Mãe!

“Em meio a bizarrices e metáforas, Darren Aranofsky entrega momentos do que tem de melhor, em obra com uma das atuações mais impressionantes da carreira de Jennifer Lawrence”.

Por Luís Gustavo Fonseca

Foi com muita surpresa que eu descobri a existência de “Mãe!”, uma vez que a divulgação do filme, de forma mais enfática, começou mesmo nos últimos dois meses para a estreia do longa nos cinemas. O próprio material liberado, inclusive, pouco conta sobre a trama, revelando apenas que a vida do casal interpretado por Jennifer Lawrence (“Passageiros”) e Javier Bardem (“Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar”) é drasticamente alterada com a chegada de visitantes indesejados, levando-os a uma jornada de grandes mudanças.

Maior do que a surpresa em saber sobre a existência do filme, foi descobrir que a obra foi dirigida e roteirizada por Darren Aranofsky, cineasta responsável por longas como “Réquiem para um Sonho” e “Cisne Negro”, e que vinha do contestado “Noé” (que, inclusive, continuo gostando). Ao observar sua filmografia, é perceptível como o diretor trabalha, em seus filmes, problemas como obsessão (caso de “Pi”, “Fonte da Vida” e “Cisne Negro”, por exemplo) e vício (“Requiem para um Sonho”). Em “Mãe!”, ele retorna a temática da obsessão, porém de uma maneira mais velada, assim como abordado em “O Lutador”, apesar de este ainda ser um componente fundamental para a história.

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Antes de aprofundar um pouco mais sobre esse trabalho com o roteiro, gostaria de destacar como a direção de Aranofsky é brilhante em ser perturbadora. O diretor consegue te incomodar não (apenas) pela história, ou pelo o que os personagens dizem ou fazem, mas pela maneira como ele filma tudo. Ângulos obtusos, com a câmera posicionada nos cantos dos ambientes; planos detalhes em gestos e objetos; a câmera colada no rosto dos atores; o posicionamento da câmera atrás dos personagens, dando a impressão de que o peso do mundo está em suas costas (técnica brilhantemente utilizada em “O Lutador” e “Cisne Negro”), são algumas das características que causam incômodo no telespectador. Em “Mãe!”, as duas últimas características citadas são as que mais se destacam, sendo elas que ajudam a criar uma atmosfera tensa e aflitiva. Ambientação que é reforçada pela ausência de trilha sonora na obra, o que evidencia cada um dos rangidos, barulhos misteriosos e objetos se quebrando na casa onde reside o casal. Uma ótima faceta do suspense psicológico.

O roteiro é a parte mais controversa da produção, uma vez que ela apresenta dois momentos distintos. A primeira metade é mais focada na construção da tensão e nos conflitos entre os personagens. De certa forma, assemelha-se à condução de “Ao Cair da Noite”, outro bom suspense deste ano. Mas é na segunda metade que o filme abraça o absurdo e entra de cabeça em um campo de licenças poéticas, metáforas e interpretações variadas. Nada de novo para quem tem a filmografia de Aranofsky, mas talvez seja a vez em que ele entregou isso de forma mais confusa e, por isso, mais inacessível.

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É provável que criar essa sensação de desentendimento seja a intenção (nem tentarei fingir que compreendi a última meia hora, admito não ter intelecto para isso), o que abre espaço para interpretações diversas. É possível perceber várias metáforas no último ato, que com todo seu surrealismo, trabalha temas como o cristianismo e a imagem da figura Jesus Cristo ou o feminismo e a maneira como a sociedade se comporta (e eventualmente, pune) o papel da mulher / mãe. Se, por um lado, essa densidade enriquece a obra, por outro, a condução desse momento mais metafórico não é feito com a mesma excelência de trabalhos anteriores de Aranofsky, o que prejudica seu entendimento por parte do público, ao mesmo tempo em que prejudica a dinâmica do longa como um todo.

O trabalho do elenco é outro bom ponto da produção, apesar de que esperava uma atuação melhor de Javier Bardem, um dos nomes de destaque entre os atores. A participação de Michelle Pfeiffer (“A Família”) é uma das grandes surpresas, com ela entregando uma personagem forte e marcante. Quem rouba o espetáculo, entretanto, é Jennifer Lawrence, no que deve ser uma de suas três melhores atuações na carreira. Em um único papel, ela alterna entre momentos de inocência, compaixão, desespero, imposição, fragilidade, além do filme exigir da parte física da atriz. Lawrence é o pilar emocional da trama, e ela consegue tomar esse protagonismo para si e carregar a obra sem problemas. Ela se junta a outras grandes atuações presentes em longas do diretor, unindo-se a Ellen Burstyn, Hugh Jackman, Mickey Rourke e Natalie Portman.

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É provável que não exista um meio termo em relação à “Mãe!”: ou você gosta e aprecia a jornada no momento, saindo da sessão querendo saber mais sobre as diferentes interpretações, ou é possível que ache o longa tão viajado que acaba não se conectando à história e os personagens. É, mesmo que não esteja em sua melhor forma, não deixa de ser um trabalho típico de Aranofsky: perturbador, reflexivo e intrigante. Características que espero que ele não abra mão em seus próximos projetos.

Nota: 7,5/10.

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