Ao Cair da Noite

“Clima claustrofóbico e de incerteza é o grande trunfo de ótimo thriller psicológico.”

Por Luís Gustavo Fonseca

A família de Paul (Joel Edgerton), Sarah (Carmen Ejogo) e do filho Travis (Kelvin Harrison Jr.) abrigou-se em uma casa no meio da floresta, após alguma coisa ter acontecido com a população humana das grandes cidades, levando milhares de pessoas à morte devido a uma misteriosa infecção. Tentando construir uma ordem nesta nova realidade, a família procura se precaver de todas as formas possíveis, tapando as janelas e portas da casa (com exceção de uma única saída), racionando recursos e usando máscaras de oxigênio ao ir no exterior, além de nunca saírem da casa após escurecer. Contudo, a rotina precária da família é posta à prova quando Will (Christopher Abbott) tenta invadir a propriedade e pede para que eles o ajudem com a sua família, oferecendo um abrigo para a mulher e o filho pequeno. Mas será que eles são confiáveis?

Um dos grandes acertos da obra é o fato da história, intencionalmente, deixar o espectador no escuro, com o mínimo de informações possíveis. Não se sabe o que causou a infecção, como ela começou ou quais foram os impactos dela na sociedade. Até mesmo como ocorre sua transmissão é algo um tanto misterioso, sabendo-se apenas que a pessoa pode estar infectada, mas que demora a apresentar os sintomas. Essa dúvida é a fundação de toda a tensão e paranóia existente no filme, uma vez que não há como saber se alguém está infectado e, portanto, se é seguro interagir com o outro.

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Isso causa um grande impacto na maneira como as relações se desenvolvem, pois, por mais que haja um esforço para construir uma relação harmoniosa entre as duas famílias, a dúvida persiste e a incerteza vai reforçando um clima cada vez mais tenso. Merece destaque, também, a intenção do roteiro em não se tornar uma daquelas histórias pós-apocalípticas em que um grupo de sobreviventes deve ir do ponto A até o ponto B, mas simplesmente desse grupo tentar ficar em um único lugar e estabelecer alguma ordem diante deste novo cenário.

A filosofia de não dar todas as informações (algo na linha de “menos é mais”) também pode ser observada em outros aspectos, que dão consistência à proposta da produção. O diretor e roteirista do longa, Trey Edward Shults, é inteligente ao refletir essa ideia de “deixar o espectador no escuro” em seu trabalho com a câmera, optando predominantemente por ângulos e closes mais fechados, que valorizam as emoções transmitidas pelos atores. Assim, esse estilo de filmar acaba revelando muito pouco do ambiente em que esses personagens estão. Isso beneficia uma outra boa sacada do diretor, que são as cenas noturnas dentro da casa, em que se usa apenas lanternas como fonte de iluminação – a fotografia é excelente, tornando o ambiente mais assustador e tenso. Com pouca luz e por não conhecer a casa, cria-se a expectativa de que algo ou alguém esteja à espreita nos cantos mais escuros da propriedade, esperando o momento certo para se revelar. Essa atmosfera claustrofóbica e de incerteza (quesito que a trilha sonora também exerce papel fundamental) valoriza ainda mais a ambientação sufocante e misteriosa do enredo, tão bem construída no decorrer da obra e que, ao longo de sua 1h30, não perde o ritmo e apresenta uma dinâmica acertada.

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O que há na escuridão?

Contudo, o maior mérito da produção também acaba servindo para alguns tropeços. Algumas perguntas mais pertinentes à história são levantadas e acabam não sendo respondidas. Apesar de pensar que isso é condizente com a proposta da trama (e que muitos vão ficar satisfeitos em não ter uma resposta definitiva para esses mistérios), também acho que há uma sensação irritante (talvez mesmo decepcionante) de certos pontos não serem esclarecidos. Outro aspecto que fica abaixo da qualidade do restante do filme são as atuações, que, no geral, são desprovidas de maior personalidade e elementos mais marcantes. O único que se destaca é Joel Edgerton, que entrega muito bem um pai paranoico e com obcecado em seguir as regras que ele mesmo criou para aquela situação. São compreensíveis as motivações de seus atos, mas isso também o torna mais aterrorizante, aprofundando seu personagem.

Ao Cair da Noite, finalmente, serve para concretizar dois bons momentos: o primeiro é o de uma nova boa safra de thrillers psicológicos, que do último ano para cá, já contou com ótimos exemplos como O Homem nas Trevas, Rua Cloverfield,10, Corra! e Fragmentado. O segundo é do estúdio A24, que esteve envolvido na produção e distribuição de longas como Moonlight: Sob a Luz do Luar, Ex-Machina, O Lagosta e A Bruxa, só para citar alguns dos exemplos mais recentes. Para quem procura algo diferente e bem feito, a obra é uma excelente pedida.

Nota: 8/10.

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