Boneco de Neve

Edição confusa e clima de desinteresse prejudicam potencial de um bom mistério.”

Por Luís Gustavo Fonseca

Às vésperas da escolha da cidade que irá sediar os próximos Jogos Olímpicos de Inverno, a tranquila cidade de Oslo, capital da Noruega, torna-se o centro de um mistério. Mulheres começam a desaparecer, sendo que a única pista deixada pelo raptor é um estranho boneco de neve. Suspeitando de que um serial killer esteja por trás dos sumiços, o detetive Harry Hole (Michael Fassbender), com a ajuda da policial recém chegada na cidade, Katrine Bratt (Rebecca Fergunson), inicia uma investigação para resolver o caso antes que os crimes possam atrapalhar as chances da cidade ser a escolhida pelo Comitê Olímpico.

O longa apresenta diversos elementos para a construção de um bom suspense, tais como as pequenas pistas deixadas que aparecem no decorrer da história (sejam elas visuais ou nas falas dos personagens) ou o desenvolvimento do enredo, que leva o espectador a pensar nas diversas formas de solucionar o mistério. Entretanto, a construção do filme é feita de forma desconexa, principalmente devido à fraca edição. Não sei se, no livro que originou o longa, escrito pelo norueguês Jo Nesbø, a narrativa é construída do mesmo jeito, mas a trama na telona avança, na maior parte de seu tempo, de forma dispersa e, portanto, desinteressante.

Isso acontece por que as cenas mudam de um núcleo para outro sem uma conexão direta, havendo saltos na história que criam lacunas sobre o que aconteceu nesse intermeio, dando a sensação de que algo está faltando. E a edição confusa acaba prejudicando, também, o ritmo, que faz com que as 2h de produção se arrastarem, causando um cansaço que não é pago nem mesmo pelo desfecho. Assim sendo, o poder de imersão da história (que, sim, apresenta um mistério intrigante) se dissipa no decorrer da obra.

Um último fator que prejudica o roteiro são os personagens, que, em sua maior parte, são esquecíveis. Existe uma boa sacada logo no início da projeção, que de cara revela fortes indícios do que motiva o assassino, mas é só. A história mostra que Harry é um detetive fantástico, mas é solitário e melancólico (algo como o Deckard de “Blade Runner”), e não desenvolve o porquê dele ser tão fechado.

Uma das possibilidades de desenvolver isso era seu envolvimento com Rakel (Charlotte Gainsbourg), uma ex-namorada de Harry e mãe de um filho por quem ele se importa muito. Por um lado, essa relação é uma estratégia que humaniza o protagonista, mas assim como os saltos temporais causados pela edição, a sensação é de que há alguma informação importante sobre esse relacionamento que está faltando.

A contra parte de Harry, Katrine, também pouco cativa. Para além do arquétipo de “novata antenada em novas tecnologias e que quer provar suas qualidades para o seu ídolo”, a subtrama que ela se envolve, apesar de colocar uma camada extra de complexidade e profundidade na trama, é outra que é atrapalhada pela edição.

E essa questão do enredo não ser marcante (ou se apresentar como desinteressante) não é exclusividade do roteiro. A direção de Tomas Alfredson (O Espião que Sabia Demais) tem a mesma pegada de não mostrar algo mais chamativo, o que reforça a sensação de lentidão da produção a um ponto entediante. Isso poderia ser contornado, por exemplo, com algum posicionamento ou movimento de câmera que trabalhe o psicológico do espectador em relação ao mistério do longa, algo como observado no thrillerAo Cair da Noite”, também deste ano.

Em um longa marcado pelo desperdício de potencial e pelo caráter de desinteresse, não causa surpresa que isso também reflita nas atuações. Bons nomes, como J.K Simmons (Liga da Justiça) e Toby Jones (Atômica) são deixados de lado. O personagem de Val Kimer (De Canção em Canção), pelo menos, tem características mais marcantes, mas também só tem uma participação pontual na produção.

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Rebecca Fergunson (Vida) não tem a mesma presença de espírito que mostrou, por exemplo, em Missão: Impossível – Nação Secreta, mais devido ao roteiro do que por causa da atriz. E essa deve ser a interpretação menos marcante de Michael Fassbender (Alien: Convenant) dos últimos anos – e isso levando em conta Assassin’s Creed. Por viver um personagem excessivamente inexpressivo (num nível Ryan Gosling), o longa perde a chance de explorar a capacidade do ator em extravasar suas emoções.

O ponto mais alto de Boneco de Neve pode ser a trilha de Marco Beltrami (Logan), que mais se esforça para entregar a imersão que o suspense exige, sabendo colocar uma trilha tensa (e não monótona) nos momentos adequados. Contudo, isso não é o suficiente para colocar no mesmo patamar de suspenses baseados em livros dos últimos anos, como Garota Exemplar e A Garota no Trem. Pior: talvez não seja o suficiente para que desperte o interesse no público de conferir o livro após assistir o filme. Essa é a pior derrota da produção.

Nota: 4/10.

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