Em Ritmo de Fuga

“Edgar Wright mistura velocidade, assalto à banco e música e dá aula de como fazer um divertido filme de ação”

Por Luís Gustavo Fonseca

A princípio, a ideia de misturar um filme de roubo envolvendo carros, velocidade e tiroteio, com o gênero de musical, pode não parecer atraente. Entretanto, quando quem propõe essa mistura é o britânico Edgar Wright, a coisa muda de figura. Essa é a proposta de Em RItmo de Fuga, longa que acompanha Baby (Ansel Elgort), um jovem piloto de fuga e homem de confiança de Doc (Kevin Spacey), responsável pelo planejamento dos roubos. Baby desenvolve uma espécie de zumbido nos ouvidos após sofrer um acidente de carro quando criança, sendo que é por meio das músicas que ele escuta em seu iPod que ele consegue contornar o incômodo. Quando ele conhece e se apaixona por Debora (Lily James), Baby passa a planejar uma forma de sair do mundo agitado e ilegal dos roubos, com o intuito de fugir ao lado da companheira para uma vida mais tranquila.

Já falei aqui de como o diretor e roteirista britânico Edgar Wright é um cineasta de características únicas, com ideias bacanas. Para quem é fã, Em Ritmo de Fuga é repleto de várias de suas melhores qualidades. No roteiro, o humor inglês é deixado um pouco de lado, já que o longa se passa nos EUA, mas ainda há o mesmo talento para diálogos engraçados, bem construídos e que dão uma dinamizada no enredo, fazendo com que você não sinta o tempo passar. Wright aposta no seguro e faz com que as motivações do protagonista e seus inimigos sejam simples, mas ainda sim é algo feito de forma competente. As relações entre os criminosos – que ainda conta com Buddy (Jon Hamm), Darling (Eiza González) e Bats (Jamie Foxx) – funciona de forma orgânica, com cada um tendo uma personalidade própria, o que dá diversidade ao grupo.

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O brilho de Wright ao escrever o texto, contudo, acontece na maneira em que ele utiliza a música na história, como se ela fosse um personagem. A seleção de faixas, que envolve rock, jazz, reggae, pop e outros ritmos, ajuda o britânico a contar a trama. Um exemplo é quando ele combina a música com o que está aparecendo no plano de fundo (um recurso muito utilizado por ele), como quando pichações e palavras que combinam com a letra de uma canção aparecem no fundo de tela, durante um plano sequência. Elas também participam de forma mais ativa da trama, sendo bem presentes durante alguns diálogos, além de permitir que sacadas irônicas e engraçadas aconteçam por meio dessa interação – por exemplo, é bem legal perceber quantas das faixas da trilha sonora têm a palavra “baby”, algo que o próprio longa chega a brincar. A harmonia entre a música, a narrativa e as ações dos personagens é digna de musical, mas sem a necessidade da história ter que parar para que todos comecem a dançar.

Por falar nisso, os números de dança são substituídos por perseguições em alta velocidade, correria e ação bem feita, mas nunca entregue de forma exagerada. De certa forma, essas sequências lembram a dança, a medida que elas aparentam ser coreografadas, com momentos que combinam perfeitamente com a trilha sonora. É, até o momento, a melhor demonstração do que Wright pode fazer no quesito, mostrando que ele conseguiu evoluir ao longo da carreira. A fotografia clara e cheia de cores vívidas lembram obras como La La Land, ajudando a tornar a produção ainda mais bonita.

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Perseguições de qualidade são um dos grandes trunfos do filme.

Se Wright comete algum erro, ele ocorre na direção de atores, que não está tão afiada quanto em seus outros trabalhos. Kevin Spacey parece que está em piloto automático, com a mesma pegada de House of Cards e, mesmo isso combinando um pouco com seu papel, ele poderia ter entregado um pouco mais. Jon Bernthal (Demolidor, O Contador) é desperdiçadíssimo, sendo que parecia ser um personagem interessante.

Mas, claro, há atuações dignas de nota. Ansel Elgort mostra sua competência mais uma vez, desta vez sendo protagonista e segurando a obra sem problemas, incorporando muito bem o espírito brincalhão do filme, mas sendo dramático quando necessário. A química com Lily James pode não ser redondinha, mas funciona o suficiente para formar um casal crível, com a atriz também fazendo um bom papel. Jon Hamm apresenta um coadjuvante de presença, funcionando bem ao lado de Eiza González. Mas a interpretação mais divertida e memorável fica com Jamie Foxx, bem despirocado, conseguindo ser engraçado e ameaçador ao mesmo tempo. Uma atuação e um personagem digno da filmografia de Edgar Wright.

Ansel Elgort;Jon Hamm;Jamie Foxx;Eiza Gonzalez

Em Ritmo de Fuga pode ser o melhor filme de Wright até o momento – apesar de, particularmente, ainda preferir Scott Pilgrim contra o Mundo. É, até o momento, seu maior sucesso comercial – já faturou quase US$ 120 milhões no mundo todo até agora, e é bom que mais pessoas estejam reconhecendo seu trabalho. O longa serve como prova da qualidade das história de Wright, e de como ele consegue fazer o mix de diferentes gêneros. Mal posso esperar pelo seu próximo projeto.

Nota: 8/10.

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