O Destino de uma Nação

Atuação digna de prêmio de Gary Oldman é o ponto alto em longa sobre o célebre político britânico”

Por Luís Gustavo Fonseca

O início da Segunda Guerra Mundial não foi um período fácil para o Reino Unido e o restante das forças Aliadas. Com as sucessivas vitórias da Alemanha Nazista, que expandia sua conquista e influência rapidamente para a parte ocidental da Europa, os ingleses viam-se acuados, com a possibilidade de suas tropas (cerca de 300 mil soldados) serem dizimadas, o que deixaria o país desprotegido contra os ataques de Hitler. Neste cenário conturbado e de desesperança, o Parlamento Britânico escolheu a figura controversa de Winston Churchill (Gary Oldman) para assumir o cargo de Primeiro Ministro. E ele acabaria sendo uma das peças importantes para mudar o rumo do conflito.

Focando nas primeiras semanas de Churcill como premier inglês, “O Destino de uma Nação” pode até apresentar uma versão romantizada do célebre ministro, mas nem por isso, menos válida ou bem construída, abordando um momento delicado do que talvez seja a maior figura política da história da Inglaterra. O roteiro de Anthony McCarte (“A Teoria de Tudo”) concentra-se em apresentar e desenvolver os principais traços do protagonista: um homem decidido, aguerrido e de temperamento belicoso, e que em nenhum momento, está disposto a se render.

DARKEST HOUR

A primeira aparição do personagem, com ele gritando e xingando sua nova datilografista, Elizabeth Layton (Lily James, de “Em Ritmo de Fuga”), é precisa ao mostrar o lado imperfeito do protagonista. Graças ao seu temperamento complicado e explosivo, Churchill não era das pessoas mais fáceis de se lidar, criando a imagem de alguém antipático e, como o próprio Rei George VI (Ben Mendelsohn, de “Rogue One: Uma História Star Wars”) o define, “assustador”.

Se isso é um detalhe que torna mais difícil a tarefa do público de se simpatizar com o personagem, também é o ponto que o torna mais humano e, por isso, mais profundo e complexo. O resultado final até mostra um Churchill heróico, mas que ainda é capaz de apresentar uma personalidade com defeitos e sujeita às falhas.

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Outro mérito do roteiro está em sua condução e no clima de tensão que permeiam às cerca de 2 horas do filme. A dinâmica da obra é coesa e bem feita, com a presença de raras “barriguinhas” no decorrer da história. Como o foco é a jornada de Churchill, algumas subtramas são pouco exploradas, o que dá a sensação de deslocamento para elas, mas nada que comprometa o enredo.

Apesar do espectador saber o desfecho dos acontecimentos, o texto consegue criar uma sensação de nervosismo da situação difícil em que Churchill se encontra, perdendo batalhas no conflito e vendo-se pressionado por todos os lados, com quase nenhum apoio político. É devido a esse clima de incerteza que a curva da narrativa consegue desenvolver-se de forma satisfatória, proporcionando um agradável terceiro ato e um desfecho à altura da imagem do político, com o seu célebre discurso “We’ll Never Surrender” (“Nós Nunca nos Renderemos”).

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Churchill: uma luz no meio da escuridão

Um fator que colabora ainda mais para a construção dessa tensão é a boa direção de Joe Wright (“Peter Pan”). Acostumado a comandar longas de época, como “Anna Karenina” e “Orgulho e Preconceito”, o diretor tem méritos ao proporcionar uma ambientação sufocante, colocando a câmera sempre rente ao rosto dos personagens. A grande sacada, porém, está na iluminação e na fotografia. A luz é sempre escassa, criando ambientes escuros e que reforçam a sensação de solidão e de que não há saída para o político – além de fazer jus ao título em inglês da obra, “Darkest Hour” (“A Hora Mais Escura”, que já é o título de um filme da Kathryn Bigelow aqui no Brasil).

O grande trunfo da produção, entretanto, é a atuação de Gary Oldman como protagonista e a maquiagem para que o ator ficasse igual ao premier. Oldman eleva o trabalho da construção do personagem feita pelo rotiero e, consequentemente, torna mais afável o próprio protagonista. Ele consegue explorar as diferentes facetas do político, sendo imponente e enérgico nos momentos críticos, mas sem esquecer a fragilidade e o medo que o assustavam. Pode não ser a minha atuação favorita do ator, mas é, sem dúvidas, uma das grandes atuações de sua carreira e do último ano, o que torna a sua vitória no Globo de Ouro, se não justa,  ao menos aceitável. Os demais atores têm uma participação satisfatória, mas acabam ficando (e muito) na sombra de Oldman.

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Já a maquiagem é assustadora, ao transformar completamente o ator, deixando-o a cara do político, o que só potencializou o trabalho de Oldman. Aliado a alguns elementos, como o uso de charutos e o andar encurvado, com as mãos para trás – algumas das características de Churchill -, o casamento entre esses aspectos torna a encarnação do primeiro ministro ainda mais deslumbrante.

Por fim, apesar do esmero e da qualidade, “O Destino de uma Nação” não consegue tirar a impressão de que seja aquela típica produção feita para conquistar algo na temporada de premiações. No caso, o foco é na atuação de Gary Oldman (que fez por onde merecer), mas o filme não ousa em fugir do padrão de um drama histórico comum. Apesar disso, o longa vale pelo trabalho do protagonista, e para conhecer um pouco mais sobre uma das figuras centrais da Segunda Guerra – além de servir como um ótimo prólogo para Dunkirk”.

Nota: 7,5/10.

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