O Estranho que Nós Amamos

“Ritmo lento e falta de personalidades distintas prejudicam novo longa de Sophia Coppola”

Por Luís Gustavo Fonseca

Durante a Guerra Civil Americana, algumas meninas e mulheres habitaram o internato dirigido pela senhora Martha Farnsworth (Nicole Kidman), apesar do conflito entre os estados da União e os Confederados cercarem o local. A rotina delas é alterada quando a jovem Amy (Oona Laurence) resgata o cabo da União John McBurney (Colin Farrell), levando-o ferido para o internato. Mesmo se tratando de um inimigo, Martha e as demais moradoras concordam em dar um abrigo a John, ao menos enquanto ele recupera de seus ferimentos, para depois entregá-lo às autoridades. A medida que o oficial permanece lá, entretanto, as mulheres criam sentimentos por ele, o que resulta em uma trama de desejo e traição.

Dirigido e roteirizado por Sophia Coppola, a obra patina entre acertos e erros. Na direção, ela acerta, sobretudo, na ambientação, transmitindo a sensação de que aquele recanto está imune ao conflito, mesmo sendo possível ouvir o som dos canhões à distância. Auxilia nesse quesito a fotografia, que transmite aquela sensação de historicidade e realça as cores do ambiente, sejam as mais claras ou mais escuras. Um destaque são as cenas gravadas à noite no interior da casa, que valorizam a iluminação produzida pelas velas e reforçam a imersão criada.

The Beguiled

Entretanto, a diretora peca no enquadramento e na maneira que ela posiciona a câmera. Por várias vezes, ela opta por takes mais abertos, que seriam melhores aproveitados se fossem close fechados, o que valorizaria as expressões mais dramáticas dos atores. Sophia também alterna entre bons e maus momentos no roteiro. A premissa é boa e é interessante como as relações dentro da casa – sobretudo, entre as mulheres – vai se alterando, o que que acaba revelando mais sobre cada um dos personagens e, assim, aprofundando-os.

Mas a execução não é tão acertada. O texto passa por dois momentos distintos, começando de forma mais dispersa e desinteressante e ganhando melhor forma no fim. Os primeiros dois terços do longa são bem arrastados (o que é até uma característica dos filmes de Sophia, caso de Encontros e Desencontros), mas O Estranho é ainda mais devagar (e isso porque a produção tem apenas 1h30!), o que passa uma sensação de cansaço. Se, por um lado, isso pode ser defendido porque, para o espectador, a vida que as personagens levam é demasiada pacata (e,de fato, não havia muito o que fazer no internato), por outro, essa sensação de cansaço existe porque  os personagens não tem uma personalidade marcante.

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São várias mulheres na casa, mas somente as interpretadas por Kidman, Kirsten Dunst e Elle Fanning são (um pouco) mais marcantes. Como as motivações se assemelham, uma maior diferenciação entre elas seria bem vinda, mas isso não acontece. Com isso, torna-se mais difícil de se envolver com as personagens e, assim, comprar o drama principal do enredo. Na última meia hora, contudo, o ritmo melhora e a dinâmica como um todo se torna mais agradável, sendo o momento em que a obra mais acumula acertos. Se ao menos tivéssemos mais dessa pegada no restante do filme…

Por fim, as atuações são, no geral, medianas, sem grandes destaques – talvez porque o roteiro impeça uma melhor exploração das interpretações. Colin Farrell e Nicole Kidman são os que entregam um resultado mais expressivo e marcante, mostrando alguma variação de atuação no longa. O restante acaba desperdiçado, o que é uma pena, já que a parceria entre Kirsten Dunst e Sophia Coppola rendeu uma boa atuação da atriz em As Virgens Suicidas. Por falar nisso, é curioso como o papel da Ellen Fanning aqui lembra um pouco o da Dunst em Virgens, apesar de não ter o mesmo peso e presença. No final das contas, a obra pode até ser uma boa atualização do longa de 1971, mas fica aquém do que poderia se esperar de um filme de Sophia Coppola.

Nota: 5,5/10.

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