Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

“Roteiro inchado e atuações medianas são pontos fracos de obra visualmente estonteante”

Por Luís Gustavo Fonseca

A adaptação da HQ francesa Valerian acontece justamente em uma época em que os quadrinhos e ficções científicas estão em alta em Hollywood, no que deve ser o momento mais propício para adaptar o material originado do fim da década de 60. Os agentes Valerian (Dane DeHaan) e Laureline (Cara Delevingne) viajam pelo espaço e são responsáveis por manter a segurança das áreas habitadas por humanos e de raças alienígenas aliadas. Ao retornarem de uma de suas missões para Alpha, a tal “Cidade dos Mil Planetas”, tida como um símbolo de paz e harmonia entre as diversas civilizações da galáxia, o casal se depara com um mistério que ameaça a integridade do local e põe em risco a coexistência pacífica das espécies.

O longa é produzido, dirigido e roteirizado por Luc Besson, cineasta francês responsável por sci-fis como Lucy e O Quinto Elemento. Amigo dos criadores de Valerian, o escritor Pierre Christin e o artista Jean-Claude Mézières, a produção era um projeto pessoal para Besson, que consegue, ao menos em parte, entregar um bom resultado. O ponto máximo do filme fica em seu visual, tanto na ótima fotografia, que tem uma paleta de cores vívidas e que torna ainda mais bonito aquele universo (as cenas filmadas na praia saltam aos olhos), quanto nos efeitos visuais e no design de produção, deslumbrantes e que permitem uma imersão muito maior na história. Existe uma riqueza de detalhes nas variadas raças alienígenas que aparecem no decorrer da história, algo que lembra o que já se viu em filmes como Avatar, Star Trek e Star Wars – apesar de que, como os quadrinhos têm 50 anos, é mais provável que a HQ tenha servido de inspiração para esses franquias.

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A construção de universo e algumas ideias com a cara do sci-fi, como é o caso do mercado interdimensional no deserto (aliás, que genial!), são outro ponto forte, já que o espectador consegue apreender muitas das informações sobre aquele universo sem a necessidade de um diálogo expositivo que faça isso. A cena de abertura é um grande exemplo, uma vez que ela transmite uma ideia de paz e cooperação entre os humanos e dos humanos com as demais espécies, mas desprovido de fala. A trilha de Alexandre Desplat (O Grande Hotel Budapeste) talvez não seja memorável, mas tem presença e ajuda a ambientar o longa. As cenas de ação, na maioria das vezes, são satisfatórias, mas ficam aquém de outras sequências que o diretor já comandou, como no caso de Lucy e Leon: O Profissional.

Entretanto, Besson falha no roteiro. O universo apresentado é rico e permite várias possibilidades, mas o enredo se revela previsível e não sai do lugar comum – o mistério que deveria cercar a obra pode ser resolvido antes da metade. O principal problema no quesito é a barriga desnecessária que a obra coloca em seu segundo ato, criando uma side quest para os protagonistas que em nada se relaciona com o enredo principal. Pior: a intenção era aprofundar a relação do casal, mas o texto erra feio na premissa, uma vez que não consegue desenvolver essa interação e desperdiça minutos preciosos. A duração, que é de 2h17, poderia facilmente ser meia hora mais curta, dinamizando o enredo e não permitindo que haja cansaço para o espectador. Colabora para isso, além do tempo, a edição, que por vezes alterna entre os diferentes núcleos de forma desorganizada e atrapalha ainda mais o ritmo.

VALERIAN AND THE CITY OF A THOUSAND PLANETS

Outro problema do roteiro é que ele tem dificuldades para desenvolver os personagens e, consequentemente, suas relações, em especial a de Valerian e Laureline. A medida que a história se desenrola, eles voltam para a discussão sobre os mesmos problemas de relacionamento que os dois atravessam, não saindo do lugar. Isso prejudica as atuações, que no geral, são medianas. A química entre Dane DeHaan e Cara Delevingne funciona na maior parte do longa, mas individualmente, ela se sobressai um mais do que ele. No que o roteiro permite, Delevingne explora melhor as diferentes facetas da personalidade da  personagem, carregando melhor a história do que DeHaan. Nem chega a ser um problema do trabalho ator (o que é o caso do elenco todo), mas do texto que não o desenvolve melhor.

Entre os outros nomes principais, Rihanna faz um número de dança bacana, mas não acrescenta muito a história, uma vez que sua personagem aparece justamente na parte mais dispensável do enredo. Clive Owen está bastante caricato e, em certos momentos, até desconexo do tom da obra como um todo, mas ainda acho que ele se adequa a história e entrega uma atuação razoável, mas que poderia ter sido melhor explorada. Finalmente, mesmo com apenas dois minutos de tela, Ethan Hawke entrega um dos personagens mais marcantes do enredo, mostrando que se divertiu em seu papel.

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Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é competente ao apresentar um universo carregado de um sci-fi dos bons, com detalhes e possibilidades que têm potencial para evoluir bastante. Para isso, contudo, é necessário um bom retorno na bilheteria, missão que não será fácil para a produção de U$210 milhões – é o filme mais caro da história da França. Até agora, no mundo todo, o longa arrecadou U$ 89 milhões. Se uma continuação da franquia não ocorrer, ao menos a obra tem mérito em conseguir despertar, em parte de seu público, o interesse em conhecer melhor os Mil Planetas (e outros mundos) por meio da HQ.

Nota: 6/10.

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