Kingsman: O Círculo Dourado

Continuação de paródia sobre filmes de espionagem ainda diverte e tem ótimas cenas de ação, mas não repete o brilho do original”.

Por Luís Gustavo Fonseca

Kingsman: O Círculo Dourado” marca a primeira continuação da carreira do diretor Matthew Vaughn, responsável pela direção e roteiro da produção (que ele escreve ao lado de Jane Goldman). Eu sempre tive um particular interesse em como seria uma continuação feita por Vaughn, uma vez que ele já criou excelentes filmes de origem como “Kick-Ass”, “X-men: Primeira Classe” e o próprio “Kingsman”. Sem a necessidade de apresentar um universo e os principais personagens, suspeitei que ele poderia expandir o universo de forma bem detalhada e empolgante. E em “Círculo Dourado”, ele consegue, ao menos em parte, corresponder a essa expectativa.

Na trama, as bases de operações da Kingsman são completamente destruídas por todo o Reino Unido. Sem recursos e com poucas pistas, Eggsy (Taron Egerton) e Merlin (Mark Strong) devem ir para os EUA e pedir o auxílio dos Statesman, a Kingsman estadunidense. Com a ajuda dos agentes Uísque (Pedro Pascal) e Ginger (Halle Berry), além de um mentor do passado, o grupo deverá realizar todos os esforços para impedir que os planos megalomaníacos de Poppy (Julianne Moore) se concretizem.

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A grande sacada do primeiro longa e que ajudou a obra a se tornar uma agradável surpresa para a Fox é a forma como “Kingsman” parodia o gênero de filmes de espionagem, subvertendo a forma como a temática foi trabalhada nos anos 2000. Em um período em que produções como “Jason Bourne e o 007 estrelado por Daniel Craig investem em uma abordagem mais séria e pés no chão, “Kingsman” aposta no absurdo, nas cores e numa ação um tanto inconsequente e bem humorada que prioriza a diversão do telespectador.

KINGSMAN: THE GOLDEN CIRCLE

No que é referente a direção, a execução de Vaughn apresenta o mesmo bom nível de seus outros trabalhos. O modo como ele filma e dinamiza as cenas de ação é uma assinatura única, mesclando cortes rápidos com uma filmagem que parece, a todo momento, aumentar e diminuir a velocidade, criando uma dinâmica visual peculiar e agradável. Devido aos vários close-ups que caracterizam essa filmagem, é possível até se perder em alguns momentos das cenas luta (bem coreografadas, aliás), mas o resultado final é limpo, compreensível e cheio de cores, uma vez que a fotografia valoriza as diversas tonalidades presentes nas cenas, e o 3D, que nada acrescenta, não atrapalha nesse sentido.

Porém, tirando aquela sensação de novidade e ineditismo que marcaram o primeiro “Kingsman”, nota-se que o resultado presente na continuação não causa o mesmo impacto, apesar de ser bom. O melhor exemplo é a homenagem ao (já clássico) segmento da Igreja do primeiro, que é visceral e marca o ápice da qualidade de ação do filme. Aqui, mesmo usando a mesma técnica e estilo (inclusive o “plano sequência”), a cena não causa a mesma empolgação. É algo parecido ao que ocorreu com as aparições do Mercúrio em “X-men: Dias de um Futuro Esquecido” e “X-men: Apocalipse”. Eu acho até injusto exigir que ele reproduza aquilo. Afinal, um dos fatores que torna a cena da Igreja tão especial é que justamente só ela é daquele jeito. Entretanto, de uma maneira geral, a ação deste está aquém ao do seu antecessor, salvo o clímax, que acho que consegue ter sequências melhores e mais bem trabalhadas.

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Sempre considerei que uma das qualidades de Vaughn o trabalho que ele tinha na direção do elenco, sobretudo os atores coadjuvantes. Nicolas Cage, Chloe Grace-Moretz, Kevin Bacon e Samuel L. Jackson são alguns exemplos de quem interpretou personagens secundários, mas que acabaram roubando a cena para si. E em Círculo Dourado”, no que é um dos seus elencos com melhores nomes de sua filmografia, isso é deixado de lado. Entre os que retornam, Taron Egerton (“Sing: Quem Canta Seus Males Espanta”) e Mark Strong (“Armas na Mesa”) estão com uma dinâmica mais acertada e parecem mais à vontade nos papéis. Colin Firth (“O Mestre dos Gênios”) , uma surpresa que, infelizmente, os trailers entregaram, também retorna bem e apresenta um outro lado de Galahad.

Dos novatos, a sensação de desperdício fica mais evidente. Atores como Channing Tatum (“Ave, César”) e Jeff Bridges (“A Qualquer Custo”) são pouco aproveitados, o mesmo servindo para Halle Berry (“O Sequestro”). São dois ganhadores de Oscar que poderiam acrescentar muito mais a produção. Por outro lado, Pedro Pascal (da série “Narcos”) consegue divertir e se encaixa muito bem no tipo de humor da produção, proporcionando um personagem carismático (a arma utilizada pelo agente, um laço, só ajuda a torná-lo mais badass). Julianne Moore (“Jogos Vorazes: A Esperança – O Final”) também é outro bom adendo, com a atriz sabendo interpretar a cômica mistura entre uma postura simpática e dócil com mente sádica e assassina.

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O roteiro é outro problema, uma vez que ele tenta contar muitas histórias, mas sem ter um foco definido. Isso resulta numa trama “estufada”, com mais elementos presentes do que deveria ter. A história se esforça para acompanhar ao menos três núcleos distintos: o plano de Poppy, a ofensiva da Kingsman contra a vilā e as dificuldades de Eggsy conciliar seu trabalho com sua vida amorosa. A alternância entre esses plots é feita de maneira confusa e sem esmero na edição, o que prejudica o ritmo do longa e sua dinâmica como um todo e acaba desenvolvendo alguns desses segmentos apenas de maneira superficial. Assim, os 10 minutos a mais de projeção (agora, são 2h21 de filme, contra 2h09 do primeiro) passam a impressão de se arrastarem bem mais, não aproveitando melhor o tempo extra.

Não que o texto seja incapaz de divertir e prender a atenção, pelo contrário. Os diálogos, piadas e situações mirabolantes (destaco todas as cenas que têm o cantor Elton John, simplesmente fantásticas) continuam engraçadas e com a mesma vibe do original. O grande plano megalomaníaco de Poppy é tão inimaginável e surreal quanto o de Valentine no anterior, mas traz a tona uma discussão inusitada e pertinente, conseguindo conciliar um assunto sério com o viés de absurdo da obra. Além disso, Vaughn e Goldman conseguem expandir o universo, abrindo portas para novas possibilidades em um vindouro terceiro filme.

Finalmente, o segundo “Kingsman“, mesmo não estando no mesmo nível do primeiro, cumpre o objetivo de divertir e até mesmo de emocionar (a canção “Take Me Home, Country Roads” é o ponto alto da trilha sonora). Um terceiro longa é bem provável e a tendência é que esse universo fique cada mais rico e, torço, despirocado.

Nota: 6,5/10.

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