Quando um medroso resolve assistir It: A Coisa

Por Luís Gustavo Fonseca

Eu sou uma pessoa medrosa, que se assusta facilmente. Cagão de primeira qualidade. Se você já reparou a ausência de textos sobre filmes de terror aqui, o motivo é este. Sou daqueles (raros, talvez) que fecha os olhos e tampa os ouvidos na iminência de um jump scare, ou quando a trilha se silencia subitamente e você sabe que as coisas não vão dar certo para os personagens que se encontram naquela situação. Pior do que tomar o susto na hora, é você ficar impressionado com o monstro/demônio/fantasma/capeta não importa o que seja, e ficar receoso de sonhar com isso. Porque acordado você pode se distrair e ver que não tem nada ali, mas fugir dessas criaturas no sonho é outra coisa. Percebo agora o quão bem elaborado é o conceito do Freddy Krueguer.

Mas o que acontece quando alguém com esse perfil resolve ver It: A Coisa, o filme de terror do momento baseado no grande CALHAMAÇO escrito por Stephen King? Bem, certamente uma mistura de emoções bem curiosa e rica. A obra, que se passa em 1989, acompanha um grupo de adolescentes, conhecidos como Clube dos Perdedores, que se vê obrigado a enfrentar um temido (para não dizer macabro) palhaço, Pennywise, quando diversas crianças começam a sumir na pequena cidade de Derry.

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A cara de SAFADO desse palhaço de quem vai te aterrorizar por um BOM tempo

E o longa é, de fato, assustador. O que, por incrível que pareça, eu achei ÓTIMO! Ao longo de suas 2h15 de duração, foram inúmeras as vezes que o filme me pegou com a guarda baixa e deu sustos louváveis. (A próxima frase contém pequenos spoilers, se você não viu, pule-a). Sequências como a do porão inundado, a do retroprojetor ou a da casa mal assombrada (literalmente), para não dizer a do sumiço do pequeno Georgie, logo no ínicio, são de tirar o fôlego e arregalar os olhos. O visual impressiona não apenas pela criatividade e a qualidade ao representar os medos de cada um dos personagens, mas também por ousar em um trato visual mais pesado e macabro, com direito a sangue e uma dose de gore.

Além da própria história, a ambientação e a condução da obra também foram fundamentais em causar toda a adrenalina e o frio na barriga necessários para entreter e assustar o espectador. Méritos ao trabalho do diretor argentino Andy Muschietti (“Mama”), que faz isso muito bem. Algo que chama a atenção é a mistura proposta pela produção: as cenas mais pesadas que te assustam e criam aquela tensão em cenários escuros são alternados com momentos mais leves, com uma atmosfera que lembra fortemente filmes do Steven Spielberg na década de 80. Esse mix funciona, já que ele explora melhor os jovens nesses momentos mais leves, ao mesmo tempo em que não banaliza o terror e seus momentos mais tensos.

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Aquele grupo de jovens que você respeita.

Não que eu ache que o filme seja impecável. Sinto que o ritmo do longa é desajustado. O primeiro ato se perde um pouco na apresentação (alguns dos jovens são apresentados no começo e só ganham maior relevância da metade pra frente), e apresenta uma variedade de subtramas que acabam sendo pouco desenvolvidas. O Clube dos Perdedores já é formado por sete membros, mas o enredo ainda tenta encaixar um arco dramático para um dos bullies dele. Num livro de mais de mil páginas, isso deve ficar melhor explorado, mas aqui não é o caso.

Pelo menos, esse problema é diminuído graças às atuações das crianças, com cada uma apresentando suas peculiaridades e conseguindo cativar o público. Entretanto, o grande destaque fica para Bill Skarsgård, interprete do palhaço maldito. Perturbador e aterrorizante, seja no movimento corporal, na fala (“Do you want a baloon, Georgie?”) e nas feições, ele exerce tão bem a função de causar medo (e, em alguns momentos, de ser engraçado também!) que eu queria que o filme tivesse o explorado mais.

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Nem a luz do Sol e ambientes abertos de protegem desse demônio. RUN, FOREST, RUN!

No final, ter encontrado a coragem para ir ver It: A Coisa nas telonas foi mais gratificante do que eu poderia imaginar. Sim, foram vários sustos, olhos fechados, imagens horripilantes que ficam na mente, medo de encontrar o Pennywise na volta pra casa ou de sonhar com os acontecimentos do filme. Mas é uma daquelas experiências que compensam ir ao cinema. Todo aquele ambiente escuro, a trilha lá no alto (excelente, por sinal, e ela te assusta mesmo só de ouví-la), a tela grande, melhor ainda na projeção IMAX, tudo isso ajuda a obra a causar algo a mais. Apesar da experiência inovadora, ainda acho difícil repetir a dose com títulos semelhantes. Certeza apenas que quero ver o capítulo dois logo, seja pela continuação, que deve estrear em 2019, ou pelo livro, que criei a vontade de ler. A história não apenas me prendeu, mas me fez flutuar.

E não se preocupe: você vai flutuar também.

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