Star Wars: Os Últimos Jedi

“Sem medo de fracassar, novo filme da franquia tem seus deslizes, mas compensa por ousadia e boas atuações.”

Por Luís Gustavo Fonseca

De todas as formas que é possível perceber a influência de “Star Wars” na cultura pop mundial, poucas delas vão ser tão impactantes como ver dezenas de pessoas indo assistir ao novo capítulo da saga, trajadas com qualquer tipo de vestimenta que se relacione a franquia. Na mesma proporção do que ir ver o seu time de futebol em uma partida, os fãs da série intergalática finalmente puderam matar a curiosidade após dois anos de muitas discussões, teorias e, sobretudo, expectativa, sobre os mistérios e os destinos que aguardam os novos e velhos heróis da saga.

Partindo de onde “O Despertar da Força” parou, o novo longa trabalha em duas frentes: de um lado, os Rebeldes, comandados pela General Leia (Carrie Fisher), organizam uma fuga desesperada das tropas da Primeira Ordem. Um plano que pode não agradar a todos – Poe Dameron (Oscar Isaac) principalmente -, mas que têm o propósito de ganhar tempo para que eles possam contra atacar. Enquanto isso, Rey (Daisy Ridley) foi até o planeta em que Luke (Mark Hammill) estava se refugiando, levando o seu velho sabre de luz na esperança de convencê-lo a se unir os Rebeldes. A visitante desperta o interesse do Mestre Jedi, que, mesmo relutante, concorda em treinar e guiar a jovem nos caminhos e conhecimentos sobre o uso da Força.

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Como toda troca, a saída de J.J. Abrams para a entrada de Rian Johnson (“Looper: Assassinos do Futuro”) vem com ganhos e perdas. O primeiro se preocupou em (re)apresentar a saga (ferida pela terrível trilogia prequel, destaco) para um novo público, com uma roupagem atualizada, personagens novos carismáticos, cheia de referências e com o mesmo espírito de “Uma Nova Esperança”, o que gerou um resultado positivo redondo, porém que apresenta uma estrutura semelhante ao que já foi visto antes- as semelhanças entre os episódios IV e VII me incomodam até certo ponto, mas é algo fácil de se acostumar e perdoar.

Já Johnson, ao meu ver, consegue colocar sua assinatura própria tanto na obra quanto no universo, em uma proposta, até certa medida, mais ousada. Responsável pela direção e roteiro da produção, Johnson brilha no primeiro aspecto. Da grande cena de batalha que abre o filme até os momentos mais introspectivos e pessoais, o diretor garante uma fluência na movimentação das câmeras e no posicionamento dos mesmos. Acharia muito interessante se ele explorasse, a exemplo do que ele fez em seu primeiro filme, “A Ponte de Um Crime”, alguns ângulos mais obtusos, que criam a sensação de profundidade e imensidão, algo que encaixaria perfeitamente com universo e as grandes naves de batalha.

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As cenas de ação, sejam batalhas especiais ou em duelos corpo-a-corpo, são um espetáculo à parte, bem coreografadas e com um ótimo dinamismo. A fotografia da produção é outro grande acerto, com cores vibrantes que nem mesmo o 3D consegue estragar (salvo em duas sequências, em que ele escurece muito). Méritos para Johnson e o diretor de fotografia, Steve Yedlin, que criaram vários dos takes mais bonitos da franquia.

Por falar nisso, algo que sempre foi uma marca da saga e aqui é apresentado, mais uma vez, com esmero e muita qualidade, é a parte referente aos efeitos especiais e o design de produção. Se o 3D, como de praxe, não vale o ingresso mais caro, temos uma das melhores batalhas no espaço de toda a franquia. Não há uma variedade tão grande de alienígenas desta vez, mas os animais, sejam os queridos porgs ou as belas “raposas” de cristal, mostram a competência do departamento de arte de deixar esse mundo mais orgânico e rico. A trilha do mestre John Williams é outro fator importante, misturando temas clássicos com uma pegada que se encaixa com o tom às vezes mais sério, às vezes mais aventuresco, da trama.

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Uma pena que, apesar do visual maneiro, a Capitã Phasma seja, de fato, apenas o Bobba Fett menos legal dessa nova trilogia.

A ousadia de Rian Johnson cobra seu preço no roteiro que, no geral, rende uma história satisfatória – cumpre muito bem as funções de entreter e prender a atenção do público. A produção consegue ser divertida (talvez até um pouco mais engraçada que os demais filmes, mas na medida certa e de um jeito que funciona), mas havendo espaço para momentos mais sóbrios e introspectivos. Muitos desses momentos ajudam no desenvolvimento de figuras centrais na trama, caso de Rey e Luke. A história explora as aflições e insegurança da jovem heroína, permitindo que ela possa encarar seus medos e, assim, crescer como personagem. Diria até que a produção termina com o seu arco bem resolvido, já que Rey parece ter compreendido quem ela é e qual será sua função neste mundo.

O arco de Luke é outro bem amarrado e que tem uma narrativa que se encaixa tão bem, não apenas dentro da obra, mas na história do personagem como um todo. É o Luke que apresenta o maior número de facetas até agora – acolhedor, amedrontado, determinado, relutante, furioso, gentil, sábio, temeroso -, algo que o humaniza e o confere (ainda mais) o status de lenda.

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Mais sábio e importante do que nunca

É, também, de sua trama pessoal que temos uma das lições mais importantes apresentadas pela saga até aqui: “o fracasso é o melhor professor” e, por isso, podemos aprender muito com ele. Aceitar as suas falhas e lidar com elas é um passo fundamental para a evolução pessoal, uma vez que todos estão suscetíveis às falhas. Algo como “Divertida Mente” fez ao destacar a importância da tristeza no nosso cotidiano.

Entretanto, também considero que Johnson tem alguns deslizes ao elaborar a trama. Um desses aspectos é a repetição de algo que sempre me incomodou em sua filmografia (que, além de “Looper” e “A Ponte de Um Crime”, inclui “Vigaristas”), que é a perda de ritmo que a história apresenta no segundo ato. Em “Os Últimos Jedi”, é a vez que esse aspecto menos incomoda, mas muito devido ao carinho que o público já tem com a franquia, o que torna mais fácil relevar. O fato do longa se assemelhar, estruturalmente, a “Rogue One: Uma História Star Wars” é outra característica que torna esse defeito menos perceptível, já que temos um começo trôpego, mas que se acerta no terceiro ato e tem um crescimento preciso e agradável.

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A produção poderia ser facilmente 20 minutos mais curtas, já que temos um bom filme, mas que tem um caráter estufado, com elementos que são apresentados e, não muito depois, descartados. A trama chega a se dividir em três núcleos que, por vezes, tornam-se confusos e até tiram o peso de algumas jornadas pessoais, caso de Finn (John Boyega) e Poe Dameron, que dentre os novos protagonistas, é o que menos evolui. Aspectos novos, mostrados em “O Despertar da Força”, ganham pouca ou nenhuma continuidade. Por um lado, acho uma escolha ousada e válida, a partir do momento que há um rompimento com as expectativas e isso permite brincar com o despreparo para o telespectador. É impossível não pensar “O que eles farão no episódio IX, então?” e não se empolgar com as possibilidades.

Mas é justamente pela história se estender demais (até mesmo o clímax parece acontecer antes do previsto), que esse rompimento vai perdendo seu impacto e as coisas vão se tornando cada vez mais previsíveis. Algo que pode demonstrar um pouco disso é a jornada de Kylo Ren (Adam Driver), que é bem trabalhada no começo, mas que, ao meu ver, comete deslizes no final, tirando o peso da evolução que o personagem vinha apresentando.

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Por falar em tirar o peso, algo que particularmente me incomodou foi a falta de gravidade e da sensação de perigo para com os mocinhos, algo bem alinhado as produções de super heróis. Não que o filme precisasse, de fato, ser um “O Império Contra Ataca”, mas a ousadia em romper com alguns conceitos é posta de lado na hora de pôr em perigo a vida dos principais personagens. Há uma estratégia de roteiro, ao meu ver, fraca, que mantém boa parte dos personagens na (confortável) situação de “Eles estão ficando sem tempo, mas claro que eles terão tempo para fazer sair dessa situação difícil”, em que ninguém é posto em perigo de verdade. Nas vezes em que o roteiro teve a chance de fazer algo mais desafiador, faltou coragem para continuar o rompimento e propor algo mais grave para a história.

Por mais legal que seja legal falar de Star Wars, já me estendi demais e está na hora de terminar o texto. Sobre as atuações, ótimos trabalhos de Daisy Ridley, Mark Hamill e Adam Driver, pilares que sustentaram a produção e que foram capazes de mostrar algo diferente do que haviam apresentado antes dentro deste universo. Em seu último trabalho (infelizmente), Carrie Fisher traz uma interpretação sólida e solene, mostrando que os acontecimentos do último filme impactaram, de fato, a personagem.

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Não tão bem explorados quanto antes, John Boyega e Oscar Isaac não brilham tanto quanto antes. Algo que é compensado com a atuação satisfatória dos novatos Laura Dern (segura no papel) e de Benicio Del Toro, que mesmo com pouco tempo em tela, trouxe um dos melhores personagens da sequência, e que espero que retorne nos longas futuros.

Os Últimos Jedi” não apenas é um dos melhores filmes do ano, como um dos melhores dentro da franquia. O resultado final da produção é algo com uma excelente mensagem, que rompe as expectativas (até certo ponto) e desenvolve vários de seus principais personagens, além de ser empolgante e bonito esteticamente. O retorno de J.J. Abrams para dirigir o episódio IX, que será lançado daqui um ano e meio, pode até ser recebido com menos entusiasmo para os que preferem este ao “Despertar da Força”. Mas a nova trilogia caminha para um grande e ótimo desfecho, provando estar cada vez mais segura de si – e sem o receio de fracassar.

Nota: 8,5/ 10.

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