Homem-Aranha: De Volta ao Lar

“Em seu primeiro longa solo no Universo Marvel, Amigão da Vizinhança se destaca por pegada divertida, aventuresca e inocente”

Por Luís Gustavo Fonseca

Após os acontecimentos de Capitão América: Guerra Civil, Peter Parker (Tom Holland) retorna a Nova York e vive a expectativa de, novamente, ser convocado por Tony Stark (Robert Downey Jr.) para uma nova “missão”. Enquanto tenta provar seu valor para o Homem de Ferro, ele deve lidar com problemas mais comuns, como ir bem na escola, preparar-se para uma competição de perguntas e respostas ao lado de seus amigos, ou criar coragem para chamar a garota que gosta para o baile da escola. Até mesmo quando ele atua como o Homem-Aranha, suas ações são mais corriqueiras, como impedir um roubo de bicicleta ou ajudar uma senhora a chegar em algum lugar, mas nada grandioso, algo que permita Peter provar o seu valor. Quando seu caminho cruza com os capangas de Adrian Toomes (Michel Keaton), um traficante de armas que vende armamento alterado com tecnologia alienígena, Peter vê a chance de provar o seu valor, querendo derrotar um criminoso de maior importância.

Dos vários aspectos que a obra acerta (e se você parar para pensar que os três últimos longas do herói não tinham tantas qualidades assim, isso é dizer muito), o tom e a abordagem do personagem são os primeiros que eu destaco. Existe uma aura leve e aventuresca na trama, lembrando produções de pegada semelhante que fizeram sucesso na década de 80, que dá ao enredo um caráter episódico, ao mesmo tempo em que o texto é competente em amarrar todos esses novos personagens com o mundo em que estão inseridos. O característico humor da Marvel está presente novamente, mas desta vez conta com uma dose extra de inocência, algo que torna a retratação de Peter e seus amigos não apenas mais crível, como também mais agradável de acompanhar.

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Ver um uniforme do Aranha que tenha o suvaco de teia e a aranha gorda nas costas é uma emoção especial para os fãs do personagem

Isso se deve, em grande parte, ao trabalho do diretor Jon Watts. Ele havia me surpreendido com o ótimo Cop Car, e traz de sua obra indie essa atmosfera aventuresca, de auto descoberta, que é predominantemente inocente, mas que sabe quando se tornar mais séria e mais grave. A produção consegue ser engraçada e tensa, leve e também com ar ameaçador quando necessário. O diretor mostra evolução no seu trabalho nas cenas de ação, conseguindo fazer grandes sequências de combate, aproveitando as cenas aéreas com o Abutre, que estão dentro do padrão de qualidade estabelecido pela Marvel (elas podem ser repetitivas, mas raramente são ruins ou não proporcionam o espetáculo desejado).

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O trabalho de Watts também é refletido na forma como as relações acontecem e se desenvolvem, principalmente entre os jovens estudantes. A dinâmica de todo o núcleo escolar é bem feita, com o filme sempre acertando na abordagem e na ambientação quando foca esses momentos. As interações entre Peter e seu melhor amigo, Ned (Jacob Batalon), são ótimas, rendendo vários dos melhores momentos cômicos da produção, mas sabendo desenvolver o companheirismo que existe entre a dupla a medida que Ned auxilia Peter em seus trabalhos como Homem-Aranha. Os momentos de bullying sofridos por Parker por seu rival escolar, Flash Thompson (Tony Revolori), resgatam uma das principais características dos personagens nas HQs, mas que inova a dinâmica desta relação, explorando-a de uma maneira diferente de longas anteriores ou em outras mídias. Liz Allen (Laura Harrier) é a paixão platônica do nosso herói, mas ela está longe de ser a “donzela em perigo” da história (como algumas das cenas dos trailers podem sugerir), já que seu arco dramático trabalha outros aspectos, uma vez que acompanhamos como ela deseja completar o ensino médio, ao mesmo tempo que assume a responsabilidade de organizar o baile de formatura e de ser a líder da equipe que competirá a final do torneio de Perguntas e Respostas.

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Visual do Abutre é outro grande acerto da obra

O roteiro pode não ser revolucionário, mas é competente em conduzir uma boa história e desenvolver suas peças principais. Penso que ele demora um pouco para engatar, com sua primeira meia hora apresentando uma dinâmica mais arrastada, mas depois ele cresce e se sustenta de forma exemplar. Em sua busca pela aprovação de Tony Stark (uma motivação condizente com esse universo, mas que se comparada ao personagem nos quadrinhos, é um tanto boba), Peter acaba descobrindo mais sobre quem é, seus limites e talvez, finalmente, compreendendo plenamente que “grandes poderes devem ser acompanhados de grandes responsabilidades”. Seu desespero por aprovação o leva a cometer erros e a falhar, e é isso que permite sua evolução como personagem e herói, levando-o a tão desejada independência. Não dá para afirmar que a motivação explícita do Aranha descaracteriza o herói, já que ele também faz o que faz por ser a coisa certa a ser feita.

Outro bom acerto do texto é o trabalho na apresentação e desenvolvimento de Adrian Toomes/Abutre, que tem suas motivações (bem pertinentes, inclusive) deixadas claras desde o início. Isso torna o antagonista mais consistente e beneficia sua construção, servindo muito bem ao propósito da história, reforçando a sensação de que a Marvel, finalmente, parece ter encontrado o caminho certo de como lidar com seus vilões, apresentando resultados melhores.

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Algo que gostei bastante em Cop Car é a direção de atores feita por Watts, que sabe tirar proveito do elenco que tem. E aqui, acho que essa característica se ressalta, com os atores tendo interpretações afiadas e em sintonia. Acho que poderíamos ter mais de Laura Harrier e da tão comentada “MJ”, vivida por Zendaya, no longa, uma vez que elas acabam sendo um pouco subaproveitadas – a segunda tem várias tiradas engraçadas, seria bom ter mais cenas com ela. Em contrapartida, Tom Holland apresenta um Peter Parker próprio, divertido e incrivelmente carismático, estando muito acima dos trabalhos de Toby Miguire e Andrew Garfield. Penso que, como Homem-Aranha, ele ainda tem a evoluir, mas há potencial para ele se destacar nesse quesito também. Ao contrário do que os trailers dão a impressão, Tony Stark/Homem de Ferro é usado com parcimônia, e talvez por ter menor destaque se comparado às suas últimas aparições, o seu tempo em tela se torna menos cansativo e, consequentemente, é possível apreciar melhor as características e a presença que o ator dá ao personagem.

Falando em presença, Michael Keaton consegue impor personalidade e força a um vilão não tão conhecido do Amigão da Vizinhança. Uma cena em especial entre ele e Holland, que não envolve nada de ação e conduzida com maestria, mostra como Watts soube aproveitar o talento de ambos. Elogios a atuação também se estendem a Jacob Batalon, Marisa Tomei (a tia May jovial) e a Jon Favreau, que retorna ao papel de Happy Hogan e se encaixa como uma luva no longa.

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Por fim, os pontos mais fracos da obra acabam sendo o 3D, que mesmo na projeção IMAX, nada acrescenta. O que é uma pena, pensando que em o Espetacular Homem-Aranha 2, esse era um dos aspectos que mais tinha se destacado. A trilha de Michael Gianchinno (Doutor Estranho) aproveita de forma inteligente o clássico tema do herói, mas em muitos momentos acaba passando batida, carecendo de uma assinatura mais forte.

O primeiro filme solo do Cabeça de Teia no Universo Marvel começa com o pé direito, conseguindo apresentar de forma categórica o microverso do personagem, mesclando-o com o restante do que a Marvel já fez até agora e mostrando potencial para evoluir no futuro. Se o retorno financeiro ocorrer nas bilheterias (o que é muito provável), a união entre a Sony e a Marvel Studios tende a se consolidar ainda mais, com o Aranha se tornando uma das peças chaves para o futuro deste universo nos cinemas. Dá até para parafrasear o Casablanca e dizer: “Peter, eu acho que este é o começo de uma bela amizade.”

Nota: 8/10.

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3 comentários sobre “Homem-Aranha: De Volta ao Lar

  1. Amo esse filme! É uma historia cheia de incríveis personagens e cenas excelentes. Adorei esta história, por que além do bom roteiro, realmente teve um elenco decente, elemento que nem todos os filmes deste gênero tem. Fiquei surpressa desde que eu vi Tom Holland no Homem Aranha de Volta ao Lar trailer. Lembro dos seus papeis iniciais, em comparação com os seus filmes atuais, e vejo muita evolução, mostra personagens com maior seguridade e que enchem de emoções ao expectador. Sendo sincera eu acho que a sua atuação é extraordinária. Se alguém ainda não viu, eu recomendo amplamente, vocês vão gostar com certeza.

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