tentando mesclar – timidamente, vale frisar – um clima de terror com uma pegada maior de ação, recheada de explosões e destruições de cenários. O problema é que, salvo você saber que é de fato o Tom Cruise fazendo tudo ali, essas cenas são demasiadamente genéricas e desprovidas de momentos marcantes.

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O roteiro também é bagunçado, não desenvolvendo os personagens e suas respectivas motivações (com exceção, talvez, da antagonista) e, desta forma, tornando-os rasos e esquecíveis. Não existe aquele clima aventuresco e despretensioso, focado no entretenimento, que o A Múmia de 1999, estrelado pelo Brendan Fraser e a Rachel Weisz, tem. Até mesmo o humor pastelão feito pelo tio Jonathan, interpretado pelo John Hannah, seria bem vindo por aqui. Esse é o principal problema desta versão: salvo a boa ideia de juntar esses mitos, não há NADA que marque, que dê consistência ou que torne essa leitura especial.

Além do roteiro fraco, a edição também mais atrapalha do que ajuda. Há alguns pulos incríveis de continuidade, com os personagens estando em determinado lugar em determinada hora e, no corte seguinte, já estão em outra situação totalmente diferente, sem maiores explicações. Outro problema é que a edição tenta mesclar cenas envolvendo dois núcleos diferentes, simultaneamente, mas isso só colabora para deixar a produção mais confusa.

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Também não há nada que se salve em relação aos efeitos especiais (o 3D, para variar, não acrescenta nada), sendo que ainda acho que os da Múmia de 99 tinha algo mais aterrorizante (ou talvez seja mesmo minha memória de criança tornando aqueles escaravelhos bem mais ameaçadores do que realmente eram). A trilha sonora segue a mesma regra, o que também se aplica ao elenco. Ao menos, dá para notar que gente como o Russell Crowe, que vive o Dr. Henry Jekyll (atenção para o nome), e a própria Sofia Boutella tentam trazer uma caracterização maior aos seus personagens, mas o roteiro impede uma exploração melhor disso.

Enfim, o Dark Universe começou com o pé esquerdo. Enquanto cria-se a expectativa sobre se haverá ou não o sucesso de bilheteria, os planos do estúdio sobre os futuros filmes parecem bem consolidados. O próximo capítulo desse universo só acontece em fevereiro de 2019, com a nova adaptação de A Noiva de Frankenstein, na qual Javier Bardem (Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar) irá viver o clássico monstro (a atriz principal ainda não foi escolhida). Também já está decidido que, em algum momento, Johnny Depp (do mesmo Piratas!) viverá o Homem Invisível (se mesmo assim ele vai ser o mesmo personagem que predominou sua carreira nos últimos 10 anos, é outros 500…). Outros tantos monstros devem se juntar a essa equipe. Só espero que, até lá, decidam o que fazer com esse universo e como dar uma continuidade adequada a ele, corrigindo os erros e trazendo a esperada personalidade que ele necessita.

Nota: 3,5/10.

P.S.: A coisa mais legal desse Dark Universe até agora é o “trailer” de apresentação do conceito, que homenageia os filmes antigos. Se você ainda não viu, confira:  https://www.youtube.com/watch?v=LiPE-Mf8Ufc.

 

 

 

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