Blade Runner 2049

“Denis Villeneuve consegue cumprir a difícil missão de entregar uma continuação à altura do clássico de 1982”.

Por Luís Gustavo Fonseca

Blade Runner” é um dos mais icônicos exemplos de um reconhecimento tardio. Lançado em 1982, o filme foi um desastre de bilheteria, mas ao longo dos anos, transformou-se em um cult adorado por fãs e causou uma revolução dentro do gênero de ficção científica. Entre suas muitas versões, a produção de Ridley Scott tornou-se referência e influenciou obras como “Ghost in the Shell” e “Matrix”. Trinta e cinco anos após o seu lançamento, o longa ganha uma continuação que promete expandir o mundo habitado por humanos e replicantes.

A trama acontece 30 anos depois do primeiro filme, sendo que aquele universo passou por mudanças importantes. Após o lançamento do modelo Nexus-8 dos replicantes, que tirava uma data de expiração dos robôs, um grande blackout prejudicou a sociedade e acirrou as diferenças entre humanos e replicantes, fazendo com que a produção dos Nexus-8 fosse interrompida permanentemente e os modelos restantes, caçados (você pode entender melhor como isso aconteceu assistindo o curta “Blackout 2022”). Com o passar do tempo, Niander Wallace (Jared Leto) conseguiu permissão do governo para criar novos modelos, 100% obedientes (como o curta “2036: Nexus Dawn” demonstra). K (Ryan Gosling) é um desses novos replicantes, e a sua jornada como blade runner dos modelos Nexus-8 o levará a resolver um mistério que pode alterar a forma como os humanos e os replicantes convivem.

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A continuação é dirigida por Dennis Villeneuve (“A Chegada”), um dos melhores diretores a emergir nesta década e o principal fator que me empolgava para este projeto. De uma maneira geral, considero que ele consegue cumprir a missão de entregar uma continuação complicada, de um clássico tão grande, apesar de não considerar um de seus melhores trabalhos, em que suas características estõa mais acirradas. Suas obras sempre tiveram um grande caráter de imersão, de algo que coloca o espectador dentro da história. Aqui, essa imersão existe, como por meio de seu posicionamento de câmera, que proporcionam planos longos e abertos, além de tomadas panorâmicas que demonstram a grandiosidade daquele universo, mas não em um grau tão forte como ele demonstrou antes.

O grande diferencial fica por conta da fotografia de Roger Deakins (“Ave, César!“), que é de uma beleza estonteante e a melhor característica da obra. Não apenas em relação ao modo que ele trabalha as cores na obra (laranja, branco, azul, cinza), mas as resoluções visuais que ele encontra para realizar cenas como a de duas pessoas ocupando um mesmo espaço e tendo seus movimentos sincronizados. Se ele não ganhar um Oscar (após ter sido indicado 13 vezes!) agora, ele nunca ganhará.

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Roger Deakins é um monstro no trabalho com a fotografia.

O que talvez tenha colaborado para que essa imersão não fosse tão grande é o enredo. Essa é a parte difícil. A história levanta vários pontos dignos de boas discussões: o que significa ser um humano, até onde uma máquina pode sentir e seguir a sua programação, quais são as características que determinariam a diferença entre as duas espécies, a maneira como a humanidade escraviza seu semelhante, entre outros. Mesmo que não sejam discussões originais, é uma forma do enredo expandir o universo mostrado em seu antecessor, trazendo novas perspectivas sobre os debates e evoluindo as reflexões provenientes deles.

Mas a obra cansa. Você sente todos os 163 minutos de filme, já que ele tem o ritmo idêntico ao do original – se o primeiro, com 2h, já pesava, imagine este! Por um lado, é até corajoso um blockbuster como esse propor-se a adotar um ritmo tão cadenciado e distinto de outras produções de grande porte. Porém, para qualquer um que não tenha o original em grande estima, o ritmo arrastado pode ser um desafio e, portanto, causar desinteresse. Por mais que seja bonito contemplar aquele mundo, há várias cenas que são mais longas do que o necessário, o que cria uma “gordurinha” de no mínimo 20 minutos que poderiam ser cortados.

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Vários takes poderiam ser quadros. Novamente, Deakins BRILHA no longa

Pelo fato da trama se debruçar muito sobre o arco pessoal de K, sinto que Ryan Gosling (“La La Land”) é o único ator que a obra aproveita ao máximo. A atuação dele se destaca por ele conseguir apresentar, no decorrer da história, tanto um lado mais frio, inexpressivo, com momentos mais emocionais e humanos, o que colabora para que o espectador compre o drama do personagem.

Ana de Armas (“Cães de Guerra”), como a inteligência artificial Joi, e Sylvia Hoeks (“O Melhor Lance”), como a replicante Luv, são boas surpresas neste quesito. Mesmo achando que Harrison Ford (“Star Wars: O Despertar da Força”) fosse aparecer mais, a participação do ator é bem vinda e traz um peso extra a história. Todavia, o restante do elenco acaba desperdiçado. Robin Wright (“Mulher-Maravilha”) tem uma participação pontual,  mas poderia entregar mais. Dave Bautista (“Guardiões da Galáxia vol. 2”) também tem poucas cenas. A grande decepção é Jared Leto (“Esquadrão Suicida”), não por ele atuar mal, mas por aparecer em, no máximo, três cenas. O personagem dele parecia ser muito importante para a trama, mas acaba ficando de lado no desenvolvimento da história.

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Em relação aos efeitos especiais e outros elementos do design de produção, mesmo não julgando como algo de outro mundo, o resultado da obra é muito bom e apresenta esmero, conseguindo mostrar, na criação de seus diversos cenários, uma evolução coerente dentro daquele universo – só o 3D que, para variar, nada acrescenta. Uma indicação ao Oscar é provável, apesar de ter minhas dúvidas se é o suficiente para levar a estatueta. A trilha de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch (“Dunkirk”) é outro ponto bom. Entretanto, não acho que a dupla consegue emular muito bem o tom e o nível imersivo do trabalho feito por Vangelis no original, o que causa uma certa estranheza, como não estivesse encaixando com aquilo tudo. A composição presente no clímax é onde penso que há a melhor combinação entre a assinatura de Zimmer e a  pegada do original.

Finalmente, confesso que fiquei um pouco frustrado com o resultado final, em parte pela expectativa que criei sobre o filme. Entretanto, penso que Villeneuve passou no teste de fazer um blockbuster desse tamanho, conseguindo, ainda, manter um forte viés autoral, ao mesmo tempo que respeita o longa original e seu universo. Ele merece aplausos, sobretudo, por Blade Runner 2049 ser uma continuação difícil de ser realizada, de um filme que não necessariamente exigia uma sequência, apesar do universo apresentar várias possibilidades. Acredito que mesmo Ridley Scott não conseguiria entregar algo mais satisfatório (sobretudo se pensar que a única coisa realmente boa que ele fez nesta década foi “Perdido em Marte“). Se a sequência será lembrada e posta no mesmo patamar do original, só o tempo poderá dizer. Mas de forma alguma ela se perderá no tempo como lágrimas na chuva (você realmente pensou que eu ia deixar de fazer esse trocadilho, não é?).

Nota: 8/10.

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