Assassinato no Expresso do Oriente

Kenneth Branagh consegue modernizar e dar traço autoral à clássica história policial de Agatha Christie.”

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Ao receber o chamado para resolver um caso em Londres, o detetive belga Hercule Poirot (Kenneth Branagh), o melhor do mundo em resolução de mistérios, embarca a bordo do Expresso do Oriente na Turquia. O trem, atravessa a Europa, leva consigo uma variedade de passageiros, de origens, personalidades e mistérios variados. Entretanto, quando o Expresso acaba sendo descarrilado após uma avalanche, o detetive se vê diante de um assassinato e deve resolver o caso em que todos no trem são suspeitos.

Talvez o maior desafio para o diretor Kenneth Branagh (“Cinderella”) nem seja a dupla tarefa de dirigir e ser o protagonista da obra, mas sim, de como dar uma roupagem nova e chamativa para uma história tão conhecida. O livro escrito por Agatha Christie em 1934 tornou-se um dos romances mais conhecidos da autora, tendo sido adaptado para os cinemas em 1974, quando foi indicado a seis Oscars e rendeu uma estatueta para a atriz Ingrid Bergman na categoria Melhor Atriz Coadjuvante.

DF-10636_r

Para resolver a questão, Branagh faz o mais “simples” e certeiro: foca em se manter fiel ao livro e em criar elementos de um bom suspense, por mais que parte do público já saiba o desfecho. Nesse sentido, o seu trabalho como diretor é um dos pontos altos da obra, já que seu posicionamento e movimento de câmeras são certeiros. Quando a câmera fica próxima ao rosto dos personagens, ele explora melhor suas reações e eventuais mentiras, o que valoriza o trabalho dos atores.

A sua condução na direção também consegue mostrar muito da história de forma sutil, com enquadramentos que apontam pequenos detalhes para o desenvolvimento da trama. O movimento como um todo é dinâmico e orgânico, como quando Branagh mostra todos os passageiros (e eventuais suspeitos) em um plano sequência, sem a necessidade de que exista um diálogo que apresente cada um deles. A exceção para o esmero acontece nas breves cenas de ação, em que os cortes rápidos e frenéticos acabam confundindo o que está se passando em tela.

DF-09373_RV2

O roteiro é outra questão que funciona na produção, partindo de um ótimo material original. O longa pode demorar a ter o ritmo de um thriller em si e alguns personagens são, propositalmente, demasiadamente caricatos e não tão bem explorados. Todavia, após o acontecimento do crime, o enredo se torna mais ágil e o clima de suspense é melhor aproveitado, o que faz com que as quase 2h de filme não cansem. As motivações e o envolvimento de cada um dos passageiros com a história também são apresentadas com clareza, fazendo com que o mistério prenda a atenção do espectador.

Outra qualidade é a apresentação e desenvolvimento do protagonista. Logo nos primeiros minutos, o texto é certeiro em apresentar as principais características de Poirot, como sua obsessão pelo correto e a ordem, seja em querer encontrar dois ovos que do mesmo tamanho, seja em como como ele vê questões morais como o bem e o mal. Em uma trama cheia de personagens e interesses, o texto não esquece de aprofundar seu protagonista, tornando-o o personagem mais interessante da trama.

DF-07344_RV2

Em um filme cheio de estrelas, tendo nomes como Daisy Ridley, Judi Dench, Wlliem Dafoe, Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Josh Gad, Penélope Cruz, entre outros, as atuações são boas, mas poucas se destacam. O trabalho mais intenso fica com Pfeiffer, que tem um papel mais exigente. A atuação que mais se difere das demais é justamente aquela que o roteiro melhor explora, que é a de Kenneth Branagh. O diretor/ator consegue transpor todas as peculiaridades do personagem, seu perfeccionismo e, ainda, adiciona um toque de humor britânico, que traz um pouco de leveza a produção.

Finalmente, Branagh cria um resultado que respeita o livro, dá uma nova roupagem a história e mais chamativa para novos públicos e, de quebra, inicia uma nova franquia, já que a Fox já está desenvolvendo a sequência, A Morte no Nilo. Resta saber se a continuação irá conseguir ter o mesmo peso, em relação ao elenco, que este primeiro filme, mas o retorno de Branagh a direção – e também ao papel de Poirot – é um sinal de que ela está indo no caminho certo. Os fãs de Agatha Christie não irão se decepcionar com esta versão de “Assassinato no Expresso do Oriente”.

Nota: 7,5/10.

Anúncios

Um comentário sobre “Assassinato no Expresso do Oriente

O que você acha sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s