7×1: Homem-Aranha 3

Por Luís Gustavo Fonseca

Lembro que Homem-Aranha 3 foi o primeiro filme do personagem que assisti no cinema. O Amigão da Vizinhança tornou-se meu herói predileto tanto por influência dos outros dois longas, assistidos na televisão, mas principalmente por influência do clássico desenho da década de 90. Muito dessa ligação vem do fato de Peter Parker ser um jovem comum, que se esforça para pagar as contas e ir bem na escola, uma de suas características mais consagradas. Mas o que mais chamava a atenção era o modo irreverente e cômico com que ele lidava com seus vilões, caçoando deles e nunca perdendo a hora para fazer suas piadinhas.

Curiosamente, talvez justamente por gostar do personagem, eu não achei Homem-Aranha 3 ruim em um primeiro momento, ao assistir em uma sala abarrotada de pessoas, mesmo sendo em um dia útil na terceira semana de exibição, em uma cidade do interior. A produção poderia não ter me encantado da mesma forma que suas anteriores, mas ainda havia me transmitido alguns bons momentos. Era o que poderíamos chamar de um bom entretenimento.

Entretanto, nos dias e semanas seguintes, quanto mais eu pensava sobre os detalhes da obra, assim como acompanhava a opinião de outras pessoas na internet (ainda usando a famigerada internet discada), percebi o quão desastroso o filme realmente era. Um desastre digno do 7×1 sofrido pela seleção brasileira, que completa três anos nesta semana. Aproveitando a data e o fato de um novo longa do Cabeça de Teia também estrear nesta quinta-feira (6), chegou a hora revisitar a última produção do herói dirigida por Sam Raimi e anotar todos os pecados cometidos – assim como, talvez, seu gol de honra.

7 ERROS

1) Flint Marko/Homem Areia

Dos três principais antagonistas da produção, o Homem Areia é o que menos tem culpa do resultado final. Se tivéssemos só dois vilões, mantendo-o como vilão secundário, que atrapalha a vida do Aranha aqui e ali, penso que ele poderia ter funcionado muito bem nas telonas. O roteiro ao menos é claro em estabelecer a motivação da personagem, e as cenas de luta entre ele e o nosso herói são boas, com efeitos que se sustentam mesmo 10 anos depois. O problema é que, por culpa da edição, que sempre opta por desenvolver o arco do personagem nos momentos mais inconvenientes (sempre avacalhando o ritmo do longa) o personagem fica espalhado ao longo da obra, sendo sub aproveitado. No final, admito que existe uma mensagem válida ali (ou ao menos, uma tentativa), do Peter perdoá-lo e isso casar com o arco do Aranha… Mas toda a questão de Flint estar envolvido com a morte do tio Ben é estranha, para não dizer desnecessária, um ponto que a trilogia, a essa altura, não precisava retornar. Isso sem contar que toda e qualquer simpatia pelo personagem se dissipa na grande luta final, com ele se tornando aquele monstro gigante careta e sem personalidade, em uma resolução bastante genérica e vazia. Tipo: ele sai voando no fim?!?!?!? Consequências pra quê, não é mesmo?

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Não existe carisma para com esse monstrengo feito de areia (coberto por cocô de gato, talvez?)

2) Harry Osborn/Duende Verde

O Harry Osborn do Dane DeHaan no O Espetacular Homem-Aranha 2 é bastante fraco, mas o do James Franco é igualmente ruim. Acho que, além da nostalgia, as pessoas não pegam muito no pé porque o roteiro trabalha o Harry bem nos primeiros longas, construindo sua relação com o Peter e, posteriormente, sua obsessão em matar o Homem-Aranha. Mas em um filme atrapalhado, cheio de coisas inúteis e de argumento fraco, Harry/James mostram o seu pior. A luta inicial dele com o Peter, que resulta no acidente que o faz perder a memória, tem efeitos especiais ruins (nem parece a equipe responsável pelas lutas contra o Homem Areia ou, ainda, a que proporcionou a épica luta entre o Aranha e o Dr. Octopus no anterior). Depois, ele é deixado de lado, sendo que seu arco se mistura com o da Mary Jane e, subitamente, retorna a ser o Duende. Novamente: se esse longa tivesse apenas dois vilões (e, acho,a ideia original de Raimi seria utilizar justamente o Duende e o Homem Areia), acho que tudo isso poderia ter sido MUITO melhor arranjado, resultando em algo bem superior. Mas assim como Flint, essa história do Harry fica espalhada, desconexa, gerando um resultado igualmente abaixo das expectativas. Quero dizer, vai me falar que aquela luta no apê do Harry com o Aranha correspondeu o que se esperava do que foi construído ao longo da trilogia?!?! O desfecho do personagem também é sofrível, uma vez que acho que a união entre o Aranha e o seu mais célebre vilão é algo, no mínimo, errada – a partir do momento que ele retorna a identidade do vilão, o seu lado apaixonado por Mary Jane também não me convence. Outro fator que empobrece esse núcleo são os diálogos entre Harry e Peter, mas volto nisso mais tarde.

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Tá, o visual do Duende do Willem DaFoe não é dos melhores, mas ao menos é uma caracterização melhor do personagem do que esse ninja Max Steel do Harry Osborn

3) Eddie Brock Jr./Venom

Engraçado pensar que a atuação de Topher Grace como Eddie Brock, de tão cretina e vergonhosa, funciona para um personagem que deveria ser um exímio exemplo de alguém babaca. Mas o Venom, um dos antagonistas mais conhecidos do Cabeça de Teia, é o câncer desta obra. CURIOSAMENTE, eu nunca reparei como, na verdade, o Venom em si fica pouco tempo presente em tela. O uniforme preto só aparece quase na metade do longa (isso depois da coincidência digna de quadrinhos do meteoro que traz o simbionte pousar exatamente do lado de onde Peter e MJ se encontravam em uma noite), e o vilão toma conta de Eddie com o ponteiro já se aproximando de duas horas de duração, no que deve ter servido de exemplo para a introdução do Doomsday em Batman v Superman. Talvez, visualmente, o personagem seja maneiro, mas isso pegando bem de leve e estando de bom humor. Seu pouco tempo de tela e a necessidade dele se tornar a maior ameaça da história fazem com que ele tenha um desenvolvimento (se é que se pode afirmar isso) apressado, com ele se unindo ao Homem Areia da forma mais sem vergonha e convenientemente para o plot possível – eles literalmente se trombam em um beco qualquer de Nova York. A união dos dois acaba deixando o Venom menos ameaçador, uma vez que, nos quadrinhos e nos desenhos, ele consegue peitar o Aranha de igual para igual com facilidade. O certo seria que essa treta entre os dois fosse colocada em um filme próprio, o que seria benéfico para o vilão e desafogaria um roteiro que quer contar demais.

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A satisfação no olhar de quem destruiu um filme (e ele se tornou um vampiro?!)

4) Gwen Stacy

Como minhas referências eram os longas do Raimi e o desenho da década de 90, eu sequer reparei na CAGADA que é a introdução da Gwen Stacy aqui, já que eu vim conhecer a personagem anos depois, ao ler as HQs mais antigas do Amigão. A decisão de inverter a ordem de chegada entre ela e a Mary Jane é perdoável, mas o modo como eles lidam com a Gwen – personagem chave da mitologia do Aranha – chega a ser ofensivo. A impressão que me passam dela é de uma menina fútil, rasa, que nada tem a acrescentar. E isso porque se esforçam para mostrar que ela é inteligente no começo! O que mais dói, contudo, é o envolvimento dela com o Peter. Uma relação tão importante é porcamente trabalhada, com ela servindo apenas para engatilhar uma crise no relacionamento entre Peter e MJ, e é isso. Um montante que não deve dar cinco minutos. Se tivéssemos um quarto filme, talvez ela fosse reaproveitada de alguma maneira? Mesmo assim, era provável que não fossem capaz de redimi-la. O reboot protagonizado pelo Andrew Garfield certamente tem seus problemas, mas ao menos, faz jus a personagem, que merecia uma introdução mais digna no cinema.

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Ao menos ela não corre de um vilão com um salto alto de 12 cm

5) J. Jonah Jameson

O JJJ se encontra nessa lista negativa não por ser mal trabalhado ou atrapalhar a história, mas simplesmente por ser ignorado. A atuação de J. K. Simons, imortalizada até hoje no que deve ser uma das melhores interpretações de algum personagem vindo dos quadrinhos no audiovisual, é um dos pontos fortes de toda a trilogia, algo que torna, ao menos os dois primeiros filmes, tão especiais. E aqui, ao longo de 2h20, eu acho que ele aparece em três cenas. TRÊS! Ele consegue aparecer menos que a Gwen, mas ao menos quando ele está em tela, arranca risos legítimos do telespectador. Trocaria facilmente a Gwen, o Venom e metade das cenas do Harry Osborn para ter mais cenas dele gritando com os empregados do Clarim Diário. A despedida de Simons do papel não poderia ter sido mais amarga e, por outros motivos, decepcionante.

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Não sei se há algum remédio que torne esse filme suportável.

6) Mary Jane

Talvez seja a parte mais lúcida dessa bagunça toda. Seria aquele jogador que o torcedor vê que tá correndo e tentando criar alguma jogada, mesmo com o time tomando uma goleada no lombo, mas que mesmo assim não é efetivo e tem sua parcela de culpa. Eu acho muito válida a proposta de contrapor o momento dela, que é demitida da peça da Broadway que ela estrela e passa por uma fase delicada na carreira profissional, com o de Peter, que começa a obra no que deve ser seu momento mais feliz: adorado pela sociedade, recebendo a chave da cidade e prestes a pedir MJ em casamento.  Isso é um ponto para o roteiro. Mas, novamente, isso fica soterrado no mar de tramas e subplots desnecessários. O envolvimento dela com Harry é um tanto estranho, deslocado, e é o pior trabalho da Kirsten Dunst no papel. Na verdade, eu não morro de amores pelo trio que estrela essa trilogia, mas aqui, é fato que são os piores trabalhos de todos eles.

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Talvez essa imagem seja uma boa representação de mim vendo a obra

7) Os diálogos

Há um outro vilão que permeia todos esses personagens e arcos mal desenvolvidos: os diálogos. As conversas entre Peter e Harry e o herói e sua namorada ruiva são terrivelmente escritos, impedindo que a carga dramática dos conflitos possa ser melhor desfrutada ou explorada. Harry e Peter parecem duas crianças brigando por um doce, enquanto toda a crise amorosa do casal de mocinhos poderia ter sido facilmente resolvida se eles simplesmente sentassem com mais calma e conversassem de forma mais clara. A falta de diálogo também incomoda a medida que você percebe que o Homem-Aranha faz menos piadas que o normal, e isso nem se deve, exclusivamente, pelo fato do Peter passar por um momento mais deprê *cof cof* emo *cof cof*, mas é pelo roteiro ser pouco inspirado mesmo. Uma lástima.

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ACERTO

1) Dança emo

A cena que serve de retrato do que esse filme é e representa, de tão ruim, constrangedora e vexatória, faz a curva e torna-se memorável. Sim, esse momento emo do Peter é horroroso e de doer os olhos, algo do nível mamilos na armadura e batcartão do Batman & Robin, mas eu acho ela genuinamente engraçada. Foi o que mais me fez rir em 2h20 de frustração. Convido o(a) leitor(a) a reviver esse grande momento, pedindo para que foque no quão cômico toda essa situação (e os movimentos feitos por Toby Miguire) é.

BÔNUS ROUND:

Ele dançando com a Gwen é igualmente inacreditável e fascinante.

 

Se você gostou do formato, conheça outros textos da série “7×1”, que inclui divertidas análises do que deu errado em Demolidor, Quarteto Fantástico, X-men Origins: Wolverine e os prequels de Star Wars.

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