PERFIL | Edgar Wright

Por Luís Gustavo Fonseca

O diretor e roteirista britânico Edgar Wright tem uma filmografia curta, mas que, até agora, surpreende pela qualidade. Se ele ainda não tem um grande sucesso comercial – algo que poderia ter acontecido com Homem-Formiga, mas ele acabou saindo do cargo de direção há menos de um ano do lançamento do filme, após ter ficado quase uma década à frente do projeto -, ele conquistou uma legião de fãs fiéis, por meio de sua estética de filmagem, humor irreverente e parcerias precisas com os atores Nick Frost e Simon Pegg.

Às vésperas do lançamento de Em Ritmo de Fuga, que acontece no Brasil na próxima quinta (27), revi os longas comandadas por Wright (composta  pela “trilogia” do Cornetto e Scott Pilgrim Contra o Mundo) e procurei listar algumas das boas características que ditam seus filmes. Uma delas é a paródia, algo evidente em sua primeira produção de destaque, Todo Mundo Quase Morto, de 2004. Ao prestar uma homenagem a George A. Romero e aos filmes de zumbis (gênero que Romero teve papel fundamental em cunhar), em especial A Noite dos Mortos-Vivos, Wright propõe um novo olhar sobre esse tipo de obra, optando por trocar o terror pelo humor. Os principais jump scares do longa, por exemplo, são frutos da trilha sonora, que indica uma atmosfera pesada enquanto as cenas mostram uma situação que não envolve nenhum perigo ou tensão.

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Essa contraposição de ideias e sensações é uma das melhores coisas que o britânico faz em tela, seja visualmente ou por meio do roteiro. É curioso que, em seu estilo de filmagem, ele realiza uma sequência de cortes rápidos com zoom ins em objetos específicos, mas que é contraposta a uma narrativa que transmite a sensação de lentidão, nas quais os diálogos não transmitem a mesma urgência. O uso de “repetição” de cenas é uma outra boa sacada do diretor: em Todo Mundo, ele apresenta um plano sequência no início, que acompanha Shaun (o personagem de Simon Pegg) indo de sua casa até um mercado próximo e retornando a sua residência. Mais tarde, ele reproduz o mesmo segmento, que é composto por novos elementos que se adequam às mudanças no enredo e conseguem, por meio disso, dar o humor a cena.

Nesse sentido, entra em cena (literalmente) outro toque de Wright: a forma como ele conta a história por meio de detalhes, com elementos pertinentes a história acontecendo no fundo de tela e não em primeiro plano. A edição também colabora para esse desenvolvimento da narrativa por meio de sacadas cômicas, como quando as frases de diferentes apresentadores de TV se unem e formam sentenças que fazem sentido e ajudam a contar o que está acontecendo. A combinação entre roteiro e filmagem também gera bons momentos, como nos casos de elementos surpresas.  Um bom exemplo é quando um personagem comenta algo pertinente ou engraçado, e com um movimento de câmera, Wright revela novos personagens presentes naquele ambiente, o que potencializa a piada e a deixa melhor.

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Essas características também aparecem nas demais obras do diretor, mas ele consegue evoluir e trazer coisas novas. Nos outros dois longas da trilogia do Cornetto, Chumbo Grosso e Heróis de Ressaca, ele desenvolve melhor o drama e as relações dos personagens. No primeiro, de 2007, também há um caráter de paródia, a medida em que Wright subverte, até certo ponto, o gênero de suspense policial. O desenrolar do filme revela uma trama que lembra, em alguns aspectos, o enredo de Agatha Christie em Assassinato no Expresso Oriente, mas mesmo tendo uma pegada mais dramática e séria, ele ainda encontra espaço para o humor por meio das interações dos protagonistas e pela quebra de expectativas.

Fechando o Cornetto, Heróis de Ressaca (2013) continua mostrando a evolução de Wright. Ele se desprende do modelo de dupla dos outros filmes, ao expandir o foco para as relações de um grupo, dando a ele novas possibilidades para fazer o público rir. O humor volta a ocorrer nas repetições de cena e de diálogos – a edição entre as conversas e a forma como elas se complementam me lembram Archer. Ele também apresenta um salto nas cenas de ação, com as lutas no banheiro e a do bar nº 9 sendo incrivelmente bem filmadas e coreografadas.

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Por fim, o meu favorito de Wright: em Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010), ele  apresenta uma relação entre um grupo de personagens bem construída e humorada, adaptando muito bem a HQ escrita por Bryan Lee O’Malley. A estética do britânico cai como uma luva na proposta, entregando uma adaptação de quadrinhos bem diferente das demais, com assinatura própria. Ele não poupa o uso de onomatopéias como POW! e BLAM!, além de dividir o quadro em um formato semelhante ao de HQ. As cenas de ação também são melhores, com as diversas lutas que atravessam a produção tendo elementos de videogame e, como dito, conferindo a obra uma abordagem própria do diretor. Essa pegada única é o que quero ver em Em Ritmo de Fuga e nos futuros projetos de Edgar Wright. O cinema ainda tem muito a ganhar com a visão dele.

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2 comentários sobre “PERFIL | Edgar Wright

  1. Eu conhecia o Wright pela trilogia que você citou, mas ainda não consegui assistir. Eu vi Em Ritmo de Fuga semana passada e achei sensacional o humor e a forma incrível que ele usa a música para dar o tom às cenas de perseguição, kkkkk
    Vou ver em breve a trilogia do Cornetto, vou encerrar minha lista com eles!

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