Carros 3

“Em seu terceiro capítulo, franquia mostra capacidade de evoluir seu protagonista”

Por Luís Gustavo Fonseca

A franquia Carros talvez seja a mais destoante do acervo de obras da Pixar. O primeiro longa, que apresenta um mundo dominado por carros com características humanas, teve uma recepção positiva e, do seu modo, conseguiu conquistar o público infantil. Entretanto, não acredito que muitas pessoas desejavam uma continuação, sobretudo numa época em que o estúdio da luminária saltitante era bem mais restrito com sequências de suas produções. Ela aconteceu e, apesar de ter tido uma bilheteria melhor, o resultado ficou aquém não só do primeiro, mas como de todo o restante da Pixar (que, convenhamos, é o mais fraco do estúdio). Procurando uma redenção para a série, chegamos ao terceiro filme estrelando Relâmpago McQueen.

O novo episódio da saga começa mostrando que Relâmpago tornou-se uma lenda dentro do automobilismo, acumulando vitórias e títulos, tornando-se referência para milhões de pess… Carros. Entretanto, após anos de competição, ele se vê no meio de uma mudança no esporte, com carros mais novos, com melhores tecnologias e que são mais rápidos, tomando o lugar de velhos veteranos. Ainda confiando que pode continuar competindo em alto nível neste novo cenário, McQueen terá que se reinventar se não quiser uma aposentadoria antes da hora desejada. Para isso, ele contará com a ajuda de Cruz Ramirez, sua nova treinadora e fã desde quando era pequena.

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Talvez a coisa mais inteligente que o roteiro de Carros 3 poderia fazer é deixar completamente (ou quase isso) os acontecimentos do segundo longa de lado. Não apenas isso, mas o terceiro capítulo tem uma pegada e uma proposta bastante similar a do filme original, que também exigia do protagonista uma necessidade dele repensar suas atitudes e sua forma de ver o mundo se quisesse ser campeão. Apesar de reciclar esses elementos, o roteiro consegue se atualizar e trazer novas questões, criando uma ótima contraposição entre o velho e o novo, o amor e a visão mais romântica e nostálgica do esporte em contrapartida aos números frios e um método de treinamento que preza pelo melhor desempenho possível.

O melhor exemplo dessa dualidade na qual a obra se sustenta nem reside na rivalidade entre McQueen e o novato e rápido Jackson Storm (um exímio babaca com ar superior que cumpre perfeitamente o papel de antagonista), mas sim na relação entre o protagonista e sua nova treinadora. Ele e Cruz Ramirez não se dão bem no início: ele não aceita que os tempos mudaram e precisa se readequar, enquanto ela o trata como um senhor de idade incapaz fazer as coisas, ainda mais sem o auxílio da tecnologia. É desta desavença inicial que o texto constrói uma jornada de autodescoberta, na qual cada um deles aprende algo com o outro e, consequentemente, aprende mais sobre si mesmo. Esse desenvolvimento de personagens é bem feito e beneficia, sobretudo, o arco dramático de McQueen, que não se torna cansativo, mesmo sendo o terceiro filme e já termos visto ele passar por algo semelhante.

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Um possível paralelo que se pode ser feito em relação a essa necessidade de mudança é a opção do enredo de, praticamente, deixar todos os coadjuvantes dos dois primeiros de lado. Acho acertada a decisão de não haver uma super exposição deles, sobretudo do Mate, estratégia que não deu o resultado desejado no segundo. Contudo, a produção acaba perdendo um pouco de seu charme, uma vez que esses personagens aparecem de forma mais pontual e, assim, o humor que envolvia eles não é explorado da mesma forma. Ainda assim, o longa consegue divertir (principalmente a criançada) e tem boas sacadas, contendo algumas piadas de caráter mais metalinguístico, além de contar com participações especiais na dublagem, tais como os jornalistas esportivos Everaldo Marques, Rômulo Mendonça, Fernanda Gentil e Silvio Luiz, além do ex-piloto de Fórmula 1 Rubens Barrichello. Aliás, apesar da mudança de dubladores com alguns personagens (caso da Sally e do Doc Hudson), ainda acho que a dublagem é bem feita, destacando, pessoalmente, o trabalho de Giovanna Ewbank como a treinadora Ramirez.

Por fim, o visual da obra também mostrou evolução em relação ao restante da franquia. O grave acidente sofrido por McQueen, antecipado pelos trailers, causa grande impacto mesmo sendo esperado, sendo uma das sequências mais bem feitas de toda a trilogia. Algumas cenas lembram a técnica usada em O Bom Dinossauro, na qual a impressão que se tem é que eles filmaram o ambiente real e jogaram a animação por cima, criando um resultado deslumbrante, adicionando uma sensação de realismo às cenas de corrida.

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Até o momento, o desempenho nas bilheterias de Carros 3 é o mais fraco da série. Talvez isso pouco importe, uma vez que o dinheiro gerado com venda de brinquedos e merchendising é algo absurdo – a saga é a segunda melhor neste quesito no mundo. O mais importante é que esse terceiro capítulo proporciona um final (?) digno a trajetória de McQueen, recuperando a moral da franquia e dando ao público um filme satisfatório.

Nota: 7,5/10.

P.S.: O curta Lou que antecede o longa é um dos que menos me agradou entre os recentes da Pixar, mas sua mensagem anti bullying é uma das melhores que poderiam ser entregues ao público.

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